Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp debate cenários para a eleição

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

A eleição deste ano foi tema da reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag) realizada nesta segunda-feira (27 de agosto), com apresentações sobre “Efeitos das mídias sociais nas Eleições”, a cargo de Renato Dolci, “Cenário Político Brasileiro e implicações para o agronegócio”, por William Waack, e “Cenário Macroeconômico face às Eleições de outubro”, por José Roberto Mendonça de Barros.

Depois de ouvir as apresentações, José Ricardo Roriz, presidente em exercício da Fiesp e do Ciesp, destacou que tem sido pouco discutido o day after, o que acontecerá após a votação, o que pode ser feito para evitar improvisos. Analisando os planos de governo há muito pouco detalhamento, muitas dúvidas e indefinição, afirmou Roriz, que acrescentou que algumas declarações provocam insegurança muito grande.

Renato Dolci destacou em sua apresentação a grande importância da internet na eleição, em especial o whatsapp. As redes têm dificuldade de construir candidaturas, mas enorme capacidade de destruir candidaturas, disse. A produção de conteúdo contrário a candidatos vem crescendo e tende a aumentar muito, explicou.

Começou sua apresentação com um panorama da internet no Brasil, em que 140 milhões de pessoas se conectam todos os dias – 66% da população, sendo que no Sudeste chega a 76%. A produção de conteúdo se dá muito mais no Sudeste, ressaltou.

O Brasil é líder mundial em tempo gasto nas redes sociais, com mais de 5 horas por dia. O consumo de conteúdo digital é maciço. Whatsapp é usado por 86%, e Facebook, 64%. É no whats que está a produção de conteúdo, ressaltou Dolci. Instagram ainda não chega a 50%, por ser pesado em consumo de banda. Isso impacta a forma de produzir conteúdo e política.

O Brasil é ávido produtor de conteúdo, de diversos tipos. A partir de 2016 política vem ganhando corpo. De longe Bolsonaro é um dos perfis mais mencionados, perdendo de Lula, que há anos é a personalidade política mais discutida nas redes.

Robôs respondem por 30% da replicação de conteúdo – sendo que o Whatsapp é a maior fonte de divulgação de notícias políticas. E o Brasil é o país que mais consome fake news; são 10 bilhões de cliques em notícias falsas por ano, devendo chegar a 17 bilhões este ano. Lula é maior vítima de notícias falsas, mas vem crescendo muito o volume de fake news sobre Bolsonaro, segundo Dolci.

A internet virou o principal espaço para levar informação, disse. Credibilidade é ponto relevante, e outro é como se produz o conteúdo. Cada vez mais as pessoas desconfiam do conteúdo digital, afirmou, lembrando que grande parte do conteúdo produzido se baseia no que foi noticiado nos jornais. A imprensa, disse, ainda tem a capacidade de pautar e ainda deverá pautar o digital por muito tempo.

Há constância e consolidação da produção de conteúdo de Bolsonaro. Jovens mais escolarizados, de renda mais alta e usuários de tecnologia produzem gratuitamente conteúdo para ele. Como conhecem as ferramentas, espalham de forma eficiente o conteúdo. Só que mais que o barulho é importante ver a intenção de voto. A análise das pesquisas na internet mostra buscas sobre os candidatos próximas às suas intenções de votos nas pesquisas.

De acordo com Dolci, é perceptível a migração de votos de Lula indicada no meio digital. A migração para Haddad é mais de militantes, disse. E vem chamando a atenção o crescimento orgânico ainda relativamente baixo de Alckmin.

Reunião do Cosag com a participação de Renato Dolci, William Waack e Mendonça de Barros. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Reunião do Cosag com a participação de Renato Dolci, William Waack e Mendonça de Barros. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Cenário político

Estamos na fase das grandes perguntas, disse o jornalista William Waack ao abrir sua apresentação. A definição da eleição se dará depois de respondidas.

Política, explicou, é processo extremamente fluido, como a água de um rio. O fluxo pode ser mais rápido, pode estancar, espraiar-se.

O que parece hoje dado continuará sendo dado? Bolsonaro parece consolidado, mas agora será testada a resiliência de uma candidatura orgânica, sem incentivo, por si. Bolsonaro ainda não lidou com candidatos batendo nele. E tem pouco tempo de televisão, que tem peso desproporcional. Como será o embate entre ela e as tecnologias disruptivas?

A análise sob o ponto de vista da demanda do eleitorado mostra a busca por alguém que chute o pau da barraca, disse Waack. A antipolítica, a indignação e a raiva levam à tentação de chutar o pau da barraca, o que na opinião de Waack só vai fazê-la cair na cabeça de quem chutou.

Outra questão é quantos milhões de votos Lula transfere ara Haddad. Capacidade é imensa, mas não sabemos se será suficiente, afirmou.

