Cadeias de recursos naturais devem puxar o crescimento brasileiro, diz Mendonça de Barros

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O economista José Roberto Mendonça de Barros defendeu nesta segunda-feira (4 de setembro) durante reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag) que as cadeias de recursos naturais, incluindo a indústria extrativa mineral e o agronegócio, sejam vistas como prioridade, por sua capacidade de ser o motor do crescimento brasileiro. Segundo o economista, o valor delas já foi comprovado, e “2017 está sendo o ano da vitória da consolidação das chamadas cadeias de recursos naturais”, como mostram os números setoriais de evolução do PIB.

“Não tenho dúvida de que está no momento de dizer e trabalhar na proposição de que as cadeias de recursos naturais, nas quais temos vantagens comparativas, têm que ser os puxadores do crescimento”, afirmou o economista. O Brasil tem mostrado evolução no agronegócio e na indústria extrativa mineral, com sua produtividade crescendo há 20 anos, destacou.

Só que, alerta Mendonça de Barros, “olhar o Brasil e o mundo, assumir esse papel de puxador de crescimento, é muito mais difícil do que parece”. É preciso que as cadeias assumam o desafio e respondam às exigências do mercado mundial. “O consumidor quer uma boa experiência, quer qualidade”, disse. “E quer transparência e absoluta veracidade nas informações. Faltar com a verdade destrói o valor da empresa.”

A lista continua. “As empresas têm que inovar permanentemente. E mais difícil ainda, o consumidor exige respeito ao ambiente. Isso parece fácil, mas não é. Para isso, todos os elos de uma cadeia têm que ser solidários e trabalhar juntos.” Para entrar no mercado mundial é preciso construir marcas, destacou. De forma resumida, exige-se respeito ao meio ambiente, comunicação clara e qualidade.

“Temos”, disse Mendonça de Barros, “competência para dar e vender”, o que não quer dizer que, olhando para o futuro, não haja 3 desafios:

Logística, que precisa melhorar num horizonte próximo. Qualquer melhora nisso tem reflexo na última linha do balanço, lembrou.

“Não dá para não ter mais um seguro rural mais eficiente. Não dá. Não tem jeito.” Agricultura, ressaltou, é atividade sujeita aos humores do clima, com “desastres universais” periódicos.

E o mais desafiador, segundo Mendonça de Barros, é que a taxa de juros do Banco Central vai cair e ficar lá embaixo, se, como se espera, a inflação se mantiver baixa. E com isso o setor de crédito precisará mudar. Não vai ser com subsídio que isso vai acontecer no setor rural. As cooperativas de crédito vão crescer nesse cenário de juro mais baixo. “É uma ameaça, mas também uma oportunidade que não podemos perder.”

O exemplo que vem do frio

Mendonça de Barros citou o modelo escandinavo de desenvolvimento econômico, estudado desde os anos 50. Pobre e fria, a região tinha como riqueza as florestas. A Suécia, por exemplo, aproveitou esse recurso e também desenvolveu tecnologia no setor químico e de construção de máquinas e enriqueceu.

Reunião do Cosag com a participação de José Roberto Mendonça de Barros. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Voltando ao Brasil, há, segundo o economistas, duas causas por trás do sucesso de alguns setores, como o agronegócio. Uma delas é que o progresso tecnológico está no centro do modelo de negócios do setor. Há sofisticada interação entre o setor público e os produtores, que assumem o risco de adotar novas tecnologias. Aumenta-se a produtividade, acompanhada por aumento de competitividade.

A segunda característica é estar voltado para o mundo. O agronegócio e a mineração enfrentam o mercado global. E outros setores podem ser assim. Exemplo pouco visto, defendeu, é a Embraer, uma das maiores empresas do país, de ponta tecnologicamente. Compra o que não se consegue fazer no Brasil. E vende para o resto do mundo.

Mendonça de Barros também destacou a capacidade do agronegócio de adotar o uso do software, como mostra a agricultura de precisão. Software, explicou, é a parte realmente importante da revolução tecnológica. “O que interessa são sistemas”, disse, voltando à Embraer como exemplo.

Essa capacidade de incorporar o progresso técnico tem importância ampliada pela mudança da natureza da biotecnologia, por exemplo com a correção de defeitos de plantas sem criar um organismo geneticamente modificado. E a Embrapa já trabalha com isso, destacou Mendonça de Barros. Além disso, deve vir do setor agrícola a matéria-prima para novos materiais, como tecidos sintéticos biodegradáveis. Da cana ou da madeira podem vir materiais plásticos para a indústria automobilística.

Só que, disse o economista, em muitas regiões do país temos gente excluída do progresso tecnológico, e isso precisa ser enfrentado. Também há um desafio na questão da água. “O rio São Francisco está morrendo”, afirmou. “Então como se faz?”

Embrapa

A reunião do Cosag, conduzida por seu presidente, Jacyr Costa, teve também a participação de Cleber Soares, diretor-executivo de Transferência de Tecnologia da Embrapa. Ele explicou que seu departamento pretende que haja promoção da renda para o produtor rural de qualquer porte. “Temos que agregar valor a nossos produtos agrícolas. O grande desafio passa pelo processo de adoção da tecnologia.”

E a solução passa pela EmbrapaTec, que, explicou, surgiu em 2004 a partir de discussão sobre como levar de fato para o mercado a tecnologia da Embrabpa. Foi criada para ser um braço inovador, deixando para a Embrapa aquilo em que ela se destaca, que é a criação de tecnologia, avanço na fronteira do conhecimento, sem ter que se preocupar com negócios.

Cinco temas, disse, estão no foco da EmbrapaTec:

Agricultura sistêmica;

Gestão de risco;

Mapeamento (de logística e até de terroir);

Fronteira do conhecimento (por exemplo, edição de genoma);

Agregação de valor.