Sara Sarres e a beleza de ser Dulcineia em ‘O Homem de La Mancha’

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

Quando soube que seria uma das protagonistas de “O Homem de La Mancha”, espetáculo em cartaz no Centro Cultural Fiesp até 21 de dezembro, Sara Sarres se viu diante de um ponto de inflexão. “Há muito tempo eu não fazia um drama”, explica a atriz.

De fato, Sara vinha de uma sequência de três comédias (“A Família Adams”, “Shrek” e “A Madrinha Embriagada”) e sua participação em musicais como “Les Misérables”ou “West Side Story”, segundo ela, tinha um grau de exigência, como atriz, inferior ao do papel que assumiria nesse clássico baseado na obra de Miguel de Cervantes.

“Não tinha tanto texto, não tinha tanta explosão de emoção”, compara.

Sara Sarres: “O texto traz coisas tão lindas. A gente chega num momento da vida em que, de repente, volta a falar de sonhos, de possibilidades, de sonhos impossíveis, de ética, de amor.” Foto: Beto Moussalli/Fiesp

 

Para compor não uma, mas duas personagens (Aldonza/Dulcineia), ela precisou estudar. “Tive que resgatar em Stanislavski, nas coisas que eu estudei, voltar aos livros, às referências.”

Isso porque, diz Sara, é impossível um ator limitar-se à técnica em um texto como o da adaptação de Miguel Falabella para o original de Dale Wasserman. “Tem que buscar a verdade. Tenho como meta buscar a verdade e sair da forma em qualquer trabalho, seja drama, seja comédia ou qualquer gênero. Mas isso foi muito mais exigido pelo Miguel [Falabella, também diretor do espetáculo]. A gente não podia dar uma frase que saísse um pouco dura ou que saísse um pouco calculada. Ele batia a mão e parava. ‘Quero verdade, me tragam verdade. Leiam o texto, vão pra casa, estudem’ [narra ela com a voz do diretor]. E isso foi muito bom. Porque foi um motor para todos. E isso se reflete e toca o público de uma forma diferente.”

Atriz vive Aldonza no manicômio. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Além do trabalho com Falabella, Sara pesquisou muito. “Eu gosto de mergulhar, de ver tudo que já foi feito, até porque sou muito fã de musical”, confessa. “Ator tem que estar sempre se reciclando. E como um ator se recicla? Assistindo. Então, gosto de assistir tudo: todas as versões, todas as montagens, gravações que já fizeram. Acho que tudo constrói, tudo contribui para o que você vai tentar buscar de melhor.”

E o melhor é um espetáculo que vem lotando o Teatro do Sesi-SP ao contar a história de Alonso Quijana (Cleto Baccic), que chega a um manicômio brasileiro nos anos 30 apresentando-se como Miguel de Cervantes, poeta, ator de teatro e coletor de impostos. Ele é abordado pelo Governador (Bispo do Rosário), que comanda os internos do hospital. Para dar a Cervantes a oportunidade de reaver um manuscrito tomado pelos internos, o Governador instala um julgamento. Cervantes organiza sua defesa convidando os loucos a encenarem com ele uma peça de teatro em que encarna o cavaleiro errante Dom Quixote. É aí que conhece Dulcineia (Sara Sarres), como ele vê a sofrida e amargurada prostituta chamada Aldonza.

Sara Sarres: Aldonza não acha possível que um homem, o personagem de Cleto Baccic, seja capaz de amá-la como ela é. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

 

Para reforçar a caracterização, Sara usa recursos distintos em seu canto . “Tentei imprimir na Aldonza/Dulcinéia, musicalmente, essa dualidade. Então, enquanto ela se sente Aldonza, canta de um jeito; quando se transforma e se aceita Dulcineia daquele homem, ela canta de outro. E as pessoas têm notado isso.”

Mas o que mais chama sua atenção no texto é a possibilidade de falar de sonhos impossíveis.

“O texto traz coisas tão lindas. A gente chega num momento da vida em que, de repente, volta a falar de sonhos, de possibilidades, de sonhos impossíveis, de ética, de amor. Ele tem mensagens muito fortes e muito bonitas. Acho que isso acaba tocando – não só a mim, mas a todo o elenco – de buscar essa transformação, de acreditar mais que é possível sonhar. Que, sim, que as coisas, por mais difíceis que pareçam, podem acontecer. Por que não? Sonhar é só primeiro passo. Eu acho que estou carregando esse lema comigo um pouquinho.”

No camarim de Sara Sarres, imagens de Paulo Autran e Bibi Ferreira extraídas de uma revista dos anos 70. Foto: Juan Saavedra/Fiesp

O amor quixotesco por Dulcineia, na visão de Sara, tem um simbolismo que permanece válido. “Ela reluta muito que ela pode ser amada. A mulher contemporânea sofre um pouco isso também, a busca do amor verdadeiro, de se sentir amada, de se sentir querida. Hoje é tudo tão efêmero, com a velocidade das redes sociais, a informalidade… Não existe mais o galanteio, não existe mais o romantismo”, observa. “E é bonito isso: como ela reluta, como ela não acha possível que um homem seja capaz de olhar para ela e ver beleza, juventude, inocência e amá-la como ela é. Ela se pergunta o porquê. E acho que hoje a gente também passa um pouco por isso. É bem atual do universo feminino.”

Viver na pele um ícone da literatura é um presentão, considera a atriz. Sobretudo por ter sido um papel de um dos grandes nomes do teatro brasileiro, Bibi Ferreira. “Fiz uma pesquisa enorme da Bibi, queria ouvir a voz dela”, revela a atriz, que em seu camarim tem algumas fotos da diva recortadas de uma edição da finada revista Manchete, ainda da época da montagem anterior de “O Homem de La Mancha” (1972) estrelada por Bibi e Paulo Autran.

Ao conversar com a reportagem, que tinha assistido a uma das primeiras exibições do musical, Sara incentiva uma segunda conferida. “O espetáculo sempre amadurece. Ele é orgânico, vivo. Teatro é vivo. Cada dia é um dia, cada sessão é uma sessão, cada público é um público e a troca com o público existe, além da troca entre os atores. Toda semana temos uma reunião para apontamentos em que ele [o diretor cênico associado Floriano Nogueira] fala: ‘Isso está bom, isso está caindo a energia, isso está crescendo demais, segurem a onda…’ Esses temperinhos, a cada semana, vão mudando. É interessante. Como fã de teatro musical, gosto de assistir às minhas peças favoritas na estreia, no meio da temporada e no fim. E normalmente eu sempre observo grandes mudanças.”

Sara Sarres: Miguel Falabella não quis atuação meramente técnica. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

 

O imenso sucesso no Teatro do Sesi-SP tem como consequência o aumento do assédio do público, ansioso por cumprimentar o elenco ao final de cada sessão – um simples aperto de mão, abraços, elogios e os onipresentes selfies. “Normalmente, em teatro musical, você fica tão caracterizado que, quando você sai do teatro, não existe muito desse reconhecimento. Mas as pessoas ficam esperando porque já assistiram várias vezes. E a gente fica muito feliz.”

Mas nada se compara à alegria dos atores com a reação de crianças e adolescentes nas sessões escolares – normalmente realizadas às quintas e sextas no horário da tarde. “É engraçado porque ao final do espetáculo eles têm uma explosão de aplausos completamente diferente. A grande maioria está vendo teatro musical pela primeira vez. É uma explosão que arrepia.”

Serviço

“O Homem De La Mancha”

Local: Teatro do Sesi-SP (456 lugares) – Avenida Paulista, 1313 – Bela Vista

Estreia: 13 de setembro
Temporada até 21 de dezembro
Recomendação: 10 anos
Duração: 1h45
Informações: (11) 3146-7405/7406
Entrada gratuita
Ingressos gratuitos reservados online pelo site www.sesisp.org.br/meu-sesi de 15 em 15 dias a partir do dia 25 de agosto.
Apresentações entre dias 1º e 15, publicação na internet dia 25 do mês anterior.
Apresentações entre dias 16 e 31, publicação na internet dia 10 do mesmo mês.
Serão distribuídos 50 ingressos por sessão na bilheteria, no dia do espetáculo, a partir do horário de abertura da bilheteria.
Horário da bilheteria: quarta a sábado, das 13h às 21h; domingo, das 11h às 19h. Quarta a sexta às 21h; sábado às 17h e 21h e domingo às 19h.

Jorge Maya e a coincidência de reviver um mito em ‘O Homem de La Mancha’

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

Para construir o seu Sancho Pança, personagem que interpreta no musical “O Homem de La Mancha”, Jorge Maya preferiu não ver outras montagens. “Não gosto de ver para que não me contamine e não enrijeça o que está sendo proposto”, conta.

Sua opção foi elaborar o personagem com os companheiros de palco, com a direção musical e geral e ouvindo o feedback de quem acompanhou os ensaios. “Gosto de estar com a cabeça completamente aberta para pode ir construindo.”

Jorge Maya (à direita), fiel escudeiro do protagonista Cleto Baccic (Dom Quixote/Miguel de Cervantes). Foto: Beto Moussalli/Fiesp

 

Mas ele não nega que Grande Otelo – responsável pelo Sancho da outra montagem brasileira (1972/74) – teve influência em sua carreira.

“Já fiz muitos personagens que o Grande Otelo fez. No espetáculo ‘Teatro Brasileiro 2’, além de vários personagens que o Otelo já tinha feito durante a carreira toda, eu interpretava o próprio Otelo no Cassino da Urca”, lembra Maya.