O clima de antipolítica favorece partidos como o PT, com narrativa e organização, mas o fator tempo, fundamental na política, trabalha contra a tática do PT, de puxar ao extremo a candidatura de Lula parar maximizar a transferência de votos, o que no momento está dando certo – e Haddad deve subir muito nas intenções de voto -, mas pode não funcionar.

Segundo Waack, é uma incógnita o que acontecerá a Alckmin. “No primeiro spot da primeira inserção de Alckmin saberemos se o seu marqueteiro acertou a mão.”

E a candidatura Alckmin, segundo Waack, tem a grande dificuldade de provar que consegue resolver os problemas usando os instrumentos tradicionais da política. Tem como grande instrumento a favor a capilaridade dos partidos do Centrão, que o apoiam.

Macroeconomia

José Roberto Mendonça de Barros traçou o cenário macroeconômico face às eleições de outubro e disse que é muito favorável o cenário para o setor agropecuário caso vençam reformistas (candidatos comprometidos com uma agenda de ajustes). O dólar começa a cair, e os juros também. Melhora na infraestrutura, com política de concessões, deve reduzir custos para o setor e aumentar sua rentabilidade.

No momento, disse, há enorme frustração em relação à economia brasileira e incerteza em relação à economia internacional. Embate de reformistas e populistas marca o panorama. Houve 13 anos de política populista, que naufragou e que tenta voltar, afirmou.

Apesar da boa projeção de crescimento da economia mundial, o cenário internacional piora substancialmente. Impressiona, disse, a velocidade de destruição do soft power norte-americano. Sua política externa continua agressiva, errática e tem poucos sucessos a demonstrar. O protecionismo já começa a mostrar seu custo, mas enquanto a economia estiver bem Trump terá apoio político.

O excesso de aquecimento da economia dos EUA vai virar e pode até levar a uma recessão. O Fed deve subir a taxa de juros mais duas vezes este ano. O spread entre a taxa curta e a taxa longa sempre levou a uma recessão quando ficou negativo, e ele já se aproxima de zero.

Falcões seguem prevalecendo na Opep, puxando o preço do petróleo. Cortes na produção foram bem-sucedidos.

A guerra comercial é coisa de Trump, mas é do establishment norte-americano o embate com a China, que quer impedir a transferência para os chineses de tecnologias sensíveis.

Na Inglaterra se acentuam as divisões no país, e o Brexit é entendido como um erro.

Na Itália a junção do populismo de esquerda querendo gastar com o de direita querendo cortar impostos vai levar a uma batida monumental.

Mendonça de Barros destacou o impacto da crise turca sobre a Europa e a fragilidade da Argentina.

Estamos transitando de uma situação bastante positiva para outra difícil.

No Brasil se começou o ano com uma expectativa razoável, e se projetava crescimento de 2,5% do PIB no ano, mas em maio houve a mudança no cenário internacional, e as expectativas políticas pioraram bastante o panorama interno.

A decisão do Copom de 16 de maio, de não fazer redução da Selic para 6,25%, que era a expectativa, dias depois de praticamente anunciar na televisão o corte, e a greve dos caminhoneiros. O efeito da paralisação é notado no gráfico de consumo de energia, em que houve queda de 16% logo após o início da greve. Na volta, ficou um degrau abaixo. O crescimento em 2018 vai ser mais fraco, e a previsão agora é de 1,6%.

Destacou o desastre na construção civil. Houve queda nos últimos anos de 30% na produção de cimento.

Inflação continua baixa, e o Brasil se destaca entre os emergentes graças ao setor externo.

Disparada do dólar vem do cenário internacional, que piorou, e a incerteza política.

Cenário rapidamente revertido se houver vitória de um reformista, com melhora dramática nas expectativas e alívio enorme na pressão sobre o setor externo. O dólar deve cair para R$ 3,60. Muita gente está represando gastos este ano, recursos que devem ser liberados e levar a aumento de atividade. Também a arrecadação pública melhora.

Em caso de vitória populista, “que quer fazer de novo o que não deu certo”, projeta deterioração dos indicadores. “O caminho populista me deixa muito pessimista”, afirmou.

Cadeias de recursos naturais devem puxar o crescimento brasileiro, diz Mendonça de Barros

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O economista José Roberto Mendonça de Barros defendeu nesta segunda-feira (4 de setembro) durante reunião do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag) que as cadeias de recursos naturais, incluindo a indústria extrativa mineral e o agronegócio, sejam vistas como prioridade, por sua capacidade de ser o motor do crescimento brasileiro. Segundo o economista, o valor delas já foi comprovado, e “2017 está sendo o ano da vitória da consolidação das chamadas cadeias de recursos naturais”, como mostram os números setoriais de evolução do PIB.

“Não tenho dúvida de que está no momento de dizer e trabalhar na proposição de que as cadeias de recursos naturais, nas quais temos vantagens comparativas, têm que ser os puxadores do crescimento”, afirmou o economista. O Brasil tem mostrado evolução no agronegócio e na indústria extrativa mineral, com sua produtividade crescendo há 20 anos, destacou.

