Instituto de Neurociência aposta na prática da ciência como método de ensino em Natal

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Não há melhor qualificação para o jovem que entra no mercado de trabalho do que a boa escolaridade. O alerta feito por Wanda Engel, superintendente do Instituto Unibanco, reflete o universo do Ensino Médio brasileiro.

Apesar dos 8,2 millhões de alunos que frequentam a sala de aula, somente 1,8 milhão conclui o ciclo. Nesse funil, 1,6 milhão segue para a Educação para Jovens e Adultos (EJA) com inscritos triplicados nos últimos anos. Ou seja, metade se perde pelo meio do caminho.

Para atender à demanda, existem 24 mil escolas, quase 86% delas abrigadas nas redes públicas estaduais, somando 413 mil professores trabalhando com jovens na faixa etária de 15 a 17 anos. O noturno concentra 52% desses alunos, enquanto o vespertino se esvazia. O balanço foi apresentado por Engel ao participar do recente encontro do Conselho Superior de Responsabilidade Social (Consocial) da Fiesp, no último dia 19.

Há reflexos econômicos: o Brasil deixa de crescer 0,5% ao ano em função do grande contingente de jovens que abandonam o curso. Em 40 anos, essa conta sobe para R$ 300 bilhões ou 16% do Produto Interno Bruto (PIB). “Um apagão da mão de obra”, avaliou Engel.

A conta da violência no Brasil, segundo dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), representa 10,5% do PIB. A taxa de desemprego não está descolada da deficiência escolar que se reflete em baixos salários e pobreza: cerca de 4,6 milhões de jovens se encontram fora do mercado de trabalho.

Para tentar driblar esse complexo mapeamento educacional, o Instituto Unibanco conta com dois programas. Um deles é o Entre Jovens complementar para alunos com dificuldades específicas em Português e Matemática, por meio de programas de tutoria em 356 unidades do País.

Já o Jovem de Futuro envolve aportes técnico e financeiro (R$ 100 ano/aluno) para implantação e avaliação de plano estratégico de melhoria de resultados com duração de três anos. Uma das sugestões da representante da instituição é aumentar a oferta do ensino profissionalizante, incentivando a monitoria e a Lei do Aprendiz.

Neurociência e cidadania

Referência mundial em pesquisa da interface entre cérebro e computadores, Miguel Ângelo Laporta Nicolelis apontou caminho alternativo: a utilização da Ciência para reforçar o que se ensina. O brasileiro, respeitado mundialmente, é diretor do Centro de Neurociência da Universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA).

Por entender que a Ciência é por definição global e agente de transformação social, Nicolelis apostou na construção de projeto pioneiro no semi-árido nordestino. No município com os piores indicadores educacionais do país, Macaíba, periferia de Natal (Rio Grande do Norte), foi erguida escola brasileira com tecnologia de ponta e os melhores laboratórios do País para aprendizagem em tempo integral e incentivos como o Programa Jovem Cientista.

No Instituto de Neurociência (Edmond and Lily Safra International Institute of Neuroscience of Natal-ELS-IINN), Nicolelis desenvolve pesquisas em paralelo com seu laboratório americano. No projeto do complexo temático, a Cidade do Cérebro estará voltada à arte, à ciência e ao humanismo, graças a recursos que vêm, em sua maioria, da iniciativa privada.

Por que usar o método científico como ferramenta? “Ciência é testar no limite. É a essência da produção do conhecimento”, explicou o cientista. “Quando se adquire conhecimento, também se adquire voz”, concluiu.

“Somos todos educadores”, disse apontando três pilares para a educação eficiente que leva à felicidade pessoal: amor incondicional, entender que toda pergunta é cabível e que o aluno faz parte da gestão do seu próprio futuro.

A mais importante revista científica Science pela primeira vez elege para sua capa um brasileiro na edição que sairá em dezembro. Há mais de duas décadas nos Estados Unidos, Nicolelis é respeitado mundialmente e pode ser indicado ao Nobel.