Educação é carente de fins claros, diz presidente da Academia Paulista de Educação

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Desde os anos 1970,  o aspecto quantitativo da educação brasileira tem tido certo atendimento. Mas, no que diz respeito à qualidade do ensino, o país ainda segue o modelo implementado na época do Brasil Imperial, avaliou o professor Paulo Nathanael Pereira de Souza, presidente da Academia Paulista de Educação, em encontro na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) nesta segunda-feira (17/03). Ele participou da reunião do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Fiesp.

“A educação brasileira está muito carente de fins claros, explícitos. Nós nunca tivemos no Brasil nenhum país modelar para o futuro. O que queremos desse país? Isso não está explícito em nada”, alertou.

Na avaliação do educador, a política educacional adotada aqui é “inconsistente e incompleta”. Ele acrescentou que o modelo educacional brasileiro ainda é o mesmo instituído por volta de 1840, época imperial.  “Não foi feito para o povo de modo geral, mas para a minoria das elites urbanas. Um modelo acadêmico, teórico e de inegável eruditismo. A imitação dessa escola se multiplicou pelo Brasil”, analisou.

Souza: referências do tempo do Brasil imperial. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Souza: referências do tempo do Brasil imperial. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Ele acrescentou que um traço de mudança no sistema educacional começou a surgir nos anos 1930, mas as escolas ainda tinham como modelo os colégios da época imperial. “E assim foi, os educadores cada vez mais perdidos com o que devia ser feito, com isso a educação brasileira nunca teve muito rumo”.

Analfabetos 

Segundo Nathanael de Souza, há no Brasil pelo menos 57 milhões de analfabetos funcionais, pessoas que, mesmo capacitadas, têm dificuldade de compreender textos simples. “Estamos com uma educação sem qualidade e não houve força capaz de mudar nada disso. Não sei como o Brasil vai chegar ao plano de um país desenvolvido como é o seu sonho”, afirmou.

De acordo com o educador, a escola de base brasileira tem dificuldade para ser prática, uma vez que o aluno precisa decorar teorias e conceitos sem que haja uma orientação de como aplica-los no cotidiano. “É uma escola desligada da vida”.

Ele alertou ainda que o Brasil precisa de uma política educacional consistente, que parte de um modelo de país a ser alcançado no futuro.  “Em certo ponto, qualquer país precisa pensar como será seu formato daqui 10, 20, 50 anos e dentro desse panorama estarão os fins da educação, ou seja, o que fazer para, por meio da educação, chegar a esse modelo futuro”, explicou.

O exemplo da Coreia do Sul 

Ele citou como exemplo a Coreia do Sul, que, nos anos 1960, adotou uma política educacional para alavancar o país como potência no longo prazo. “Tudo voltou-se para educação nesse país. Foi construído um centro de reformas educacionais, um órgão composto por empresários, educadores e intelectuais para projetar a Coreia do futuro”, lembrou o educador.

A reunião do Consea: necessidade de adoção de um modelo educacional para o país. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

A reunião do Consea: necessidade de adoção de um modelo educacional para o país. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp


“Esse grupo que começou a traçar a política social do país percebeu que a educação seria a estrada real para o desenvolvimento. É uma experiência digna de referência do mundo”, acrescentou.

O primeiro encontro do Consea da Fiesp foi conduzido pelo presidente do conselho, Ruy Altenfelder. Ele registrou a bem sucedida implantação do regime de tempo integral nas escolas do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) sob o conceito de uma educação abrangente e estimulante, a qual, segundo Altenfelder “requer a utilização pelos alunos e docentes de infraestrutura adequada”.