Debate sobre mudanças disruptivas nem começou para valer no Brasil, diz Octavio de Barros na Fiesp

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O economista Octavio de Barros fez nesta segunda-feira (8 de maio) durante reunião do Conselho Superior de Economia da Fiesp (Cosec), do qual é integrante há 18 anos consecutivos, um relato sobre o impacto sistêmico provocado pelas chamadas tecnologias disruptivas. À frente do Instituto República, think tank voltado a economia, política, cidades e cultura, Barros usou como base de sua apresentação as atividades de que participou nos últimos cinco anos no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça).

Além de efeitos dessas novas tecnologias sobre a forma de fabricar e distribuir produtos, Barros explicou as implicações sociais e políticas das mudanças esperadas para os próximos anos. Deixou um alerta: vão gradualmente definhar as empresas que não forem capazes de se antecipar às grandes transformações globais.

O tema de sua palestra, muito aplaudida pela plateia lotada, foi “Muito além do cenário econômico: mudanças tecnológicas disruptivas afetando os modelos de negócios, o mundo do trabalho e a representação política”.

As pessoas querem usar, em vez de ter – isso vale para carros, casas e até banco, explicou Barros. O avanço do blockchain deverá eliminar a intermediação nas transações e terá implicações tão relevantes quanto um dia foi o surgimento da internet.

Com a manufatura aditiva, empregando impressoras 3D e 4D, as empresas no futuro venderão o desenho, e não o produto físico, que será feito até em casa ou nas fábricas. A logística vai ser posta em xeque. E é prevista uma imensa transformação no sistema de patentes considerando a brutal velocidade das inovações.

Toda essa economia digital vem afetando bastante a discussão sobre a fronteira cada vez mais tênue entre manufatura e serviços. A produção manufatureira é cada vez mais automatizada, robotizada, e mesmo assim falta mão de obra capacitada. Citou Bill Ford, presidente mundial da Ford, para quem as montadoras deverão se tornar se tornar produtoras de software em um futuro não muito distante.

Praticamente não há barreiras à entrada de empresas em novos mercados. “Não é questão de grana, a questão é essencialmente capital intelectual”, afirmou Barros. Mas, destacou, a inovação requer ambiente de incentivos propício a seu desenvolvimento. Chamou a atenção para o fato de que os protagonistas da inovação do passado não serão necessariamente os protagonistas da inovação no futuro.

Nos mercado de veículos isso fica claro com o crescimento dos veículos autônomos produzidos por atores sem qualquer tradição no universo automotivo incluindo Google, Apple e Uber – e mesmo fábricas como a Tesla, sem tradição na área.

Na opinião de Barros, as tecnologias de estocagem de energia têm tido uma evolução surpreendente. Indiretamente, elas favorecem o desenvolvimento de fontes renováveis, como eólica e fotovoltaica, explicou.

Relatou painéis a que assistiu no Fórum Econômico Mundial sobre indústria e ressaltou que o futuro não é de uma sociedade imaterial – a produção de bens industriais continuará a aumentar, mas a forma de produzir vai mudar. Ou melhor, já está mudando. Ao contrário das teses contrárias, ele aposta em uma sociedade hiperindustrial, parafraseando o título do livro de Pierre Veltz.

Estudos revelam que, em 2025, 25% de todas as decisões humanas serão automatizadas ou robotizadas. Uma combinação de robôs, inteligência artificial, máquinas que pensam, sensores onipresentes, big data, internet das coisas (IoT), já é o presente.

Reunião do Conselho Superior de Economia da Fiesp, com a participação de Octavio de Barros. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Neurociência

“É um negócio muito sério”, disse Barros a respeito da interação entre cérebro e computador. Há forte crescimento dessas chamadas ciências do cérebro.

Exemplo de empresa atuando nisso é a Neuralink, de Elon Musk, fundador da Tesla, que considera inexorável a superioridade da inteligência cognitiva artificial em relação à inteligência humana. A ideia da Neuralink é investir no desenvolvimento de chips introduzidos no cérebro humano como única forma de convivência não desigual do homem com a máquina no futuro.

