Paulo Skaf: empresários terão reuniões periódicas com ministro da Fazenda; objetivo é apresentar propostas

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, aceitou reunir-se periodicamente com empresários para avaliar o cenário econômico do país, revelou nesta quinta-feira (25/04) o presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), Paulo Skaf.

Para falar do momento da economia brasileira, Mantega esteve por algumas horas na Fiesp para um encontro reservado com Skaf, diretores da entidade e cerca de 20 executivos de algumas das maiores empresas do país.

“Foi uma reunião muito proveitosa. Nós combinamos que teremos reuniões periódicas em São Paulo – se possível quinzenalmente”, disse Skaf. “Fiz a proposta, ele aceitou, e nós vamos fazer de forma permanente”, completou em entrevista coletiva o presidente da Fiesp e do Ciesp.

O objetivo, segundo Skaf, é que essas reuniões não se limitem a uma troca de ideias e de reflexões, mas tenham um caráter propositivo a partir da análise de problemas concretos.

“Esta foi a primeira de uma série [de reuniões]. Foi mais ampla, mas de forma bem prática porque quem fez as análises [os empresários] é gente que está no dia a dia, que está na arena  sentindo na pele o que está acontecendo. Ele [Mantega] ouviu com muita atenção, colocou coisas coerentes e, principalmente, deu essa abertura para que a gente continue esse trabalho de forma mais propositiva com propostas mais concretas.”

Na coletiva, Skaf listou medidas positivas adotadas pelo governo – a redução dos juros e das tarifas e energia, as desonerações de folha e os pacotes anunciados para a infraestrutura, entre outros. Mas assinalou que outras medidas devem ser adotadas para reduzir os custos de produção no país.

> Inflação vai cair no Brasil, afirma Guido Mantega
> PIB no 1º tri será maior que o anterior, apesar de dificuldades internacionais, prevê Mantega

Guido Mantega, Paulo Skaf e Benjamin Steinbruch: reunião com empresários para discutir impressões sobre o momento da economia no país. Foto: Junior Ruiz/Fiesp

 

Skaf relatou ainda outros temas tratados na reunião e comentou alguns dos problemas existentes para recuperar a competitividade do país.

Leia alguns dos principais trechos da entrevista:

Burocracia

“Foi levantada a preocupação com burocracia. As coisas no Brasil, lamentavelmente, têm muita burocracia. Leva-se muito tempo para fazer o que em outros países é muito mais ágil. Isso atrapalha o desenvolvimento do país, atrapalha quem quer trabalhar, atrapalha a geração de riqueza.”

“Tem que parar de ter tanta burocracia. A Resolução 13, que acabou com a Guerra dos Portos – isso foi ótimo. Agora, para implantar, é uma burocracia que fica impossível. Temos que acabar com isso.”

Custo total da mão de obra

“O que falamos [empresários e Mantega] foi o custo total de mão de obra devido a normas do Ministério do Trabalho, regras, burocracia, impostos. Com a desoneração de folha em relação ao INSS, houve uma melhora, mas nem todos os setores foram contemplados. Essas NRs [Normas Regulamentadoras] que são uma burocracia tremenda e não existem em outra parte do mundo as exigências que estão acontecendo aqui. O que foi discutido não foi em cima dos salários. Foi em cima dos encargos, da burocracia, daquilo que inferniza os dois lados: quem recebe, quem paga.”

Logística

“Temos pontos que são importantes: a questão de acelerar os investimentos em infraestrutura, barateando o custo de logística. O governo fez um grande plano de logística. Mas uma coisa é planejar fazer 6.000 quilômetros de ferrovia. Outra são os trens transitando com mercadorias. Nessa questão da infraestrutura estamos atrasados.”

Guerra fiscal

“Passar o ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] da origem para o destino, nós defendemos isso, sempre, para acabar com a chamada guerra fiscal. Eu diria que isso é 60% de uma reforma tributária.”

“A intenção foi boa com a resolução do Senado que foi aprovada ontem na comissão. Mas o que acontece: cada um querendo ver o interesse de uma parte do Brasil.  Zona Franca, em vez de ser 4% [de alíquota], fica 12%. Gás, em vez de ser 4%, fica 12%. Isso começa a criar um desequilíbrio e aquilo que era bom, acaba ficando ruim. Mas eu não vou discutir isso porque ainda não está finalizado. Tanto na MP dos Portos quanto na [discussão] que trata da transferência do ICMS para o destino, nós vamos estar muito atentos para tentar fazer com que aquilo que se aprove faça bem ao Brasil.”

