Processo de reindustrialização no país deve evitar ‘fórmulas mágicas’, diz economista Mariano Laplane

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

O Brasil tem um conjunto de instrumentos para promover a esperada reindustrialização, mas é importante ter consciência de que esse processo é demorado e, em paralelo, evitar cair em “fórmulas mágicas”, afirmou nesta segunda-feira (26/08) o presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Mariano Francisco Laplane.

A escala de recursos aumentou, mas a maior fragilidade do momento, segundo o economista, talvez seja a coordenação do conjunto de instrumentos para recuperar o setor manufatureiro do país.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1545009634

Mariano Laplane, do CGEE: reindustrializacao é um processo demorado, penoso e de mudança social extremamente complexo. Foto: Everton Amaro/Fiesp

“O ‘Plano Nova Empresa’, por exemplo, tem recursos de mais de R$30 bilhões, uma escala de mobilização razoável e bastante superior ao que se acostumava ver”, afirmou Laplane.

Ele participou de um debate sobre instrumentos de política industrial para incentivar retomada da indústria durante o seminário “Reindustrialização do Brasil – Chave para um projeto nacional de desenvolvimento”, organizado pela Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp).

“Temos oportunidades de iniciar uma reindustrializacao, mas há enormes desafios. É um processo demorado, penoso e de mudança social extremamente complexo. É preciso fugir de fórmulas mágicas”, alertou o economista.

Embora a perspectiva para reindustrialização seja em parte otimista, o Brasil ainda está longe de “construir uma estratégia articulada, densa e de longo prazo” para o processo de recuperação, argumentou Laplane.

“Qualquer processo de reindustrialização envolve transferência de renda e recursos. A escolha das opções é lenta, criteriosa e política”, afirmou.

Contexto internacional

Imagem relacionada a matéria - Id: 1545009634

Giannetti da Fonseca, do Derex/Fiesp: 'falta previsibilidade econômica, política e jurídica no Brasil'. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Segundo o presidente do CGEE, a reindustrialização no Brasil deve se pautar pelo contexto do setor manufatureiro no Brasil e no mundo dos próximos anos e as incertezas ainda predominam quando o tema são as perspectivas da indústria internacional pós-crise financeira de 2008.

“Há um regime de comércio que quer mudar, mas não se sabe muito bem para qual direção. Do lado doméstico, as circunstâncias também mudaram. Temos um mercado interno 40% maior que tínhamos há 10 ou 15 anos e um déficit em infraestrutura também muito maior”, afirmou.

Outro desafio, ainda segundo Laplane, é enfrentar um regime macroeconômico que desde os anos 1980 é voltado para tentar gerar o mínimo de estabilidade, mas não necessariamente para estimular o crescimento econômico do país.

“Nós temos dilemas. Não é conveniente comparar China ou a Coreia com Brasil. Algumas escolhas da China não são desejáveis na nossa sociedade. Portanto, os desafios são muito grandes”, ponderou.

Ao comentar o assunto, o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex)  da Fiesp, Roberto Gianetti da Fonseca, alertou que, se não houver investimento, o processo de reindustrialização vai ficar “apenas para registro”.  Ele ainda atacou a falta de previsibilidade econômica, política e jurídica no Brasil.

Ações temporárias

Imagem relacionada a matéria - Id: 1545009634

Mario Bernardini, da Abimaq: ajustes no ambiente macroeconômico não resolvem o problema da indústria no curto prazo. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Ao participar do debate, o assessor econômico da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Mário Bernardini, afirmou ser “absolutamente necessário” corrigir o regime macroeconômico, o qual, em sua opinião, provoca um ambiente hostil para indústria de transformação há mais de 20 anos.

Enquanto essas correções não ocorrem, ele defende o uso de outros instrumentos de política industrial “ainda que transitoriamente”.

Ajustes no ambiente macroeconômico como a aplicação de marcos regulatórios, legislação trabalhista e infraestrutura adequada “são demorados, portanto não resolvem o problema da indústria no curto prazo”, ponderou Bernardini.

Inovação

Imagem relacionada a matéria - Id: 1545009634

Julio de Almeida, da Unicamp: indústria brasileira poderia inovar mais se exportasse mais. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Por ser pouco exportadora, a indústria brasileira inova pouco, segundo o professor Júlio Gomes de Almeida, do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp).

“Somos muito bons em adaptar as inovações dos outros, mas a nossa indústria é pouco inovadora. Ela poderia inovar mais se exportasse mais.”

Segundo o professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, política industrial ainda esta adormecida em dois aspectos: atração de investimento e empresas internacionais para produzirem no país parte dos produtos com alto conteúdo tecnológico.

Na visão de José Ricardo Roriz Coelho, diretor-titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp e comentarista do painel durante o seminário, a inovação precisa ser pensada a partir de uma perspectiva diferente.

“Você não vende mais um produto, você vende uma solução”, concluiu.