Grupo que define migração da TV prevê sinal digital em todos os municípios brasileiros até 2018

Anne Fadul, Agência Indusnet Fiesp

A migração do sinal analógico para o digital na TV brasileira tem prazo.  Até 2018, todos os municípios do Brasil deverão ter transmissão digital. A informação foi dada pelo presidente do Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV (Gired), Rodrigo Zerbone, na manhã desta quarta-feira (18/5), durante o workshop “As oportunidades de TIC entre União Europeia e o Brasil”, promovido pela Fiesp em parceria com a EuroBrasil.

O Gired é um grupo formado por representantes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Ministério das Comunicações, Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert), entidades que representem os radiodifusores, que decidem todo o processo de migração das TVs analógicas para os canais digitais.

Segundo Zerbone, o grupo opina sobre como deve ser feita essa migração, a distribuição dos conversores de TV digital, antenas e filtros para a população de baixa renda, e as cidades onde poderá haver a antecipação do cronograma do switch off (desligamento) analógico. “A partir disso, foi estabelecido um cronograma inicial tendo Rio Verde, no interior de Goiás, como cidade piloto. Seguido de Brasília, São Paulo e as outras capitais”, disse.

No entanto, houve atraso do desligamento em Rio Verde, previsto para novembro de 2015 e que só foi concluído em março deste ano. Ela se tornou a primeira cidade do país a ter exclusivamente TV digital. Questionado sobre quais os impactos que os atrasos podem causar nos investimentos e como o governo avalia essa questão, Zerbone explicou que durante o processo surgiram alguns problemas. “A população teve muita dificuldade de aquisição de conversores. Isso gerou pouco menos de 80% de casas preparadas na data prevista, não alcançando o percentual, que era de 93%, gerando um processo de reformulação e replanejamento de todos os mecanismos envolvidos”, disse. O piloto gerou um estudo que foi aprovado pelo Gired e que teve alterações em algumas decisões que devem ser tomadas durante o processo e que foram recomendadas para o Ministério das Comunicações a fim de lidar com esses entraves, evitando adiamentos no cronograma. “Ter essa experiência em Rio Verde foi excepcional no ponto de vista de aprendizado”, concluiu Zerbone.

Das lições que se pode tirar com o processo de Rio Verde e como o governo está preparado para enfrentar novos desafios, Luis Roberto Antonik, diretor geral da Abert, disse que foi um grande aprendizado. “Começando pelo governo: em menos de um ano e meio, nós tivemos quatro ministros, e quando isso acontece muda tudo no ministério, e temos dificuldade natural de gerenciamento. Mas o Gired tem um papel importante e acaba suprindo essas necessidades do processo de migração”, comentou. Para ele, Brasília será um desafio maior. “Primeiro porque há 20 vezes mais população que na cidade piloto. Percebemos também que as pessoas de baixa renda só vão trocar o aparelho quando forem pressionadas e só vão fazer isso no final do período. Outro ponto é a questão das propagandas, as ações mercadológicas e a comunicação, que precisam ser voltadas mais para as classes D e E. Com essa crise econômica e a alta do dólar isso vai ser desafio ainda maior”, afirmou.

Apesar dos entraves em Rio Verde, Antonik enxergou positivamente o atraso no cronograma. “A experiência lá foi excelente, aprendemos muito. Nos Estados Unidos a migração atrasou cinco vezes, então não precisamos ficar aqui chorando pelo atraso, que ocorreu apenas uma vez. O índice de digitalização foi de 94% das casas lá (em Rio Verde); perdemos apenas de 1 a 2% de audiência”, disse.

Eduardo Bicudo, superintendente de suporte da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), disse que a TV aberta é um gênero de primeira necessidade para a população, mais que em qualquer outro país.

“Nos Estados Unidos a maioria da população assiste TV paga. No Brasil não é assim. Os brasileiros assinam TV a cabo para ter qualidade de imagem e ver a TV aberta. Acredito que a migração deveria ser feita de forma escalonada. Durante uma semana desliga o analógico por um determinado tempo e aos poucos avisa a população que ‘o gato subiu no telhado’.” Isso, afirmou, atinge menos do que o choque de tirar a TV do ar do dia para noite.

Oportunidades e desafios para as emissoras

Alexandre Sano, gerente de engenharia e expansão de rede do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), também participou do evento e disse que e emissora tem interesse em distribuir e fornecer a melhor qualidade de conteúdo, mas acredita que o processo é delicado. “Duas operações juntas envolvem manutenção e uma série de custos. Se o digital tivesse atingido todo mundo esse custo não existiria. Essa migração em qualquer lugar é bastante delicada. Nos Estados Unidos houve cinco adiamentos, mas é um mercado diferente. Aqui a população com TV aberta é grande, e é uma opção de entretimento importante. Não podemos correr o risco de perder esse público e ter apagão televisivo, isso traria risco não só para a população, mas para o mercado”, afirmou. Segundo ele, é preciso considerar que o investimento por parte das emissoras é alto. “Acho que o trabalho do Gired é para avaliar e ter diversidade de participação, para conseguir analisar os pontos de todos os envolvidos”, completou.

José Chaves, diretor de engenharia e tecnologia da TV Bandeirantes, acredita que o atraso no cronograma facilitará a migração de uma maneira mais efetiva. “O país está em crise, e há um grande sacrifico das emissoras para fazer esse investimento. Claro que é uma oportunidade de melhorar o sinal e transmitir um produto de maneira digital com qualidade superior. Para a população é um ganho expressivo, no entanto, para mercado, o investimento é grande”, afirmou.

Já a Rede Record declarou que vem fazendo investimentos elevados focados na transmissão e vai atingir o cronograma estabelecido pelo Ministério das Comunicações. Para a Rede Vida, a mudança vive um momento histórico para alavancar a economia, pois quando é oferecido um serviço de alta tecnologia, isso gera oportunidades e faz com que o consumidor tenha acesso a melhores produtos.

Experiência internacional
Christoph Limmer, vice-presidente de vendas globais e desenvolvimento comercial da Eutelsat, é envolvido com esse tipo de transição há mais de 15 anos e disse que o Brasil não foi e nem será o único a ter adiamentos na questão de entrega. Ele explicou que essa migração começou final dos anos 90 e vai demorar até 2020/2025. Segundo o executivo, os desafios maiores são garantir acesso e cumprir prazos. “A França começou com esse processo em 1995 com prazo de mudança em 2001. Depois de 6 anos o governo francês percebeu que não atingiria 100% da população, investiu 920 milhões de euros e completou a rede terrestre com satélites, que tem a vantagem de cobrir todo o país.” Já os países africanos estão discutindo se devem fazer somente com satélites. A vantagem dessa infraestrutura hibrida é a rapidez, pode começar amanhã”, disse.

O debate foi mediado por Ruy Bottesi, diretor titular adjunto da divisão de telecomunicações do Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da Fiesp. Outros dois painéis do workshop discutiram novas tecnologias por satélite para redes móveis e internet e o emprego da alta tecnologia na administração pública. A abertura do evento foi feita pela embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues, diretora titular adjunta do Deinfra, por Rodrigo Campos, CEO da Eutelsat no Brasil e por Manoel Augusto Cardoso da Fonseca, secretário de Políticas de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI)

Abertura do workshop “As oportunidades de TIC entre União Europeia e o Brasil”. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Abertura do workshop “As oportunidades de TIC entre União Europeia e o Brasil”. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp