Mobilidade sustentável em discussão

Berlin conseguiu melhorar a poluição atmosférica, modernizando a frota de veículos. Washington reduziu a quantidade de veículos em trânsito, substituindo o transporte individual pelo coletivo.

As duas experiências bem-sucedidas talvez um dia possam ser aplicadas em São Paulo, mas hoje a cidade ainda precisa resolver questões bem mais básicas. Entre elas, garantir transporte a quem não tem renda para pagar; ampliar e melhorar o transporte público para retirar parte dos automóveis de circulação e até mesmo consertar calçadas para impedir que as pessoas se acidentem, segundo Laurindo Martins Junqueira, Superintendente da SPTrans.

Junqueira participou da mesa-redonda Mobilidade Urbana Sustentável realizada nesta quinta-feira (26), durante a 4ª Mostra Fiesp/Ciesp de Responsabilidade Socioambiental , que contou também com dois palestrantes estrangeiros e com Miguel Bucalen, Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano.


Redução de viagens
Brian Lagerberg, dos Estados Unidos, apresentou o programa Commute Trip Reduction (CRT – Comitê de Redução de Viagens), que implantou em Washington e foi transformado na primeira lei mundial sobre mobilidade sustentável.

Por meio de um trabalho em parceria com o governo local, instituições, comunidade e empresas, as viagens motorizadas individuais, responsáveis por grandes congestionamentos, foram reduzidas.

O transporte de pessoas para o trabalho passou a ser feito principalmente por 3.000 vans, cada uma levando oito profissionais. Os roteiros são feitos pelas empresas, que também estimulam a carona solidária. Para completar, estimula-se também o uso de metrô e ônibus.

O resultado prático é a retirada de cerca de 28 mil veículos de circulação, que teve como conquência imediata a melhoria da qualidade do ar e a redução de atrasos ao trabalho, ampliando a produtividade das empresas.


Circulação limitada
Martin Lutz, diretor de Saúde e Meio Ambiente do Senado de Berlin, apresentou o projeto Zonas de Baixa Emissão de CO², que limita a circulação de veículos poluidores nas cidades europeias.

A experiência inicial foi feita em Berlin, onde o número de veículos em circulação não foi alterado, mas todos precisaram se adequar a novas tecnologias para reduzir a emissão de poluentes.

Quem não pôde modernizar o carro, precisou trocar por outro modelo que atenda as novas normas ambientais. Para entrar no centro da cidade, onde vive um terço da população, o automóvel precisa ter afixado um adesivo que comprove sua adequação.

A medida provocou a redução de 30% do carbono negro presente em partículas na atmosfera. Copiada por 40 países, a experiência alemã, segundo o palestrante, teve sucesso porque contou com o apoio do governo, das empresas e da comunidade para as indispensáveis mudanças estruturais.


Planos priorizam transporte
Miguel Luiz Bucalen, Secretário Municipal do Desenvolvimento Urbano, disse que qualquer projeto para a cidade tem que levar em conta a questão do transporte.

“Hoje, muita gente perde de quatro a cinco horas por dia no deslocamento entre a casa e o trabalho. O Plano Diretor Estratégico procura equacionar essa questão interligando meios de transporte e provendo regiões de melhorias, de forma a ampliar as oportunidades de emprego próximo às moradias”, disse ele.

Como exemplo, citou a região Lapa Brás, cortada por duas linhas férreas, que provocaram a degradação local. O projeto de recuperação da área deve enterrar as linhas e criar uma via com um parque para proporcionar lazer e qualidade de vida.

Carro: sonho ou pesadelo?
Como convencer pessoas das classes C e D – que só agora, com as facilidades oferecidas, têm acesso a seu primeiro carro – a deixar o veículo em casa e usar o transporte coletivo?, questionou Laurindo Junqueira, Superintendente do SPTrans.

Para ele, o sonho do carro próprio tornou-se um pesadelo para a cidade, que já estava bastante sobrecarregada. A situação deverá ser amenizada com a construção de rodoanéis, não apenas nas rodovias, mas também no metrô, na implantação de monotrilhos e outros investimentos em transporte público.

São Paulo tem hoje 331 vias confinadas. Esse número deverá passar a 600 quilômetros em 2014, quando será realizada a Copa do Mundo, incluindo metrô, ferrovias, monotrilho e corredores de ônibus.