Entrevista: Matriz de materialidade

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Por Karen Pegorari Silveira

A definição de temas relevantes para uma empresa e o envolvimento de stakeholders de forma ampla e efetiva na identificação dos impactos e interesses externos vinculados ao negócio são práticas já estabelecidas em alguns países da Europa, mas ainda recentes no Brasil. Porém, tem crescido significativamente o número de companhias que relatam a adoção deste processo nos últimos anos.

Para Tatiana Botelho, coordenadora do programa de Relatos e Transparência do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), todas as empresas podem realizar um processo de materialidade, desde que este processo seja transparente e que a empresa relate a definição utilizada e a metodologia de priorização aplicada para as partes consultadas.

Leia mais na íntegra da entrevista:

O que é materialidade?

Tatiana Botelho – Materialidade é um princípio contábil que foi adaptado pela área de sustentabilidade para identificar os aspectos não-financeiros relevantes para a empresa.  Essa identificação pode ser realizada com lentes diferentes dependendo da definição de materialidade com que a empresa está trabalhando. Pode incluir, de acordo com a Global Reporting Iniative (GRI), o que é significante para a avaliação ou tomada de decisão das partes interessadas ou focar em fatores que impactam o potencial de criação de valor de curto médio e longo prazo, alinhado com o International Integrated Reporting Council (IIRC).  Apesar dessas abordagens parecerem divergentes, elas podem convergir se considerarmos que fatores que são importantes para as partes interessadas podem impactar na criação de valor de uma empresa, seja no curto, médio ou longo prazo.

Como as empresas podem identificar os temas relevantes e como priorizar estes temas?

Tatiana Botelho – A GRI e o IIRC não apresentam metodologias para a realização da análise de materialidade. Cabe a empresa identificar quais stakeholders devem ser consultados e os meios de consulta a serem utilizados. Cada empresa também deve selecionar os critérios para priorização das questões levantadas e como incorporar o resultado do processo no seu planejamento estratégico. Isso pode ser feito com apoio de consultoria especializada ou não.  O Sustainable Accounting Standards Board (SASB) realizou análises de materialidade setoriais que podem servir de referência, porém com devido cuidado, considerando que a análise se baseou na realidade Norte Americana e que a materialidade pode variar entre empresas dentro de um mesmo setor.

Após identificar os grandes temas da companhia, qual o próximo passo?

Tatiana Botelho – O estudo de materialidade, além de prover a base para o processo de relato, pode ser uma ferramenta importante para a priorização de ações e integração das práticas de sustentabilidade à estratégia e gestão das companhias. As empresas envolvidas no GT de Empresas Pioneiras em Relatório de Sustentabilidade, coordenado pelo CEBDS, GRI e CDP dentro da Comissão Brasileira do Relato Integrado, apresentaram diversas experiências em que a contribuição de stakeholders e suas demandas deram suporte a ações de geração de valor e resultados positivos para as empresas.

Por que é importante a inclusão da cadeia de suprimentos em um processo de materialidade?

Tatiana Botelho – A crescente escassez de recursos naturais (como por exemplo água) aliados com as mudanças climáticas estão modificando o perfil de riscos para as empresas.  A maioria das empresas estão cientes da magnitude dos riscos ambientais de suas cadeias de valor e os consequentes riscos e oportunidades financeiras dos quais estão expostas.  Um estudo da Trucost com os Princípios de Investimento Responsável das Nações Unidas (UN PRI) encontrou que quase 50% dos US $ 2,15 trilhões de danos ambientais anuais causados pelas 3000 maiores empresas globais estão na cadeia de suprimentos. Ao integrar a informação dos seus fornecedores no sistema de gestão, a empresa pode mitigar o risco, reduzir custos e reduzir o impacto.

Como pode ser aplicado o processo de materialidade? É possível uma empresa de pequeno porte aplicar?

Tatiana Botelho – Qualquer empresa pode realizar um processo de materialidade. O importante é que esse processo seja transparente, no qual a empresa relata a definição utilizada, as partes interessadas consultadas e a metodologia de priorização aplicada.

Quais as consequências para a empresa que não se atentar à importância da materialidade?

Tatiana Botelho – A 4ª edição da pesquisa da DOM 2014 destaca que em 66% das empresas pesquisadas, os temas/compromissos/ações de sustentabilidade não apresentam materialidade e relevância suficientes, tanto para a empresa quanto para os stakeholders envolvidos com o tema. Dessa forma, não se traduzem em resultados ou atingem seus objetivos. Sem analise de materialidade, a empresa está fazendo uma gestão de sustentabilidade no escuro.

Qual a relevância da materialidade para a sustentabilidade dos negócios?

Tatiana Botelho – Estima-se que 80% do valor de mercado de uma empresa resulta de ativos intangíveis, tais como reputação, imagem, reconhecimento da marca, relacionamentos, fidelização de clientes, capacidade de inovação, transparência e governança corporativa, marcas e patentes e políticas.  Considerando isso, o objetivo da análise da materialidade é identificar que aspectos ambientais, sociais e de governança protegem e agregam valor ao negócio.

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