Agronegócio deve continuar dependente de rodovias pelos próximos 15 anos

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

José Vicente Caixeta Filho, da Esalq/USP: não faz sentido que planos de médio e longo prazo sejam interrompidos com a troca de mandatos. Foto: Everton Amaro/Fiesp

A safra 2013/14 de grãos do Brasil, que está terminando, deve ultrapassar as 191 milhões de toneladas enquanto a produção da temporada 2014/15 pode chegar a 200 milhões de toneladas, segundo estimativas do Ministério da Agricultura.

Em meio a um forte incremento da produção brasileira, inclusive com promessa de recordes nos próximos anos, o produtor ainda vai precisar escoar sua produção por meio de rodovias, com custo logístico muito acima dos praticados em países como os Estados Unidos da América (EUA).

Essa dependência do modal rodoviário deve continuar pelos próximos 15 anos, de acordo com José Vicente Caixeta Filho, professor pós-doutor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

“Então, na forma de organizar o negócio, eu preciso me organizar para fazer também o bom uso do transporte rodoviário. Agora, é importante que ferrovias e dutos cresçam, que os portos melhorem e que tenha armazém”, disse Caixeta. “Isso é clássico, e esperado há um bom tempo, mas pelo que observamos as coisas tem um passo muito peculiar e muitas dessas obras não cabem dentro de um mandato político de quatro anos”, criticou.

Para Caixeta, não faz sentido “nas trocas de cadeiras seja na esfera municipal, estadual ou federal, interromper planos que digam respeito a médio e longo prazo”.

Cobrar o governo

Edeon Vaz Ferreira, coordenador do Movimento Pró-Logística da Aprosoja: iniciativa privada não realiza uma cobrança organizada ao governo por projetos de eficiência. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Na avaliação de Edeon Vaz Ferreira, coordenador do Movimento Pró-Logística da Aprosoja, a culpa pelos elevados custos logísticos pela precária infraestrutura é da prioridade do país às rodovias e do descaso com as ferrovias. E, segundo ele, também da iniciativa privada, que não realiza uma cobrança organizada ao governo por projetos de eficiência.

“É muito fácil sentar e falar mal do governo. Mas se não formos proativos, fica difícil mudar esse jogo”, provocou.

Segundo Ferreira, uma carga de soja do Mato Grosso roda mais de 2,5 mil quilômetros por rodovia de Sorriso até o Porto de Santos para então ser exportada a um custo médio de mais de US$ 140 por tonelada no período de safra. Para chegar a um destino como Xangai, na China, é acrescido um custo de US$ 45 dólares. “Tudo isso em função da matriz que o Brasil escolheu.”

“O produtor do Meio-Oeste norte-americano roda três mil quilômetros por ferrovia e paga US$ 33 dólares a tonelada. É difícil competir com um país como esse que, além de outras facilidades, tem uma infraestrutura privilegiada”, afirmou.

Ele acrescentou ainda que o Brasil usa 61% de rodovias para escoar sua produção, enquanto os Estados Unidos utilizam 5% do mesmo modal.

O problema da armazenagem também trava o Mato Grosso, que detém cerca de 30% da produção nacional de soja. Segundo Ferreira, a capacidade de armazenagem existente no estado é de 30,1 milhões de toneladas, enquanto a safra 2013/14 de soja pode chegar a 41,4 milhões de toneladas e o volume necessário de armazém é de 49,7 milhões de toneladas.

“Falta armazenagem para 19 milhões de toneladas no Mato Grosso”, completou.

Segundo Caixeta, todas as reinvindicações do setor são bem conhecidas há mais de 20 anos, “e não tem mudado nada. Ou somos muito ruins de comunicação ou de fato nada tem sido feito. Todos somos culpados por isso.”

Antônio Carlos Costa, gerente do Deagro da Fiesp: IC Agro aponta que avaliação do governo para resolver problemas de infraestrutura é uma das piores do índice. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Moderador do painel sobre gargalos do escoamento da produção agropecuária, o gerente do Departamento de Agronegócio da Fiesp (Deagro), Antonio Carlos Costa, observou que o tema está há muitos anos na pauta do setor. “Infelizmente, muito mais pelos problemas do que pelas soluções.”

“Questões de infraestrutura e escoamento da produção são sistematicamente apontadas pelos produtores como alguns dos maiores gargalos para o negócio. E a avaliação do que o governo tem feito é uma das piores do índice”, disse Costa, referindo-se ao Índice de Confiança do Agronegócio, o IC Agro, desenvolvido pela Fiesp.

Também participaram do painel o gerente de operação de logística do Grupo Cosan, Fernando Odihel, e a diretora de Logística da Odebrecht, Juliana Baiardi.

Segundo Baiardi, o Brasil precisa investir pelo menos 4% do Produto Interno Bruto (PIB) em logística pelos próximos 20 anos para alcançar níveis como os do Chile.

“A gente tem que buscar essa recuperação. O investimento em percentual do PIB deveria ser 4% e não 2%. A média de todos os países gira em torno de 5%”, comentou.


L.E.T.S.

A Semana da Infraestrutura da Fiesp (L.E.T.S.) representa a união de quatro encontros tradicionais da entidade: 9º Encontro de Logística e Transporte, 15º Encontro de Energia, 6º Encontro de Telecomunicações e 4º Encontro de Saneamento Básico.

O evento acontece de 19 a 22 de maio (segunda a quinta-feira), das 8h30 às 18h30, no Centro de Convenções do Hotel Unique, em São Paulo.

Mais informações: www.fiesp.com.br/lets