Talento e megacompetência serão essenciais à sobrevivência de profissionais, corporações e países, diz Marcos Troyjo

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O mundo está enfrentando um processo de reglobalização, um novo ecossistema que substituiu os anteriores, a “globalização profunda” (1989-2008) e a “desglobalização” ocorrida a partir de 2008. Esses complexos cenários foram explicados pelo diplomata e economista Marcos Troyjo, diretor do BRICLab do Centro de Estudos sobre o Brasil, Rússia e China da Universidade de Columbia (EUA), no encontro do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Fiesp, nesta segunda-feira 16, que abriu os trabalhos com voto de profundo pesar pelas vítimas do atentado ocorrido em Paris na sexta-feira, 13.

Uma das forças da reglobalização vem da China, que transfere sua produção para localidades como a África, onde há fontes para commodities agrícolas, mão de obra mais barata e robustos contratos de infraestrutura. Portanto, Troyjo diz que é uma “bobagem” dizer que a China está “desacelerando”. Na verdade, ela é a responsável pela ascensão asiática e trará impactos no futuro.

Em 2002, o PIB da economia chinesa equivalia a uma Itália. Hoje, pouco mais de uma década depois, seus US$ 11 trilhões representam 3,7 vezes o PIB italiano, e o país cresce rapidamente, ameaçando tomar o lugar dos Estados Unidos como maior economia mundial, apesar de a potência norte-americana estar se reindustrializando. “O Ocidente saiu do centro e nada foi colocado em seu lugar”, refletiu o economista.

Nos últimos 20 anos, algumas características respondem pela “globalização profunda”. Entre elas, a associação entre livre mercado e democracias representativas, especialmente do Ocidente, e a inovação como reinvenção corporativa. O economista citou a gigante IBM (International Business Machine), que deixou de fabricar equipamentos físicos, hardware, passando a prover sistemas corporativos, software, intangíveis, dentro do conceito de “destruição criativa”. A Olivetti não conseguiu fazer essa transição com sucesso, disse.

Outra força é a mudança do meridiano geoeconômico, especialmente para o setor industrial, do eixo do Atlântico para o Pacífico, do eixo Europa-Estados Unidos para o asiático. “No período da globalização profunda ninguém falava sobre a China como potência econômica”, mas sim sobre o Japão, pontuou, atrelando um dado dramático: a carga tributária na China é de 18% frente ao Produto Interno Bruto (PIB), enquanto no Brasil é de 36%.

A reboque há a criação de grandes blocos de livre comércio, mas também com ambições político-jurídicas, como as economias do Mercosul, do Nafta (EUA, Canadá e México), que efetivamente funciona, segundo o palestrante, da União Europeia, além das economias dos países da franja sul-americana (Peru, Colômbia, Chile). “O Mercosul descarrilhou, e a China investe hoje fortemente na Argentina.”

De acordo com Troyjo, a inovação implodiu, e o conceito de que somente as grandes empresas investiriam em pesquisa e desenvolvimento não se sustenta. No berço da inovação estão as pequenas e médias empresas, as startups: “das 30 maiores empresas, 14 não existiam há 20 anos. E hoje a Petrobras vale menos do que o Uber (aplicativo de táxis)”, disse.

Reunião do Consea, com a participação de Marcos Troyjo. Foto: Helcio Nagamine, Agência Indusnet Fiesp

 

Metacompetências

Após os períodos da globalização e seu desmonte, a desglobalização, os próximos 25 anos deverão ser marcados pela “reglobalização” com o fortalecimento de cadeias de colaboração global sofisticadas.

Nesse contexto, se insere o desafio global da nova era do “talento”, tema central do debate com o economista Troyjo. Esse processo se dá não apenas do ponto de vista individual, mas também comercial, e engloba ainda os países. “O talento não pode ser entendido apenas como sinônimo do aperfeiçoamento de capacidades inatas”, explicou, acrescentando a necessidade de lidar com as chamadas megacompetências. Para ele, o talento de uma empresa vem do seu core business. Para as nações, o talento pode ser entendido como vantagens comparativas, como no Brasil, commodities agrícolas e minerais. Isso mudou: “o talento será mais importante do que o capital. Não há garantia de certeza de sucesso com a sua vocação pessoal, de seu core business ou de suas vantagens comparativas. No plano individual, o indivíduo deverá ser megacompetente. Engenheiros precisarão saber ler contratos, os advogados saber fazer contas, os filósofos e sociólogos, conhecer métodos quantitativos”, exemplificou.

Esse fenômeno também terá efeitos colaterais nas empresas. Como exemplo, a Mont Blanc que amargou queda brutal na venda de canetas nos últimos 15 anos e se reinventou com canetas com edição limitada, não necessariamente para a escrita, mas sim como objetos de coleção. Houve o incremento com linha de relógios, fragrâncias e spas diários. “Hoje de cada US$ 100 de receita, US$ 83 vêm de outros produtos” e não necessariamente das suas canetas, revelou. Por isso, será preciso haver junção entre mundo do saber e do fazer.

No Brasil, a pergunta a ser respondida é como o país enfrentará esse fortalecimento das cadeias globais de colaboração, essa nova geopolítica e como tirar vantagem da ascensão da chamada China 2.0.

O presidente do Consea, Ruy Martins Altenfelder, questionou a inserção do Brasil nesse cenário, o futuro da Argentina, com a proximidade das eleições, e o respeito ao estado democrático de direito na China. Para Troyjo, os chineses não têm experiência com a democracia e a consideram “vagarosa”, enquanto a parceria com o país vizinho, frente a uma vitória da oposição, deverá colocar a Argentina em ciclo virtuoso, impulsionada pela relação privilegiada com a potência asiática. Quanto ao Brasil, “esse aprofundamento das relações com a economia internacional, baseada nas vantagens comparativas, agudizou-se nos últimos 15 anos porque a pauta de exportações brasileira voltou a ser a que tínhamos em 1978, do ponto de vista do percentual ocupado por produtos de baixo valor agregado, matérias-primas etc”, disse. Troyjo ainda avaliou que o modelo negociador da Organização Mundial do Comércio (OMC) a partir de rodadas abrangentes e multitemáticas (agricultura, propriedade intelectual, compras governamentais, entre outros) e que requer decisão por consenso se esgotou, mas ainda mantém sua função como órgão de solução de controvérsias.