E então veio o convite para o espetáculo em cartaz no Teatro do Serviço Social da Indústria de São Paulo, o Teatro do Sesi-SP. “São as coincidências que não acho tão coincidências assim. Meu temperamento de ator tem muito a ver com o Otelo mesmo. E assim também presto uma homenagem a esse ator extraordinário.”

O convite veio do diretor do espetáculo, Miguel Falabella. Carioca, Maya viajou para São Paulo, onde fez a audição e “ganhou” o Sancho Pança.

“Tinha acabado de gravar a novela ‘Jóia Rara’ na TV Globo e estava com outras perspectivas. Era uma coisa que jamais imaginaria que fosse acontecer nesse momento. Mas considero esse trabalho um presente”, declara o ator, que já havia trabalhado com Falabella em duas novelas e no espetáculo “Gaiola das Loucas”.

“Confio muito no que ele pode extrair de mim.”

Jorge Maya: mais um personagem vivido por Grande Otelo. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

 

Fonoaudiólogo, preparador vocal e professor de canto, Jorge Maya é um fã de teatro musical. “É um gênero maravilhoso. Tem tudo a ver com o brasileiro, porque somos um povo extremamente musical. Todas as nossas comemorações, nossas festividades, estão permeadas pela música”, afirma ele, que elogiou a iniciativa do Sesi-SP.

“O teatro musical está crescendo muito e precisando capacitar mais profissionais. Por isso, o grande mérito desse projeto é que ‘O Homem de La Mancha’ não é só uma peça para mostrarmos nosso valor artístico. É um projeto que embarca a formação de novos atores, com a escola profissionalizante, e de novos públicos”, diz.

“É um projeto de grande relevância e uma oportunidade maravilhosa. Estou muito feliz por fazer parte disso.”

Maya também destacou a participação do público para os momentos de emoção do espetáculo. “A gente vê pessoas muito emocionadas, agradecidas por estar aqui. Fico impressionado com a energia que eles passam pra gente.”

“É incrível poder mostrar um espetáculo dessa qualidade para todas as pessoas. Isso é um marco, uma coisa que nunca vivi na minha carreira. Fazer um trabalho com essa equipe, em um padrão altíssimo e de graça é maravilhoso.”

Momento em que personagem vivido por Cleto Baccic apresenta-se como Miguel de Cervantes, na companhia de seu criado, Sancho. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Para ele, o texto de Cervantes é o que traz a maior emoção para quem assiste. “O teatro tem como tradição ser uma arte transformadora. E esse texto representa isso na sua forma total, porque é muito emocionante e muito oportuno para o que estamos vivendo hoje, um mundo que precisa reavaliar os valores.”

O ator também fala da discussão do conceito de loucura que o espetáculo propõe. Um dos momentos mais emocionantes do espetáculo, para Maya, é a parte final. “No quarto final, fico bem emocionado, porque começam a ser ditas coisas que têm a ver com o que eu penso e me questiono. Do momento em que o Quixote pergunta ao Duque: ‘o que é a loucura?’ até o fim, é muito emblemático para mim.”

“Estamos vivendo uma grande loucura. Sabemos que não podemos mais desequilibrar a natureza, mas as pessoas continuam. A corrupção é um alicerce da nossa cultura. Então, o que é a loucura? O que é ser ‘são’? É sobre isso que o espetáculo fala. Por isso toca tanto o coração das pessoas.”

Na loucura do Quixote, ele tem a companhia fiel de Sancho, que resgata valores importantes como a amizade.

“Ele embarca na mesma viagem do Quixote porque tem o valor da pureza, da amizade, do humanismo. Ele gosta do Quixote sem interesse. As pessoas precisam realmente reaver a vida delas nesse contexto que a gente está vivendo de muita loucura.

Serviço

“O Homem De La Mancha”
Local: Teatro do Sesi-SP (456 lugares) – Avenida Paulista, 1313 – Bela Vista
Temporada até 21 de dezembro
Recomendação: 10 anos
Duração: 1h45
Informações: (11) 3146-7405/7406
Entrada gratuita
Ingressos gratuitos reservados online pelo site www.sesisp.org.br/meu-sesi de 15 em 15 dias a partir do dia 25 de agosto.
Apresentações entre dias 1º e 15, publicação na internet dia 25 do mês anterior.
Apresentações entre dias 16 e 31, publicação na internet dia 10 do mesmo mês.
Serão distribuídos 50 ingressos por sessão na bilheteria, no dia do espetáculo, a partir do horário de abertura da bilheteria.
Horário da bilheteria: quarta a sábado, das 13h às 21h; domingo, das 11h às 19h. Quarta a sexta às 21h; sábado às 17h e 21h e domingo às 19h.