Mundo do trabalho

Novas qualificações serão requeridas, disse Barros. Há uma clara distinção entre emprego e trabalho. Os empregos na forma tradicional casada com seguridade social estão gradualmente em vias de extinção. Estudo da Universidade de Oxford prevê a possibilidade de desaparecimento em curto prazo de 47% dos empregos atuais.

Estamos, explicou, diante de uma “jobless productivity”, ou seja, um aumento de produtividade sem geração de empregos. Isso, segundo Barros, vai requerer um esforço brutal de qualificação, sobretudo da classe média. Além disso, já se sabe que a automação e a robotização são altamente rentáveis, mas a dúvida é como será no futuro a partilha social dos ganhos de produtividade. Por mais surpreendente que possa parecer, a ideia da renda básica de cidadania, disse o economista, é discutida por países maduros como forma de lidar com o inevitável descompasso entre os empregos que serão destruídos e os que serão criados com as novas tecnologias.

O mundo do trabalho experimenta grandes transformações. Os novos empregos tendem a ser gerados sob a forma do trabalho sob demanda ou freelance, com trabalhadores independentes para serviços pontuais e de gratificação imediata. Enquanto gerações anteriores ao longo da vida tiveram de 7 a 10 empregos, no novo mundo do trabalho as pessoas passam a ter 7 a 10 atividades simultâneas.

Citou o precariado (precariato), nova categoria socioeconômica, cunhada pelo pesquisador Guy Standing da Universidade de Londres. Cidadãos até mesmo bem qualificados circunstancialmente acabam aceitando uma vida instável e não têm senso de ocupação clássico. “É algo muito complexo, com impactos imensos até do ponto de vista político.” O chamado precariado não é uma categoria anti-capitalista, muito pelo contrário, bastante inserida na dinâmica capitalista.

Um dos melhores painéis de Davos, em sua opinião, foi sobre educação. Na quarta revolução industrial a educação deverá se inspirar conceitualmente na do Renascimento. Deverá ser o incentivo à inventividade e à criatividade, ao lado das chamadas ciências duras. Várias universidades relevantes no mundo estão permanentemente promovendo alterações no seu mapa de qualificações e nas grades curriculares em função da velocidade dos novos conhecimentos requeridos.

Destacou que 65% das crianças na faixa de 3 a 4 anos trabalharão em profissões que ainda não existem.

Outra questão bastante abordada na palestra foi o tema da longevidade. A esperança de vida no mundo vem aumentando aceleradamente. E o Brasil é o país que até 2050 mais envelhecerá (idade média da população). As implicações disso são imensas do ponto de vista econômico (fiscal em particular), social e político. O financiamento da longevidade é tema altamente complexo, segundo Barros.

Política

Em Davos, debateu-se muito a chamada “crise da democracia”, disse Barros, mencionando a preocupação de Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, com o dano provocado pelo populismo tanto à direita como à esquerda. Há colapso da esquerda e incompetência da direita, levando ao chamado thirdwaynism, fenômeno que se observa em dezenas de países. O exemplo da recente eleição da França é emblemático disso. Surge o imperativo de uma nova narrativa política que torne compatível o interesse de quem investe e de quem trabalha.

Há uma demanda mundial por proteção – à esquerda, via Estado do bem-estar, e à direita, via xenofobia, com fechamento de fronteiras à imigração e protecionismo comercial. Governar está cada vez mais difícil no mundo inteiro, disse.

Economistas e intelectuais, segundo Barros, subestimam muito os impactos brutais da economia digital sobre a cultura, a política, a economia e aspectos sociais.

Enquanto o mundo constrói uma agenda do futuro, o Brasil ainda lida teimosamente com uma agenda de passado. “Este debate nem começou no Brasil para valer”, afirmou Barros ao encerrar sua participação. A reunião foi conduzida por Paulo Francini, vice-presidente do Cosec.