Entrevista: A Evolução do Debate sobre Gênero no Brasil

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Por Karen Pegorari Silveira

No mês em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, entrevistamos a doutora em Psicologia Social e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) para falar a respeito da equidade de gênero nos negócios e sobre a criação da primeira disciplina no país a debater o tema em um curso superior de Administração.

Veja a entrevista na íntegra:

Quando começou o debate sobre a questão de igualdade de gêneros no Brasil e como esta discussão tem evoluído?

Maria José Tonelli – O debate sobre a questão de igualdade de gênero no Brasil começou há algumas décadas; por exemplo, a criação do Conselho da Condição Feminina no Estado de São Paulo, durante o Governo Montoro, nos anos 80, foi um marco. Esse grupo trouxe para a discussão pública questões da saúde da mulher, da violência doméstica e promoveu inúmeros levantamentos da situação da mulher, além de ações efetivas para a melhoria de suas condições. Esse debate ficou um pouco adormecido, mas, com a tecnologias digitais passou por um revival nessa década. Triste ver que muitos aspectos melhoram, mas ainda temos muitos desafios pela frente. Houve uma evolução na discussão, ou melhor, a discussão se ampliou, especialmente pelo efeito das mídias sociais; o papel da ONU nesse processo também é relevante, pois o Programa He for She, espalhado pelo mundo, reforçou a importância do debate.

Este debate teve conquistas importantes para as mulheres. Pode nos falar a respeito das mais significativas?

Maria José Tonelli – Várias conquistas foram importantes. Em primeiro lugar, o tema estar em pauta, de modo mais contundente, nas empresas, no setor público, entre estudantes universitários e outros, já é uma indicação de que a questão passou a ter uma atenção permanente da sociedade. Outro ponto a ser destacado é a educação: as mulheres passaram a ter mais condições educacionais e hoje apresentam um número maior de anos de escolaridade. Seria importante que os homens também pudessem se desenvolver mais, ter mais anos de escolaridade, mas a pressão que sofrem para trabalhar é, talvez, mais forte ainda que a exigência imposta para as mulheres. Outro aspecto a ser ressaltado é que as mulheres destacam-se em atividades empreendedoras e respondem hoje pela criação de mais de 50% de novos negócios.

A discussão existe até hoje, por conta da existência de muitas desigualdades, tanto que fomentou a criação de uma disciplina que abordará a questão de gênero no curso de graduação em Administração de empresas, cujo você é a professora responsável. Qual é o objetivo desta disciplina?

Maria José Tonelli – Sim, infelizmente, apesar dos avanços, a desigualdade ainda é marcante no Brasil e a disciplina já foi oferecida para os alunos de Graduação em Administração de Empresas e Graduação em Administração Pública, também Graduação em Direito, pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV. A disciplina teve por objetivo promover a consciência entre os jovens alunos sobre as questões que cercam a desigualdade de gênero no Brasil e contou com o patrocínio da AVON. Foi um trabalho interessante. De um lado, ficamos impressionados com o fato de que as jovens alunas já experimentaram discriminação por gênero e sentiram a desigualdade; por outro, a disciplina foi um espaço de debate, contou com a presença de vários executivos, executivas e CEOS, que permitiu o enriquecimento do grupo participante. Diversidade, de modo geral, é um tema relevante na Escola de Administração de empresas de São Paulo. Há uma coordenadoria voltada somente à Diversidade e Cultura e os alunos e alunas participam de vários grupos de discussão sobre o tema.

Na sua opinião, chegaremos a equidade de gênero no Brasil? Como e quando?

Maria José Tonelli – Do meu ponto de vista, para chegar em equidade de gênero no Brasil precisamos investir fortemente em Educação. O país é ainda muito machista. Não saberia dizer quando chegaremos à equidade, mas vejo que é urgente continuarmos com esse debate e com ações que permitam reverter o quadro de desigualdade do país. Apenas para dar um exemplo, o Brasil figura na posição de número 60, num ranking que avalia a facilidade para o estabelecimento de negócios por mulheres empreendedoras enquanto o Chile está na posição de número 15. Não se trata, portanto, de questões que todos os países latino-americanos enfrentam. A desigualdade é mais forte aqui e precisamos desenvolver mecanismos que permitam às mulheres melhores condições de participação, em benefício do próprio desenvolvimento do país.