“Não é problema só de São Paulo, não. Quando se coloca em Manaus 12% [de alíquota] e em outros estados do Norte, 4% ou 7%, vai prejudicar os outros estados do Norte também, vai prejudicar os outros estados do Nordeste. Porque o estado que está com 12% vai dar incentivo em cima de 12% e vai atrair o investimento todo. Então, não é só uma questão de São Paulo. É uma questão do desequilíbrio em todas as regiões do Brasil. Precisamos pensar em tomar decisões pensando no equilíbrio brasileiro. Não dá para todo mundo cuidar do seu quintal. Precisamos promover leis que beneficiem de forma horizontal e equilibrada todo o povo.”

Crescimento

“Nossa previsão de crescimento para esse ano é de 2,5% a 3%. Nós estamos em abril. Isso é realista. Mas pode acontecer de outra forma.”

Competitividade

“Quando a gente fala de crise na Europa, não depende da gente. Agora, recuperar a competitividade depende do governo brasileiro, depende de todos nós. Espero que a gente recupere, sim. Com medidas que estão sendo tomadas, foram tomadas, e outras todas que podem ser tomadas.”

Custo de produção

“O custo da produção é fundamental [para aumentar a competitividade]. Se tem custo alto, não tem competitividade. Hoje, o problema não é de competitividade das empresas, é de competitividade do Brasil. Tudo que discutimos aqui [com o ministro da Fazenda] é um problema conjuntural: juros, câmbio, infraestrutura, logística, carga tributária, custo de energia, custo do gás. Tudo é conjuntural. Não depende da indústria, do empresário, do trabalhador. Depende de políticas que resolvam essas questões.”

Educação

“Tem que melhorar a qualidade de educação. A exemplo do Sesi-SP e do Senai-SP, a escola pública tem que ter a mesma qualidade. Não pode haver escola em que o aluno não aprenda. Não é que não tenhamos escola. O que precisa melhorar é a gestão da educação, da saúde, dos serviços. Sem educação não vai ter competitividade.”

Inflação vai cair no Brasil, afirma Guido Mantega

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Os preços vão cair no Brasil, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na noite desta quinta-feira (25/04) após encontro com empresários e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, para avaliar o desempenho econômico do país.

Segundo Mantega, os problemas que impulsionaram a inflação vieram da quebra de safra e têm reflexos da mudança cambial ocorrida no ano passado.

“A inflação vai cair no Brasil. Nós tivemos seca nos Estados Unidos que elevou os preços dos grãos, tivemos seca aqui no Brasil, tivemos uma mudança cambial ano passado que criou uma inflação momentânea naquele ano”, explicou Mantega sobre os índices de preços divulgados no ano passado.

Mantega: 'Temos condições perfeitas para reduzir a inflação no país.' Foto: Junior Ruiz/Fiesp

 

O Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), usado como base para as metas do governo, fechou 2012 a 5,84%. A variação mensal de dezembro ficou em 0,79%, a maior desde março 2011. Mantega, no entanto, afirma que o cenário de 2013 sugere queda dos preços.

“Nós temos condições perfeitas para reduzir a inflação no país. Este ano não está prevista seca nem nos Estados Unidos e no Brasil. O preço das commodities já estão caindo no atacado e o preço dos alimentos já caiu. Portanto, estamos com a  inflação descendente no país”, alentou.

Emprego

Mantega também demonstrou otimismo com a situação do emprego e informou que se comprometeu na reunião com empresários a analisar outros empecilhos de crescimento ao setor produtivo, entre eles o entrave de custos como o da mão de obra.

“Estamos quase com pleno emprego, os trabalhadores estão ganhando mais, mas isso significa um custo maior para alguns setores. Falta mão de obra em alguns setores, isso eleva o custo e nós estamos procurando equilibrar isso fazendo desoneração da folha de pagamento”, afirmou Mantega.  “Combinamos de analisar os vários problemas que persistem no setor produtivo para que juntos possamos dar soluções ou acelerar soluções que já foram tomadas”, garantiu.

