Ex-presidente da Embrapa: país precisa levar mecanização agrícola também aos deixados de lado

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

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Ex-presidente da Embrapa Eliseu Alves em reunião do Cosag na Fiesp

O Brasil modernizou sua agricultura, mas ainda não conseguiu descentralizar a renda bruta. Pelo contrário, esta se mostra extremamente concentrada. A avaliação é de Eliseu Roberto de Andrade Alves, um dos fundadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

“Também não conseguimos manter a população no meio rural. E ainda temos grande parte do problema da agricultura familiar por resolver”, afirmou o ex-presidente da empresa, ao participar na segunda-feira (13/08) da 50ª reunião do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Para Alves, um sinal de saúde do agronegócio brasileiro é a migração rural urbana. A agricultura, segundo ele, pode ser feita por poucos produtores e muita tecnologia, como é o caso da Europa, por exemplo, que optou por uma agricultura baseada em ciência e poucos empregos diretos.

De acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentadas pelo fundador da Embrapa, a população rural caiu de 41,6% nos anos 1970 para 29,8% em meados de 2010. “Eu acho que o Brasil está caminhando para isso e já fez uma grande parte da travessia.”

Na avaliação de Eliseu Alves, o aspecto mais positivo da modernização agrícola é a queda expressiva do preço dos alimentos. “O preço da cesta básica reduziu substancialmente. E para quem é o maior benefício? É para os consumidores mais pobres, que gastam a maior parte do orçamento doméstico na compra de alimentos”, afirmou ele, mostrando dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) que demonstram uma baixa anual de 2,02% do preço da cesta básica entre 1977 e 2007 e uma forte queda de 62,8% no período.

“Houve uma enorme distribuição de renda que nenhuma política pública fez. Inclusive, todos esses programas do governo de transferência de renda estão funcionando muito bem exatamente porque a agricultura brasileira tem sustentado preços decrescentes dos alimentos”, avaliou.

Concentração de renda

Eliseu Alves alertou que se nada for feito para descentralizar a renda bruta no meio rural, essa população vai continuar optando migrar para as grandes cidades brasileiras. O pesquisador sugeriu como alternativa o acesso mais facilitado à tecnologia por parte dos pequenos produtores.

“Nós não conseguiremos aumentar a renda agrícola se [o país] não modernizar a agricultura. Com tecnologia rudimentar, não há como aumentar a renda da agricultura familiar”, afirmou.

Levantamentos do IBGE revelam que, em 2010, a maior parte (47,8%) da população concentrava-se na área rural.
“Já imaginou se esses 47% de repente aportassem aqui em São Paulo?”, questionou o ex-presidente da Embrapa. “São 17 milhões de pessoas. É importante – tendo a consciência de que essa é uma medida paliativa – a gente ter uma política para tentar mecanizar a agricultura dos que são mais deixados de lado”, concluiu.