Só que, alerta Mendonça de Barros, “olhar o Brasil e o mundo, assumir esse papel de puxador de crescimento, é muito mais difícil do que parece”. É preciso que as cadeias assumam o desafio e respondam às exigências do mercado mundial. “O consumidor quer uma boa experiência, quer qualidade”, disse. “E quer transparência e absoluta veracidade nas informações. Faltar com a verdade destrói o valor da empresa.”

A lista continua. “As empresas têm que inovar permanentemente. E mais difícil ainda, o consumidor exige respeito ao ambiente. Isso parece fácil, mas não é. Para isso, todos os elos de uma cadeia têm que ser solidários e trabalhar juntos.” Para entrar no mercado mundial é preciso construir marcas, destacou. De forma resumida, exige-se respeito ao meio ambiente, comunicação clara e qualidade.

“Temos”, disse Mendonça de Barros, “competência para dar e vender”, o que não quer dizer que, olhando para o futuro, não haja 3 desafios:

Logística, que precisa melhorar num horizonte próximo. Qualquer melhora nisso tem reflexo na última linha do balanço, lembrou.

“Não dá para não ter mais um seguro rural mais eficiente. Não dá. Não tem jeito.” Agricultura, ressaltou, é atividade sujeita aos humores do clima, com “desastres universais” periódicos.

E o mais desafiador, segundo Mendonça de Barros, é que a taxa de juros do Banco Central vai cair e ficar lá embaixo, se, como se espera, a inflação se mantiver baixa. E com isso o setor de crédito precisará mudar. Não vai ser com subsídio que isso vai acontecer no setor rural. As cooperativas de crédito vão crescer nesse cenário de juro mais baixo. “É uma ameaça, mas também uma oportunidade que não podemos perder.”

O exemplo que vem do frio

Mendonça de Barros citou o modelo escandinavo de desenvolvimento econômico, estudado desde os anos 50. Pobre e fria, a região tinha como riqueza as florestas. A Suécia, por exemplo, aproveitou esse recurso e também desenvolveu tecnologia no setor químico e de construção de máquinas e enriqueceu.

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Reunião do Cosag com a participação de José Roberto Mendonça de Barros. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Voltando ao Brasil, há, segundo o economistas, duas causas por trás do sucesso de alguns setores, como o agronegócio. Uma delas é que o progresso tecnológico está no centro do modelo de negócios do setor. Há sofisticada interação entre o setor público e os produtores, que assumem o risco de adotar novas tecnologias. Aumenta-se a produtividade, acompanhada por aumento de competitividade.

A segunda característica é estar voltado para o mundo. O agronegócio e a mineração enfrentam o mercado global. E outros setores podem ser assim. Exemplo pouco visto, defendeu, é a Embraer, uma das maiores empresas do país, de ponta tecnologicamente. Compra o que não se consegue fazer no Brasil. E vende para o resto do mundo.

Mendonça de Barros também destacou a capacidade do agronegócio de adotar o uso do software, como mostra a agricultura de precisão. Software, explicou, é a parte realmente importante da revolução tecnológica. “O que interessa são sistemas”, disse, voltando à Embraer como exemplo.

Essa capacidade de incorporar o progresso técnico tem importância ampliada pela mudança da natureza da biotecnologia, por exemplo com a correção de defeitos de plantas sem criar um organismo geneticamente modificado. E a Embrapa já trabalha com isso, destacou Mendonça de Barros. Além disso, deve vir do setor agrícola a matéria-prima para novos materiais, como tecidos sintéticos biodegradáveis. Da cana ou da madeira podem vir materiais plásticos para a indústria automobilística.

Só que, disse o economista, em muitas regiões do país temos gente excluída do progresso tecnológico, e isso precisa ser enfrentado. Também há um desafio na questão da água. “O rio São Francisco está morrendo”, afirmou. “Então como se faz?”

Embrapa

A reunião do Cosag, conduzida por seu presidente, Jacyr Costa, teve também a participação de Cleber Soares, diretor-executivo de Transferência de Tecnologia da Embrapa. Ele explicou que seu departamento pretende que haja promoção da renda para o produtor rural de qualquer porte. “Temos que agregar valor a nossos produtos agrícolas. O grande desafio passa pelo processo de adoção da tecnologia.”

E a solução passa pela EmbrapaTec, que, explicou, surgiu em 2004 a partir de discussão sobre como levar de fato para o mercado a tecnologia da Embrabpa. Foi criada para ser um braço inovador, deixando para a Embrapa aquilo em que ela se destaca, que é a criação de tecnologia, avanço na fronteira do conhecimento, sem ter que se preocupar com negócios.

Cinco temas, disse, estão no foco da EmbrapaTec:

Agricultura sistêmica;

Gestão de risco;

Mapeamento (de logística e até de terroir);

Fronteira do conhecimento (por exemplo, edição de genoma);

Agregação de valor.