Em março deste ano, o quadro de funcionários da indústria paulista aumentou em 13 mil vagas na comparação com fevereiro. Os dados são da pesquisa de Nível de Emprego do Estado de São Paulo, da Fiesp e do Ciesp. Apesar das contratações, o levantamento indicou um mês “morno” para o setor manufatureiro, enquanto as perspectivas entidade para 2013 ainda são de uma recuperação modesta.

A pesquisa apontou uma variação negativa para o emprego na indústria se considerado os últimos 12 meses. No período foram fechados 24,5 mil postos de trabalho, ou seja, um recuo de 0,93%. Já no acumulado do ano foram gerados pela indústria paulista 33,5 mil empregos, com uma variação positiva de 1,29%.

A Fiesp projeta para o ano de 2013 um aumento de 1,6% do emprego industrial no Estado de São Paulo.

PIB no 1º tri será maior que o anterior, apesar de dificuldades internacionais, prevê Mantega

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Guido Mantega (segundo da esquerda para a direita) na reunião com empresários na Fiesp. Foto: Junior Ruiz/Fiesp

“O que para nós interessa é que está havendo uma aceleração do crescimento. O dado exato eu não sei dizer, mas isso está acontecendo em vários setores. Outros setores ainda precisam de mais impulsos ou precisam esperar para que as outras medidas que tomamos surtam efeito”, disse Mantega ao sair da reunião na Fiesp.

No encontro com empresários e o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, o ministro da Fazenda fez uma avaliação econômica do país.  “Na minha avaliação, nós estamos continuando uma recuperação econômica que começou o ano passado e, portanto, a cada trimestre devemos ter um crescimento um pouco maior que o anterior, mas ainda sofremos problemas oriundos da crise internacional”, ponderou.

Para estimular a recuperação do setor produtivo do país, Mantega afirmou que a prioridade do ministério é impulsionar os investimentos. “O ano passado foi fraco; esse ano começou melhor. No trimestre de dezembro a fevereiro o investimento cresceu, mas não são todos os setores que estão fazendo investimentos.”

Maturação

Da agenda de discussões com os empresários, Mantega destacou as dificuldades do setor exportador do país. Segundo ele, os pacotes de incentivo fiscal, tributário e financeiro lançados até agora pelo governo podem ainda não ter surtido efeito, mas têm um prazo de maturação.

“A principal queixa dos empresários é a questão dos custos. Embora tenhamos reduzido a maioria desses custos, essa medidas demoram algum tempo para surtirem efeito”, disse o ministro.

Entre as medidas mais recentes tomadas pelo governo para incentivar a indústria está a ampliação da desoneração da folha de pagamento em 14 novos setores, o que equivale a uma renúncia fiscal de R$5,4 bilhões. A desoneração já beneficia 42 segmentos produtivos da economia.

No começo da semana, o governo anunciou um novo pacote de incentivo para a produção de etanol. Na ocasião o ministro Mantega anunciou que vai reduzir a incidência de PIS e Cofins para o etanol , que atualmente é de R$0,12 por litro. A renúncia aos cofres públicos com a medida este ano será de R$ 970 milhões e, nos demais anos, de R$ 1,181 bilhão.

 

Presidente do Lide Economia propõe criação de conselho de gestão fiscal por MP

 Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

No que diz respeito a crescimento econômico, o governo não está na direção errada, mas é necessário acelerar o ritmo para devolver competitividade à indústria brasileira, afirmou nesta quarta-feira (04/07) o economista e presidente do Lide Economia, Paulo Rabello de Castro.

“O ministro [da Fazenda, Guido Mantega] já está baixando os juros. Já conseguimos um realinhamento cambial. O que falta? Falta realmente um choque de produtividade”, alertou Rabello, ao participar do Seminário Econômico Fiesp e Lide – “Agenda Brasil, Proposta para o Avanço Acelerado do País”, na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

Paulo Rabello de Castro entrega propostas ao ministro Guido Mantega

Para o economista, a ineficiência do setor público está entre as principais causas da improdutividade brasileira. Segundo estudo apresentado nesta manhã pelo Lide a empresários, se a baixa produtividade da economia brasileira persistir, o país estará “arrecadando perda anual de R$ 1,3 trilhão em 2022”.

“Nós sabemos que uma parte importante dessa improdutividade está na ineficiência do próprio setor público. Portanto, temos uma proposta muito objetiva que eu gostaria que fosse convertida em Medida Provisória, se possível”, disse Rabello, sugerindo a implementação de um conselho de gestão fiscal. “Temos que apressar o passo com uma Medida Provisória porque é relevante e urgente que tenhamos um conselho de gestão fiscal. Seria um instrumento adequado.”

Outro assunto destacado pelo economista foi a simplificação fiscal. Rabello reforçou o pedido, feito há poucos meses a Mantega, para retomar uma proposta de único imposto na circulação de mercadorias e serviços, apresentada pelo próprio ministro da Fazenda em 2008.

“Essa proposta precisa ser retomada. Há uma dificuldade de aprovação, hoje, no Congresso Nacional, mas nós gostaríamos de dizer ao ministro que estamos aqui para protestar pelo apressamento do passo na votação de um projeto que realmente simplifique o país”, afirmou Rabello. “Seria bom se fosse pago um tributo só pela circulação de mercadorias e serviços. Eu acho que é isso que o contribuinte brasileiro merece”, concluiu.

Proposta para o Avanço

Durante a abertura do Seminário Econômico Fiesp e Lide, Paulo Rabello de Castro apresentou uma agenda elaborada pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide) com levantamentos conjunturais e propostas para estimular o crescimento econômico do país.

A “Agenda Brasil, Proposta para o Avanço Acelerado do País” lista cinco realinhamentos para aumento da produtividade e criação de riqueza: “Aumento da Eficiência no Setor Público”, “Transformar Juros em Infraestrutura Local”, “Eficiência Fiscal Competitiva”, “Socialização da Riqueza Nacional” e o “Tripé – Educação, Inovação e Sustentabilidade”.

“Que o senhor submeta à presidente Dilma Rousseff a possibilidade de termos uma espécie de agenda em curso com a sociedade brasileira. Obviamente, o governo já tem uma agenda de compromisso. Então seria uma agenda própria com a sociedade, capaz de acompanhar a implementação desses realinhamentos”, sugeriu Rabello ao ministro Guido Mantega.

Crise pode ser superada com mais facilidade que em 2008, diz Mantega em entrevista

Edgar Marcel, Agência Indusnet Fiesp

Guido Mantega, ministro da Fazenda e Paulo Skaf, presidente da Fiesp, durante entrevista coletiva

Em entrevista coletiva logo após o “Seminário Econômico Fiesp e Lide – Agenda Brasil, Proposta para o Avanço Acelerado do País”, na Fiesp, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o governo federal vem tomando medidas para tornar a economia brasileira mais competitiva.

“Mudamos o mix da política fiscal, monetária e cambial, e isso tem um impacto muito grande na produção da indústria e em todos os setores da economia brasileira. A redução dos juros e do custo financeiro é fundamental, e este é um dos maiores ônus que o Brasil tem”, destacou Mantega, que declarou estar aberto à inclusão de novos setores na desoneração da folha de pagamentos para impulsionar a competitividade na indústria brasileira.

De acordo com o ministro da Fazenda, a crise atual se aproxima da ocorrida em 2008 na extensão das consequências sobre todos os países. “A redução da economia mundial e dos mercados atinge principalmente a indústria mundial. Não podemos menosprezar essa crise. Desde o ano passado vimos dizendo que esta crise é grave, e mostramos que nós temos condições de superá-la, aqui no Brasil, com mais condições do que em 2008.”

Ousadia de todos

Na avaliação de Guido Mantega, embora as empresas estejam em melhor situação e o governo tenha mais reservas do que em 2008, é preciso ousadia de todos os agentes para superar o atual cenário. “O governo tem que ser o mais ousado para tomar medidas na área tributária e nos custos de infraestrutura. E o setor privado tem que acreditar que vamos reverter este quadro; assim o Brasil pode crescer 4%, 5% perfeitamente nos próximos anos”, ressaltou, acrescentando que empresariado, setor financeiro e governo devem manter uma colaboração conjunta.

O ministro prevê para o segundo semestre um crescimento 3,5% a 4%, fator que ele reconhece depender muito da atitude dos três atores. “O governo federal está tomando todas as medidas necessárias para que isso aconteça, até com medidas adicionais, de longo, médio e curto prazo”, sublinhou o ministro, e emendou que é preciso ação do setor empresarial, com aumento de investimentos.

