ENTREVISTA: COMO APOIAR A EDUCAÇÃO DE QUALIDADE NO BRASIL

Por Karen Pegorari Silveira

Natacha Costa, diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz, sugere como as indústrias podem se envolver na melhoria da educação no Brasil

Para ela, o setor empresarial pode ser interlocutor e apoiador da sociedade civil no monitoramento das políticas de educação, pode ser importante aliado na efetivação do Marco Legal da Primeira Infância, pode favorecer o aleitamento materno e ainda oferecer estrutura para creches, entre outras iniciativas.

Leia Mais na íntegra da entrevista:

Qual o papel das indústrias no apoio ao ODS 4 – Educação de Qualidade?

Natacha Costa – A indústria necessita do investimento em educação; ela se beneficia da melhoria da educação tanto em seus quadros, quanto em relação à qualidade de vida do conjunto social no qual está inserida. Quando uma indústria atua em determinado território, ela pode e deve investir em atividades de interesse da população local, trabalhando em colaboração com o poder público e agentes da sociedade e também, quando do interesse do território, financiando, por exemplo, a execução de pesquisas, diagnósticos, formações que apoiem a melhoria da educação local.

As indústrias também podem ser interlocutores e apoiadores da sociedade civil no monitoramento e no advocacy por políticas por priorização da educação no investimento público, se responsabilizando, inclusive, por contrapartidas com foco nas políticas educacionais.

Por fim, a indústria deve monitorar a si própria. Ou seja, garantir que suas atividades estejam em consonância com os ODS e com a efetivação do direito educação.

Por que é importante as indústrias colaborarem com a educação na primeira infância de modo que as crianças estejam prontas para o ensino primário?

Natacha Costa – Para que as crianças possam acessar o primário com qualidade, é necessário que tenham tido garantido seu direito à educação infantil. Especialmente na primeira infância é fundamental que as crianças possam acessar políticas integradas de saúde, assistência social, lazer e cultura – para que, assim, possam se desenvolver em todo seu potencial. É fundamental que as crianças possam viver sua infância com dignidade.

Inúmeros estudos identificam que o investimento na primeira infância é fundamental para o desenvolvimento sustentável do país – e que sociedades mais justas e equânimes investiram fortemente na garantia de políticas de primeira infância.

As indústrias podem ser importantes aliadas na efetivação do Marco Legal da Primeira Infância, conquista da sociedade civil e da Frente Parlamentar da Primeira Infância que indica os passos necessários para o desenvolvimento de políticas adequadas aos bebês e crianças, desde a gestação. Para que a Lei seja aplicada de fato é necessária a integração de todos os agentes da sociedade, especialmente na pressão pela qualidade das políticas.

O Marco explicita o interesse já pactuado da sociedade e é um poderoso instrumento de referência também para o investimento social privado e para a própria atuação da indústria. De forma prática, por exemplo, é fundamental que as indústrias atentem para suas políticas de apoio à maternidade e paternidade, garantindo estrutura adequada para que mães e pais possam se dedicar às crianças. Iniciativas de apoio ao aleitamento materno, creches para os filhos dos funcionários e licença paternidade são exemplos importantes de como a indústria pode apoiar a primeira infância.

Quais as vantagens para as empresas que investem na educação e qualificação de seus colaboradores?

Natacha Costa – A inovação – “matéria-prima” do fazer industrial não é gerada espontaneamente. Para inovar, é necessário que haja pesquisa. E para que haja pesquisa, a educação é fundamental. Precisamos qualificar não apenas os trabalhadores, mas ampliar fortemente o acesso ao ensino superior e diminuir as desigualdades educacionais da nossa população. A indústria se desenvolve ao passo que a sociedade se desenvolve, e o desenvolvimento está associado à possibilidade de a população pensar, criar caminhos para sua emancipação, imaginar, pesquisar e consequentemente criar e inovar.

Como as micro e pequenas empresas podem contribuir para que as metas do Objetivo 4 sejam alcançadas?

Natacha Costa – Em primeiro lugar, independente do seu porte, as empresas devem investir em políticas de formação de seus colaboradores, garantir o direito que elas e eles têm à maternidade e paternidade, garantir o direito dos pais a participarem de reuniões nas escolas, de levar seus filhos ao médico sem sanções, etc.

Como um segundo ponto, as pequenas empresas normalmente estão nos territórios – e por isso elas podem e devem se aproximar das escolas da região, atuando como colaboradoras locais, compartilhando seus conhecimentos e se tornando parceiras na promoção de oportunidades de desenvolvimento para os estudantes. São muitas as possibilidades – desde a colaboração com eventos nas escolas (com doação de materiais e recursos, apoio à qualificação da infraestrutura, etc.) até a participação de planejamentos coletivos com a escola para construção de atividades conjuntas, como a criação de um espaço na comunidade para compartilhamento dos projetos dos estudantes, ou com convite para palestrantes e formadores da comunidade, ou ofertando diretamente alguma atividade para os estudantes ou seus familiares.

Qual o item do ODS 4 é o mais importante e que necessita de maior apoio do setor empresarial?

Natacha Costa – Todos os subitens do objetivo 4 estão, em alguma medida, inter-relacionados ao primeiro deles, que preconiza que até 2030, possamos garantir que todas as meninas e meninos completem o ensino primário e secundário livre, equitativo e de qualidade, que conduza a resultados de aprendizagem relevantes e eficazes. Como afirma nossa Constituição, a educação é dever do Estado e da família em colaboração com toda a sociedade.

Para que possamos atingir aos demais subitens, precisamos avançar tanto na garantia do acesso e da qualidade às creches e à pré-escola, quanto qualificar a educação básica. Cada vez mais, precisamos atuar coletivamente para que a educação seja prioridade no investimento público, um projeto de Estado contínuo e comprometido, e uma causa compartilhada por todos os agentes sociais.

Ao mesmo tempo, a indústria pode colaborar diretamente com o subitem 4b. que diz que é necessário ampliar globalmente o número de bolsas de estudo para o ensino superior, incluindo programas de formação profissional, de tecnologia da informação e da comunicação (TIC), técnicos, de engenharia e científicos programas científicos em países desenvolvidos e outros países em desenvolvimento. A indústria pode e deve apoiar a criação de bolsas de estudo que tenham, inclusive, foco na redução das desigualdades educacionais de gênero, étnico-raciais e sociais.

Ao mesmo tempo, as indústrias podem apoiar todos os subitens, por meio do investimento em pesquisa e levantamento de dados, em seminários e debates de interesse sobre a temática e em iniciativas da sociedade civil que tenham como foco o direito à educação pública.