Especialista francês defende o BIM como forma de dar produtividade ao setor de construção

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Durante o Seminário Internacional sobre o BIM (Building Information Modeling), realizado na Fiesp nesta quinta-feira (10/3), Jean Michel Pereira, professor da École Nationale des Ponts et Chaussées (ENPC), defendeu o método como meio de dar ganho importante de produtividade ao setor da construção. Para ilustrar essa necessidade de evolução, exibiu gráfico mostrando o que chamou de impactantes ganhos de produtividade em outros setores, comparados à estagnação na construção civil.

Há redução de custos, melhora na qualidade final do projeto e da própria obra graças ao BIM. Pereira explicou que o BIM não é um software ou uma simples ferramenta, mas um método, que aborda todas as fases da construção. Na França, disse, a sigla aparece cada vez mais, com o termo modelagem tendo como núcleo a maquete numérica.

O conceito remonta há 30 anos, com o surgimento de software para criação de edifícios virtuais. Em sua evolução, manteve o foco central na maquete digital. Os dados que alimentam a maquete depois são analisados de diversas formas. Diferentemente de um projeto clássico, no BIM, por a maquete virtual ser o centro, toda as instâncias têm sempre os dados atualizados. Há um protocolo padronizado –e aberto- para permitir a interoperabilidade. Explicou que licitações e concorrências por vezes determinam o uso desses protocolos.

A concepção via BIM é mais cara, mas as fases posteriores geram economia importante. Citou ganhos no projeto para arquitetos, engenheiros e responsáveis pela área financeira. Ele citou ganho de 7% na gestão de patrimônio graças ao BIM. Lembrou que o BIM não se aplica somente a imóveis novos, tendo uso também, por exemplo, em restaurações. A economia de energia pode ser de 10% a 30% graças ao projeto via BIM, afirmou.

Disse que para o canteiro de obras há ferramentas relativamente simples, que podem ser usadas por exemplo em tablets. Além do funcionário poder acompanhar o projeto, pode realimentar o sistema, mantendo-o sempre atualizado.

Mencionou alguns pontos que merecem atenção, como aspectos jurídicos – por exemplo, relacionados ao fato de várias pessoas alterarem o projeto, que pode portanto deixar de pertencer exclusivamente ao escritório de arquitetura. Disse que a formação dos diferentes autores, que é uma especialização na escola, é essencial para o BIM.

A capacitação da equipe foi um dos pontos abordados também por Sergio Roberto Leusin de Amorim, arquiteto e professor da Universidade Federal Fluminense. Para o sucesso do BIM, é preciso, ressaltou, qualificar toda a equipe de projeto na concepção construtiva, mas considera inviável capacitar de uma vez todos os profissionais. E, devido ao tempo de uma obra, a adoção total do BIM tende a demorar anos. Recomendou a implantação paulatina, respeitando as fases de diagnóstico inicial, definição da estratégia, criação de um plano e por fim a ação.

Alertou que a adoção do BIM exige alterações na forma de trabalhar e ajustes nos escritórios – por exemplo, devido ao volume de tráfego de dados e ao número de usuários.

Amorim descreveu o BIM como uma inovação tecnológica radical. Esse novo processo, explicou, altera profundamente os processos existentes e exige novos procedimentos, como documentos de gestão da qualidade. Disse que conhece isso por experiência, não só como teoria. Frisou que não é conversão de 2D para 3D.

Tudo é feito inicialmente em cima de um modelo, para depois ser executada a documentação, enquanto no processo tradicional se faz primeiro a documentação, que depois será revisada.

Só agora serão entregues, dia 22 de março, os dois primeiros projetos integralmente feitos no BIM. “Não teve papel nenhum, exceto o que se precisou enviar para a prefeitura.” É uma diferença enorme. Empresas imobiliárias, afirmou, levam de 12 a 15 meses. Nesse caso, foram 6 meses para ter o projeto executivo pronto.

Disse que o BIM reduz a quase zero as perdas de materiais de instalação, que custam de 12% a 18% do total da obra. Numa obra de R$ 30 milhões, mesmo considerando perda com BIM de 5%, a economia é de R$ 600.000.

É fator de competitividade, pela redução das margens de riscos e de perdas. E apesar de ter custo de projeto um pouco maior, a distância vem sendo reduzida. Há benefícios ao longo de todo o ciclo de vida da edificação. Todos os cálculos são automatizados, gerando plantas completas.

Gestão

Washington Lüke explicou que a tecnologia usada pelo Exército Brasileiro está sendo levada à Secretaria de Patrimônio da União do Ministério do Planejamento, onde ele atua como diretor do Departamento de Caracterização e Incorporação do Patrimônio. Lüke disse que neste ano será feito com uso do BIM o retrofit do Bloco O da Esplanada dos Ministérios – para isso, foi alterada a forma de contratação da obra. Também o projeto de cinco anexos da Esplanada dos Ministérios. Outra obra é o retrofit do Edifício Siderbrás. O Sistema Unificado de (geoPatrius), em construção, é baseado no sistema OPUS, do Exército.

Todos os projetos da SPU serão elaborados ou contratados dentro da tecnologia BIM, com foco na manutenção predial. A metodologia usada será Construction Operations Building Information Exchange (COBie). Na nova Esplanada, o custo de manutenção deverá ser reduzido em 26%.

Ao final do processo, o Manual de Obras Públicas, que foi atualizado pela última vez em 1997, ganhará nova versão, incorporando o uso do BIM, ficando alinhado com a lei, em discussão – e que precisará de regulamentação, destacou – que obriga ao uso do BIM em obras públicas.

Fizeram também palestras, no segundo painel do seminário, Armel de Bourdonnaye, diretor geral da ENPC, e Osvaldo Lahoz Maia, gerente de Inovação do Senai-SP.

Bourdonnaye usou como exemplos parceiras com a Saint Gobain no desenvolvimento de tecnologia e know-how de moradias sustentáveis, e com a Veolia, do setor de energia.

Maia, do Senai-SP, começou sua apresentação explicando que o Senai-SP tem grande preocupação com a indústria 4.0 e suas necessidades de tecnologia da informação (que está no núcleo do BIM). Em relação ao BIM, disse que a formação no Senai-SP em construção civil já o contempla em seus conteúdos.

Maia explicou o funcionamento do Senai-SP e mostrou seus números. Apresentou em seguida o Modelo de Inovação do Senai-SP.

Usou como exemplos de parcerias com a indústria instalações de microfabricação e laboratório de construção civil. Como exemplo de projeto desenvolvido, mostrou equipamento para ensaios de próteses de quadril.

O modelo de inovação do Senai-SP se baseia na pesquisa aplicada. O papel do Senai, explicou, funciona como uma tripla hélice, com interação com governo, academia e indústria.

O seminário foi organizado pelo Departamento da Indústria da Construção da Fiesp (Deconcic) e pelo Senai-SP, que durante o evento assinou memorando de entendimento para parceria nos campos da educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação (MBA) em Building Information Modeling (BIM), da pesquisa e da inovação, além da promoção de experiências, do aumento da competitividade de empresas francesas e brasileiras e do fortalecimento do setor industrial dos dois países.

Mesa de abertura do Seminário Internacional sobre o BIM, na Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp