Com crescimento da geração distribuída, microrredes e sistemas de armazenamento ganham destaque

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Carlos Brandão, presidente da Associação Brasileira de Armazenamento e Qualidade de Energia, destacou nesta quinta-feira (12/5) na Fiesp o rápido crescimento da capacidade de armazenamento de energia no mundo – em 7 meses, 2 GW adicionais, de 185,3 para 187,3 GW – e disse que em meados de 2015 o tema entrou na agenda brasileira. Armazenamento, de forma integrada a novo conceito de tecnologia em grid de distribuição, é o grande negócio em energia, disse.

Brandão moderou o painel “Microgrids e Soluções de Armazenamento de Energia” do Workshop de Geração Distribuída. Frisou que o setor elétrico passa por uma revolução – que veio para ficar. E os microgrids (microrredes) fazem parte disso, por aspectos como cibersegurança, resiliência dos sistemas e a decisão de adotar as fontes renováveis.

Lembrou a definição de microgrids (microrredes): grids de potência locais que operam em sincronia ou não com sistemas de distribuição SIN. Não se caracterizam pelo tamanho, e sim pela funcionalidade. São, disse, novo modelo de negócios para o setor. Sistemas inteligentes darão apoio a nichos de consumidores, integrados ou não à rede, no que chamou de “internet da energia”.

Na convergência se pressupõe, além das métricas atuais, exposição gradual dos desenvolvedores para sinais de mercado em tempo e situações geográficas, a revisão das metodologias tarifárias, a abertura do mercado de serviços ancilares. E a validação de custos de serviços das novas tecnologias.

Isso, disse, resultaria em expansão do negócio para além dos nichos atuais e maior participação do consumidor em negócios no sistema.

Sandro Yamamoto, Diretor Técnico da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), disse que sua instituição tem como meta trabalhar com o armazenamento.  Destacou a intensidade da participação dos geradores de energia eólica nos leilões promovidos pelo governo brasileiro. São 2 GW por ano, com a maioria das instalações no Nordeste. Em 2024 serão cerca de 25 GW instalados no Brasil.

O armazenamento, explicou, compensa momentaneamente as variações da geração eólica, o que é mais nítido no Sul (o Nordeste tem ventos mais constantes em direção e velocidade), propiciando aumento da qualidade no fornecimento.

Misto de armazenamento e geração, num sistema híbrido, talvez permitisse elevação da garantia de fornecimento. Sugeriu um projeto piloto de leilão, talvez em São Paulo, em razão da maior variação dos ventos no Estado.

André Zeni, do Projeto Microgrids da Copel Distribuição, nova divisão específica para atender ao setor da geração distribuída, disse que a concessionária quer se tornar a mais acessível em relação a isso. Há, disse, necessidade de expansão do sistema de distribuição em regiões em que haja grande concentração de geração.

A Copel, explicou, tem 405 acessantes, entre conectados e em processo de conexão, com quase 2 MW de potência instalada. Imensa maioria (395) de solar fotovoltaica, com aumento expressivo nos últimos meses. Há a forma de condomínio, a geração compartilhada (por consórcio ou cooperativa) e o autoconsumo remoto (geração num ponto e consumo em outro, desde que a titularidade seja a mesma). Só incide ICMS na energia que entra via rede, não na autogerada e consumida localmente e na que é entregue à rede. Para o consumidor, lembrou que o sistema a ser instalado precisa ser submetido à concessionária, por questões de segurança das pessoas e das instalações elétricas.

Apresentou estudo de caso do município de Turvo (PR), em que há potencial de geração. A Copel instalou subestação, gerando benefícios para os produtores e consumidores locais de energia e permitindo a injeção de energia a custo mais baixo.

Antonio Donadon, gerente de Projeto da CPFL Energia, falou sobre o projeto de armazenamento da empresa. Listou formas de armazenamento, com usos diferentes e em estados diversos de maturidade, como baterias, usinas reversas (por bombeamento de água) e outras.

Como distribuidora de energia, explicou, interessa à empresa ter armazenamento distribuído. Projeto que a CPFL deve apresentar é instalar 3 tipos de armazenamento, na geração, na transmissão e na distribuição de energia.

Vê oportunidades de negócios, como balanceamento de oferta e demanda, gestão da rede e eficiência energética. Conexão de médio porte e doméstica ainda têm espaço para desenvolvimento de software de gestão, diz.

Também no uso há margem para aumento da eficiência. A partir disso surge a oportunidade de criar VPPs (virtual power plants).

Paula Reichert, gerente da OSIsoft, disse que vai haver um dilúvio de dados para armazenar, embora talvez não imediatamente no Brasil. Em relação à energia, exemplificou, as pessoas vão querer saber em tempo real quanto consome e produzem.

Num universo de microrrede, múltiplos atores têm necessidades diferentes de dados e de seu processamento. Em relação a isso, apresentou o caso da UniEnergy, de armazenamento, que usa sistema à base de eletrólitos de vanádio. Utiliza o sistema da OSIsoft para diferentes tipos de relatórios – imediatos e de prazos mais longos. A empresa, disse, conseguiu diminuir operações emergenciais de manutenção, graças às previsões permitidas pelo programa.

Hector Mazar, vice-presidente de Desenvolvimento da Giner (www.ginerinc.com), explicou os sistemas da empresa, fundada em 1973 e líder em eletroquímica. A eletrólise (por PEM, sigla em inglês de membrana eletrolítica polimérica) é o core business. Mazar vê três oportunidades atuais (células de combustível, geradores de oxigênio e grandes sistemas de geração de hidrogênio).

Um de seus sistemas quebra água em oxigênio e hidrogênio com o excesso de energia gerada, para recombiná-los quando não é possível gerar pela via fotovoltaica.

E a Giner trabalha na implantação de um sistema para fornecer hidrogênio na Califórnia para carros que usam pilhas de combustível. No futuro, os carros, disse, serão produtores de energia. E o que sairá do escapamento é água. Meta é chegar a custo competitivo com a gasolina para o hidrogênio, o que considera viável.

Lembrou que a Giner fabrica em Boston, mas faria sentido estar mais perto dos consumidores. E perguntou: por que não produzir sistemas no Brasil?

Relatou redução de custo que vai chegar a 90% ao longo de 15 anos (contando os 10 últimos e os 5 próximos) nos sistemas de armazenamento eletrolizantes. Também há um desenvolvimento constante no aumento da capacidade. Trabalham com sistemas de 1 mW, caminhando para 5 MW.

Microgrids e soluções de armazenamento de energia foram tema de workshop na Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp