Artigo: Emancipação e bem-estar em tempos de modernidade líquida

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Por João Paulo Bittencourt*

Quando pensamos no bem-estar humano, dentro e fora das organizações, é usual que a palavra ‘equilíbrio’ tenha destaque e seja incentivada sem contestações. É imprescindível, entretanto, considerarmos que alcançar equilíbrio é árduo e, por vezes, parece ser impossível. Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês e professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia, que entende estarmos vivendo tempos líquidos, em que os espaços e barreiras (inclusive as territoriais) perdem relevância. São tempos em que tudo é transitório.

Nesta modernidade líquida a fluidez e a instabilidade trazem em seu bojo o desequilíbrio entre a segurança e a liberdade. Se, por um lado, emerge a racionalidade instrumental, o ganho e o prazer imediato, por outro aparecem os efeitos colaterais, como a ansiedade intensa, a falta de laços duradouros, a queda da confiança e o egoísmo exacerbado. Como a insegurança é contínua e vale o que se mostra, o consumismo emerge como um paliativo para o significado, um analgésico para o mal-estar recorrente.

A necessidade de liberdade, em um contexto fluido e inseguro, passa a enfatizar a individualidade, trazendo consigo uma competitividade agressiva, desconfiada dos outros e confiante em si, sufocando a capacidade de cooperação e de solidariedade. Os efeitos são possíveis de constatar em níveis individuais, grupais e organizacionais, uma vez que o estado de permanente insegurança e incerteza sobre o futuro leva à incapacidade de fazer planos e segui-los. Vale o hoje! ‘Viva intensamente’ e ‘ser feliz é o que importa’ são exemplos de frases que simbolizam a individualidade e imediatismo presentes.

Tais características são afetadas pelas tecnologias de informações e também influenciam seu uso. As relações propiciadas pelos meios de comunicação modernos demonstram a fragilidade de laços. Não são atraentes por sua facilidade de conectar, mas sim pela possibilidade constante de desconexão. O tempo corre, precisamos maximizar resultados. Dar ‘unfollow’ ou um ‘block’ na rede social é mais fácil e rápido do que dialogar e encontrar consensos. Em diversos sentidos, Bauman ressalta que é possível notar um esvaziamento e decadência da arte do diálogo e da negociação, e a substituição do engajamento e mútuo comprometimento pelas técnicas do desvio e evasão. O abandono do diálogo, o hedonismo – quem tem o prazer e a felicidade como bens supremos – e o foco na individualidade, entretanto, ao invés de proporcionar bem-estar às pessoas, tem aumentado a ansiedade e o mal-estar.

Entre as diversas razões para que isso ocorra, destacamos o desequilíbrio entre a liberdade e a segurança. A segurança emerge da comunidade, um ambiente que facilita o suprimento das diversas necessidades humanas e pode propiciar ao indivíduo meios para uma vida significativa. É importante para o indivíduo participar do meio e interagir com ele de forma genuína, ética e responsável.

Mas é preciso reconhecer: a vida em comunidade restringe sim a liberdade e a autonomia dos indivíduos. Fazer omeletes, entretanto, exige a quebra das cascas dos ovos. Então, como preservar a liberdade em comunidade?

Proponho que um dos principais elementos que auxilia na conciliação entre segurança e liberdade do ser humano é a emancipação do sujeito. A partir dela, vem o amadurecimento do indivíduo, ao considerar os anseios do meio em que está envolvido, os impactos de suas ações sobre a sua comunidade e a necessidade do fortalecimento de laços substantivos. A emancipação traz protagonismo com responsabilidade, alinhamento entre o presente e o futuro, assim como visão sistêmica a respeito de si e dos outros.

Desenvolver emancipação requer esforço e dedicação. Enseja a preocupação com o todo e não apenas com o que nos interessa diretamente. Implica em participar ativamente das decisões que influenciam nossas vidas, em praticar a ética em nossas ações, mesmo quando não somos beneficiados diretamente com isso. Implica em olhar o outro e ser empático, em fortalecer laços e consolidar relações interpessoais, interorganizacionais e intersetoriais. Embora pareça árdua, a emancipação é um caminho para o alinhamento entre liberdade e segurança, aspectos fundamentais para o bem-estar humano na modernidade líquida.

Por fim, é preciso refletir se nossas políticas e práticas de gestão organizacional inibem ou instigam a emancipação. Como nossos líderes atuam? Como perpetuadores da individualidade e da imaturidade, por meio do imediatismo e da grande distância do poder, ou como emancipadores e desenvolvedores de pessoas? Como se dá nossa relação com os diferentes stakeholders, de forma confiável e transparente ou como um jogo em que o mais perspicaz vence? Nossos resultados são avaliados de forma consistente, considerando os anseios de curto, médio e longo prazo ou valorizamos o resultado sem notar o eventual ‘rastro de sangue’?

Criar um ambiente emancipatório e que promova o bem-estar das pessoas na modernidade líquida vai muito além de práticas que tratam dos sintomas. Programas que estimulam o bem-estar são necessários e devem ser valorizados. Mas não substituem a necessidade da busca pelo equilíbrio entre a segurança e a liberdade humana, que passam pela abertura à comunidade e a emancipação do sujeito. Embora pareça desafiador, vale lembrar o que alerta Zygmunt Bauman: “Segurança sem liberdade é escravidão, liberdade sem segurança é o caos”.

* João Paulo Bittencourt é Mestre Profissional em Gestão Estratégica das Organizações e doutorando em Administração pela FEA-USP, consultor em Desenvolvimento Humano e Organizacional e pesquisador em temas como Desenvolvimento Humano, Arquiteturas Pedagógicas Inovadoras e Parcerias Intersetoriais.