“Temos um mercado, o emprego continua crescendo no país. É preciso que haja mais crédito com spread caindo e que o setor empresarial crie coragem de fazer investimentos antes mesmo de as condições serem dadas, quem sai na frente tem vantagem depois”, analisou.

Crise é tão intensa quanto a de 2008 e afeta mais a indústria, afirma Guido Mantega

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Apesar de ter começado de forma mais lenta, a crise financeira que se propagou pela Europa apresenta um quadro tão grave quanto o colapso de 2008 e prejudica principalmente a indústria, avaliou nesta quarta-feira (04/07) o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na sede da Fiesp.

Ministro da Fazenda, Guido Mantega: 'Maior prejudicado com a crise internacional é indústria, não só do Brasil, mas também no mundo inteiro'

Ele participou da abertura do Seminário Econômico Fiesp e Lide – “Agenda Brasil, Proposta para o Avanço Acelerado do País”, que reuniu centenas de empresários para discutir eficiência no setor público, transformação de juros em infraestrutura local, inovação e sustentabilidade, entre outros assuntos.

“Essa crise parece menos intensa que a de 2008, mas não é. Ela tem um formato diferente. A crise de 2008 começou com um grande estresse, uma parada súbita do crédito e do comércio e por isso todo mundo ficou impactado. Agora ela começa mais lentamente e vai se agravando e produzindo os mesmos efeitos deletérios da crise daquele momento”, afirmou Mantega.

Segundo o ministro da Fazenda, o grande complicador, e que afasta a possibilidade de um fim da turbulência no curto prazo, é a lentidão com a qual o Banco Central Europeu conduz as medidas para sair da crise.

“A diferença é que em 2008 nós tínhamos o epicentro nos Estados Unidos e o Fed (banco central norte-americano) tinha agilidade e rapidez para enfrentar a crise. Coisa que o Banco Central Europeu não tem, porque são vários países que não se entendem, e aí a crise vai sendo empurrada com a barrigada”, comparou o ministro.

Indústria

Para Mantega, o maior prejudicado com a crise internacional é indústria, não só do Brasil, mas também no mundo inteiro. Ele comentou os resultados do PMI (Purchasing Managers’ Index) de manufatura – medido pelo Markit Economics em conjunto com o HSBC –, divulgados no início da semana.

Segundo o levantamento com gerentes de compras da produção indústria no mundo, o PMI da Zona Euro permaneceu em 45,1 na leitura de junho, enquanto o Brasil atingiu patamar de 48,5 no mês passado.  Conforme o indicador, pontuação abaixo de 50 indica retração do setor produtivo. De acordo com o Markit, ao menos 17% das empresas registraram queda de novos pedidos.

“Essa crise atinge mais a indústria, o setor mais afetado no mundo. Quando o PMI fica abaixo de 50%, significa que os gerentes de compra estão prevendo que a indústria vai desacelerar. E ela vai desacelerar não só nos países europeus, mas também na China e no Brasil. Este é o panorama da economia mundial”, concluiu Mantega.

Mantega incentiva investimento e promete generalizar desoneração da folha de pagamento

Cesar Augusto, Agência Indusnet Fiesp

Ministro da Fazenda, Guido Mantega, com Paulo Skaf e João Guilherme Sabino Ometto (presidente e vice-presidente da Fiesp), em reunião na sede da entidade

 

O ministro da Fazenda, Guido Mantega esteve na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nesta segunda-feira (03/10), onde almoçou com o presidente Paulo Skaf, diretores e conselheiros da entidade. Logo após o encontro, o ministro concedeu entrevista coletiva para detalhar os temas abordados no almoço e se mostrou confiante na posição do Brasil diante do cenário internacional.

Além de analisar a situação macroeconômica do país, o ministro falou dos planos do governo para generalizar a desoneração da folha de pagamento, com redução na contribuição previdenciária que seguirá priorizando o setor industrial.

Crise

Para Mantega, atualmente o que mais aflige as classes produtoras, a Fiesp e todos os brasileiros é a crise internacional. Segundo ele, existe o perigo de agravamento do ambiente externo em função da elevada dívida soberana de alguns países europeus. Mesmo assim, acredita que as economias desenvolvidas saberão lidar adequadamente com essa situação, até revertê-la. O ministro falou sobre o Fundo de Estabilização criado para socorrer os países mais afetados e abordou amplamente os problemas da Grécia e suas possíveis soluções.

