‘Virada Sustentável’: especialistas discutem eficiência hídrica em seminário da Fiesp

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Empresários e especialistas discutiram na tarde desta quinta-feira (28/08) como ampliar o uso da tecnologia retrofit em instalações hídricas. Os debates aconteceram em meio à crise hídrica em São Paulo.

O diretor titular adjunto do Departamento da Indústria da Construção (Deconcic), Mário William Esper, apresentou equipamentos que podem reduzir o consumo de água a partir das descargas em edifícios e casas.

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Mário William Ésper: importância do retrofit. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Segundo Esper, 60% do consumo de água em uma residência corresponde ao uso de descargas. Para reduzir o uso de água, o diretor do Deconcic apresentou um mecanismo com bacia de 4,8 litros, equipamento também desenvolvido pela fabricante de bacias sanitárias, Hervy, o qual, segundo ele, reduz em até 68% o consumo em termos financeiros.

Normalmente, as bacias sanitárias instaladas em edifícios residências e comerciais são de 15 litros. O diretor defendeu a aplicação do conceito retrofit, capaz de tornar construções antigas em edifícios inteligentes, para adequar esse tipo de recurso para um consumo mais eficiente. Na avaliação de Esper, essa é uma questão de gestão pública.

“O estado de São Paulo vem adotando esse conceito, está sendo estruturado um programa de incentivo a substituição de bacias. Em Atibaia serão trocadas 37 mil”, afirmou ao participar do seminário Eficiência Hídrica e Edifícios Inteligentes, organizado pelo Departamento de Meio Ambiente da Fiesp, com o apoio do Comitê de Jovens Empreendedores (CJE) da entidade, para contribuir com Virada Sustentável, movimento de mobilização na capital paulista em torno de ações sustentáveis.

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Marcello Sesso: arquiteto defendeu instrumentos de reutilização da água da chuva em prédios residenciais e comércio e a individualização da cobrança de água nos condomínios da cidade Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

O arquiteto e urbanista Marcello Sesso, da Sesso & Dalanezi Arquitetura, também participou do encontrou e defendeu instrumentos de reutilização da água da chuva em prédios residenciais e comércio e a individualização da cobrança de água nos condomínios da cidade.

“Com a medição individualizada aquele que gasta aleatoriamente começa a sentir no bolso porque vai pagar uma conta muito maior e isso é um incentivo [à redução do consumo]. É percebido que essa economia, geralmente de 30% a 40%, reflete diretamente no seu bolso. Esse é um dos métodos mais utilizados e é possível fazer isso em retrofit de edifícios antigos”, explicou.

Segundo o diretor de sustentabilidade do grupo Whirpool Latin America, fabricante dos eletrodomésticos Consul e Brastemp, Vanderlei Niehues, a companhia adota há 12 anos medidas de uso eficiente da água em suas instalações no Brasil.

A fabricante no Brasil reduziu o consumo de água por produto fabricado em 69% nos últimos 12 anos.
“Também temos o processo de coleta de água de chuva. Estamos atuando bastante na questão de reuso da água, essa é uma das áreas onde há mais investimento”, comentou.

O diretor também fez uma comparação entre as atuais lavadoras de roupas e as fabricadas pela companhia há 10 anos. Segundo Niehues, as novas máquinas consomem até 60% menos de água do que as da década passada.

“Nenhum produto é lançado sem que a gente faça o footprint [pegada hídrica – cálculo desse produto e defina as novas metas de redução para a edição seguinte, a gente se compara com a gente mesmo para inovar”, completou.

Nascentes e falta de chuva

Entre as iniciativas do setor privado apresentadas na programação do evento na Fiesp, a gerente de Desenvolvimento Ambiental da fabricante de embalagens de alimentos Tetra Pak, Valeria Michel, apresentou o projeto Nascentes, desenvolvido pela companhia.

O programa tem a intenção de recuperar e preservar berços do rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. A área piloto do projeto é a microbacia da região do Sistema da Cantareira, na cidade de Vargem.

Por intermédio do programa, que começou no ano passado, já foram implantadas 116 das 200 das bacias de captação previstas para o final do ano, de acordo com Valeria. A escassez de chuvas esse ano, no entanto, atrapalhou o trabalho de captação das águas.

“Começamos o projeto há um ano e um dos estudos que fizemos foi baseado na média histórica de chuvas da região. Mas, se não houvesse um ano tão atípico, as 116 barreirinhas já construídas teriam captado 60% do volume de água das chuvas”, explicou.

Crise

Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), o nível do Sistema Cantareira, que abastece parte da Grande São Paulo, voltou a cair no último domingo. O volume de água armazenado no reservatório é de 12%. O Sistema Alto do Tietê também anotou baixa. No último final de semana, o nível chegou a 16,9%.

Na avaliação do arquiteto Marcello Sesso, o Brasil precisa aprender com os exemplos de outros países em termos de inovação e buscar soluções adequadas para a realidade do país para superar e evitar crises como a do abastecimento de água em São Paulo.

“Se a gente não pegar essas referências e não for atrás de novas soluções, não vamos conseguir escapar de algo desagradável como racionamento”, disse.

Também participou do seminário da Fiesp a engenheira Roseane Garcia Lopes de Souza, do Centro de Apoio à Faculdade de Saúde Pública da USP; Marcus da Matta, diretor executivo da Ecoadviso; e Maria Augusta Pires Pinto, do Instituto Jatobás.