Xico Sá no InteligênciaPontoCom: ‘Gosto de fazer esse papel de camelô dos meus livros’

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Foi um passeio pelo papel do escritor hoje, recheado pela citação de livros diversos e pelo registro do amor na literatura. Convidados do InteligênciaPontoCom de agosto, o bate-papo mensal do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP), realizado na noite desta terça-feira (19/08), os escritores e jornalistas Manuel da Costa Pinto e Xico Sá discutiram essas e outras questões numa conversa informal e muito próxima do público. O debate lotou o Espaço Mezanino do prédio do Sesi-SP e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na capital paulista.

Para Xico, existe atualmente uma tendência de maior exposição da figura do escritor, motivada, entre outros fatores, pelo aumento no número de festivais literários no Brasil, sendo a Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) a iniciativa mais conhecida nesse sentido. “Gosto de fazer esse papel de camelô dos meus livros”, disse. “Agora, a performance nos festivais também é considerada. Ganho novos leitores com essas andanças, pessoas que me conhecem, conversam comigo e compram meus livros depois, não é só um espetáculo”.

Nesse sentido, o jornalista citou o exemplo do angolano Valter Hugo Mãe, autor de obras como O Filho de Mil Homens, que “se tornou ainda mais conhecido no Brasil depois de participar da Flip”.

Entre delírios e musas

Num rápido passeio pela sua obra, Xico destacou seu lançamento mais recente, O Livro das Mulheres Extraordinárias, com textos para 127 eleitas entre personalidades da TV, da moda, da música e do teatro. “São crônicas derramadas a várias musas”, explicou. “Da pornochanchada, como Vera Fischer e Nicole Puzzi, até cantoras jovens como Mallu Magalhães e Céu”, explicou. “São mulheres que me comovem, o critério foi muito subjetivo”.

Xico: “Ganho novos leitores com essas andanças”. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Xico: “Ganho novos leitores com essas andanças”. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Segundo ele, estrelas como as atrizes Malu Mader e Sônia Braga, “por serem tão importantes”, o fizeram “amarelar na hora do enfrentamento”. “Na verdade, escrevi cantadas literárias, tentativas, que até agora não tiveram muito sucesso, de seduzi-las”, brincou.

A inspiração para o livro veio dos textos do italiano Alberto Moravia, que já escreveu sobre divas como a atriz Claudia Cardinale, também nascida na Itália. “Me inspirei nele e na observação lírica das mulheres feita por brasileiros como Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos”, contou.

E por falar em referências, foi Xico quem inspirou o novo filme do diretor pernambucano Cláudio de Assis, Big Jato. A produção conta a história de um menino que acompanha o pai na boleia de um caminhão, no sertão nordestino, no início dos anos 1970. E teve como base as memórias do jornalista, nascido no Crato, Ceará. “Faço uma ponta de mim mesmo no cinema”, contou. “É uma autobiografia delirante”.

Sofrendo muito

Solicitado pela plateia a falar sobre amor, o jornalista disse ser esse um de seus temas prediletos. “Estou sempre sofrendo muito”, explicou. “Mas, mesmo diante dos revezes do amor, todos os meus textos estão cheios de provocações ou mostram essa tentativa de entender como é juntar um homem e uma mulher debaixo do mesmo teto ou do mesmo viaduto”.

Os relatos sobre futebol são outra paixão. “Já fui um repórter sério, fiz jornalismo investigativo, fui editor, mas cansei, fui cansando”, contou. “A crônica esportiva mexe comigo como se eu estivesse começando, aos 16 anos, no Jornal do Commercio, no Recife”.

Produto de excelência

Em sua participação no debate, Costa Pinto destacou pontos como o fato de que o livro é visto como um “produto de excelência no Brasil, mesmo que as pessoas não tenham o hábito de ler”. “As pessoas têm vergonha de entrar numa livraria e expor a sua falta de conhecimento, o que não acontece numa Bienal, por exemplo”, disse. “A Bienal é a loja de departamento dos livros, lá o público não se sente afetado pelo apartheid cultural que assola o país”.

Costa Pinto: “A Bienal é a loja de departamento dos livros”. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Costa Pinto: “A Bienal é a loja de departamento dos livros”. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Sobre os debatedores

Xico Sá é escritor e jornalista, colunista do jornal Folha de S. Paulo, autor de Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha e mais dez livros. Na TV, Xico participou do programa Saia Justa, no GNT.

Já Manuel da Costa Pinto é autor dos livros Albert Camus – Um Elogio do Ensaio, Literatura Brasileira Hoje, O Livro de Ouro da Psicanálise e Paisagens Interiores e Outros Ensaios. Foi curador da edição de 2011 da Flip.