Europa

Guido Mantega salientou que confia na disposição da Grécia em cumprir com as condicionantes estabelecidas para receber as parcelas do programa de apoio que ela possui e afirmou que o Brasil de hoje está muito mais bem preparado para um agravamento da crise do que em 2008, tanto do ponto de vista fiscal quanto monetário.

“Temos uma estrutura fiscal sólida, podemos inclusive reduzir impostos; um mercado consumidor dinâmico; juros ainda altos, que podem cair; depósitos compulsórios elevados (R$ 500 bi) e reserva em moeda estrangeira, que hoje é uma vez e meia maior que a de 2008 (US$ 350 bi) – ambas podem virar crédito ao mercado, caso falte.”

Mercado interno

Para o ministro, um ponto muito importante é preservar o dinamismo do nosso mercado interno e permitir que ele seja usufruído pela produção brasileira. Com mercado interno dinâmico, dependemos menos de exportações, o que nos ajuda, já que os países ricos estão com problemas. “Fortalecemos e vamos manter essa conduta fiscal até 2014 e estamos aumentamos o superávit primário.”

Investimento

“Falei para os empresários da Fiesp que continuem investindo, porque o governo está preparado para uma crise crônica e mais branda ou rápida e mais aguda. De qualquer forma, vamos implementar medidas estruturais para continuar reduzindo custos, como os custos de infraestrutura, de energia e de tributos, de modo que a indústria brasileira seja cada vez mais competitiva em um mundo econômico adverso”, informou o ministro da Fazenda.

Câmbio e Juros

Ele lembrou que não existe um patamar ideal para o dólar, considerando o câmbio flutuante vigente no país: “O que existe é câmbio subvalorizado e sobrevalorizado.” Mantega, entretanto, cravou aquilo que seriam os juros ideias para o Brasil, “entre 2% e 3% ao ano, em linha com outras economias emergentes”.

Além disso, o ministro citou que, em momentos de alta do dólar, como agora, a dívida brasileira diminui e as reservas aumentam, o que melhora a relação dívida X PIB do Brasil, uma vez que o país é credor líquido em moeda estrangeira. Isso faz com que o Brasil fique na contramão da maioria dos países e faz com que o Brasil seja visto como um país seguro e mais confiável.

Inflação

Guido Mantega afirmou que vê uma pressão inflacionária mundial e vislumbra uma queda no preço das commodities, o que já estaria em curso, segundo ele. E, nas próximas semanas, devem chegar aos preços dos alimentos e combustíveis. “A inflação está sob controle. A boa notícia é que aqui vemos um movimento de queda de preços. Isso ainda não deu tempo de ser captado pelos índices de inflação, mas será sentido logo.”

Ele comentou que a inflação alta é tão ruim quanto o juro alto. Dessa forma, quando o Banco Central considerar que as condições são adequadas – e nós estamos ajudando a configurar essas condições, aumentando o superávit primário, reduzindo o crescimento das despesas correntes –, o banco central fará essa redução dos juros. Isso pode ser em um, dois ou três anos. Isso eu não sei e não quero saber.

Desoneração

“A Desoneração da Folha de Pagamentos é fundamental, já que a contribuição previdenciária é, talvez, um dos maiores tributos que nós temos hoje. São 20% sobre a folha. Nós iniciamos um processo de desoneração, começamos com quatro setores, não é fácil fazer isso, portanto foi um caso experimental.”

O ministro explicou que transferir parte disso para o faturamento foi um experimento inicial, a outra opção era passar para a PIS/Cofins. A ideia era transferir uma parcela inferior ao que se está desonerando na folha, mais ou menos um terço. “Nós vamos observar e aperfeiçoar o procedimento. Nossa ideia é generalizar a desoneração da folha, começando pelo setor industrial (manufatureiro). Vamos discutir com o setor, fazer cálculos juntos porque o que nós queremos não é desonerar totalmente. A gente não teria recurso para bancar desoneração de R$ 95 bilhões, se fosse o caso de simplesmente retirar todos os tributos da folha.”