“Prisão é um lugar extremamente caro para deixar as pessoas piores”, diz Milton Gonçalves

Flávia Dias, Agência Indusnet Fiesp

Milton Gonçalves afirmou que os investimentos na área de educação são importantes para o combate a criminalidade

“Eu poderia ter sido um criminoso, dadas as adversidades que a vida me trouxe, mas arte me salvou. Basta empenho de cada um de nós para que a sociedade seja mais justa”, declarou o ator Milton Gonçalves, aos mais de 400 participantes do Encontro Nacional do Projeto Começar de Novo, iniciativa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Senai-SP, nesta segunda-feira (5), no Teatro do Sesi São Paulo.

O ator lembrou que a população carcerária brasileira dobra a cada oito anos, um número alarmante comparado ao crescimento da população. E observou que se o Estado e a sociedade civil não adotarem medidas eficazes até 2080, mais de 90% da população brasileira estará atrás das grades. “Noventa por cento da população morará em um condomínio fechado. Esta é a aposentadoria que vocês desejam? Este é o futuro que vocês sonham para os seus filhos e netos?”, questionou.

Na avaliação de Gonçalves, a falta de acesso da comunidade carente ao ensino básico, somada ao preconceito contra os negros, estimula os jovens a ingressarem na criminalidade. “A nossa grande missão é educar os meninos. É preciso educação em todas as esferas da sociedade para que o desenvolvimento intelectual se dê por completo provendo ao individuo desde cedo os implementos necessários para o seu crescimento enquanto cidadão ativo no seu grupo social”, apontou. E completou: “É preciso oferecer, minimamente, alimentação adequada para crianças e substratos para que ela possa seguir a diante com sua evolução individual com condições minimamente iguais das crianças abastardas”.

Durante a apresentação, Gonçalves afirmou que já sofreu discriminação racial e relatou um episódio marcante durante a sua adolescência, quando foi barrado por um guarda metropolitano, na Avenida Paulista, com a justificativa de que o lugar não era adequado para pessoas negras e pobres.

Valmir Salaro, apresentador e repórter da Rede Globo

“Hoje estou aqui, em plena Avenida Paulista, e preciso dizer a vocês que é possível mudar o processo; basta vontade política e empenho social. O Brasil somos todos nós, não é uma entidade fantasma aos nossos interesses”. Emocionado, o ator completou: “Hoje eu digo: eu não vou sair da Paulista, meu senhor; meu lugar é aqui”.

Cobertura jornalistíca

Valmir Salaro, apresentador e repórter da Rede Globo, confidenciou que ao longo dos seus 30 anos de carreira, ele realizou poucas matérias valorizando a reintegração de ex-detentos a sociedade.

“Relatar apenas o aumento dos crimes é um erro gravíssimo que nós (jornalistas) cometemos e influenciamos a sociedade”, afirmou. E parabenizou a inciativa da federação: “Eu não conhecia o belo trabalho realizado pela Fiesp de reintegrar e dar educação a pessoas que nunca tiveram acesso”.