Artista plástico João Carlos Favoretto e seu caso de amor com a natureza e com a vida

Dulce Moraes, Agência Indusnet

Foi paixão à primeira vista. Assim descreve o artista plástico João Carlos Favoretto o seu  encontro mágico e avassalador com os principais representantes do movimento impressionista em Paris. Aquele tórrido dia de verão europeu, no Musée de l’Orangerie, marcou sua vida, sua alma e determinou o seu caminho como artista.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544726788

João Carlos Favoretto em seu ateliê: “É muito difícil para o artista separar o que vem antes, se é a arte ou se é a vida. Tudo é uma coisa só. Não há separação”. Foto: Reprodução

Em entrevista ao portal da Fiesp, Favoretto fala da simbiose entre arte e natureza que para ele é a própria significação da vida. Sua obra, marcada por formas orgânicas e cores vibrantes em constante busca pela harmonia, é definida por ele como “um antídoto à depressão e à tristeza”.

O público poderá provar um pouco desse antídoto na mostra Favoretto: As Cores do Meu Recanto em exibição, a partir do dia 9 de agosto, no Sesi Amoreiras, em Campinas. A mostra, que contou com a curadoria de Rodolfo de Athayde, reúne quinze telas do artista.

Leia a seguir a entrevista completa com o artista:

É verdade que o seu primeiro encontro com as pinturas impressionistas francesas foi quase “chamado divino” para sua vida como artista?

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544726788

Favoretto sobre o encontro com as Ninfeias, de Claude Monet: "Descobri que Deus existe e um de seus nomes é Beleza". Foto: Reprodução

Sim. Realmente me apaixonei perdidamente. Entrei em êxtase quando, naquele verão europeu de 1976, entrei pela primeira vez no Museu Orangerie, em Paris. Era um dia quente e o museu encontrava-se quase vazio, sonolento. As poucas pessoas que visitavam o local se diluíam em vagas de suor. Felizmente, eu naquela época residia no Rio de Janeiro, e calor para mim não era problema.

Foi um momento muito especial. Sentia como se possuísse o Museu, era meu. Todos os impressionistas que hoje estão alocados em vários outros grandes museus pelo mundo, por alguma razão que desconheço, encontravam-se ali. Fui percorrendo galeria após galeria, e vi uma avalanche de maravilhas: Monet, Manet, Seurat, Degas, Van Gogh, Gauguin e tantos outros. Cada nova tela que descobria mais meu queixo caia e minha boca se abria de alumbramento. Até que chegou o grand finale. Alcancei o piso mais baixo, onde havia apenas duas grandes salas ovaladas, iluminadas por luz zenital. E lá estavam elas: as doze “Ninfeias” de Claude Monet. Descobri ali que Deus existe e um de seus nomes é Beleza. E nesse exato momento decidi que aquilo passava a ser a Meta de minha vida

E como você incorporou essa influência dos impressionistas em sua obra?

Bom, daquele momento em diante comecei a buscar toda literatura disponível sobre os impressionistas e, veja bem, uma das premissas propostas por Monet era que os artistas deveriam sair de seus estúdios e pintar no campo ou nas ruas para captarem e observarem a variação que a cor local sofre durante o transcorrer do dia. E eu segui obedientemente este ensinamento. Também comprei um pequeno sitio em Vassouras, à beira do Rio Paraíba, e comecei a pintar.

E você percebeu alguma diferença entre a natureza vista pelos impressionistas com a que você começava a pintar aqui no Brasil?

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544726788

Favoretto: "natureza como inspiração para a arte e para vida". Foto: Reprodução

Sim. Aliás, eu descobri alguns dados que ninguém havia me contado, por exemplo, como é diferente a incidência da luz solar aqui no Brasil e, em especial, na região Sudeste. Descobri também que nossa terra é vermelha e isso influencia toda a paleta cromática, pois composições em vermelhos podem ser muito difíceis.

Descobri também que aquela paisagem desolada e desértica, legado da passagem da cultura do café, era muito árida e não me interessavam. Daí, finalmente, partir para pintar a Mata Atlântica e seus muitos mundos secretos.

Como é, hoje, o seu contato com a floresta e com natureza? E onde você pinta suas telas, em meio a natureza ou no estúdio?

Bom, primeiro, queria dizer que percebo que as pessoas, em geral, têm uma abordagem desrespeitosa em relação à Natureza, especialmente em relação às florestas.

Eu descobri que, para mim, é preciso submergir neste espaço, que para alguns é aterrorizante e para outros é sagrado. Nele eu não me preocupo em anotar o que vejo, mas registrar com meus sentidos toda uma gama vibratória e sensorial apenas. Então, quando volto para casa, em algum momento toda aquela informação retida ira sair e produzir algum resultado, seja desenho ou parte de uma pintura. Atualmente, realizo meus trabalhos no estúdio, mais por uma questão de praticidade.

Você comentou sobre as cores das nossas terras aqui no Brasil que influencia a paleta cromática. Mas, gostaria que você falasse um pouco o papel das formas e cores em suas telas?

Já estamos praticamente há quase um século sobre a tirania da linha reta e do racionalismo, desde o início do movimento cubista, formas muito masculinas de expressão. Eu busco exatamente o oposto: a sensualidade, a curva e todas suas variáveis. Também busco as paletas raras com inúmeras misturas de cores e, vale destacar que todos estes aspectos estão associados à natureza feminina. Todas essas escolhas é um forma de assegurar minha independência e minha vida como pintor e ser humano.

Das obras que estarão na mostra “Cores do Meu Recanto” qual teve mais significação pessoal pra você?

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544726788

O feminino, as cores vibrantes e formas orgânicas são a marca da obra de Favoretto. Foto: Reprodução

A que mais me deu prazer e, portanto, é a minha preferida, é um trabalho em cores escuras com um grande círculo de palavras em vermelho, extraídas da obra Oração ao Sol do faraó Amenofis IV, mais conhecido como Aquenaton. É a minha homenagem a este primeiro monoteísta, e porque penso que nossa verdadeira fonte de vida é, e sempre será, o Sol.


Sua obra é também algum clamor à Humanidade?

Minhas pinturas têm a intenção de ser um lembrete a todos meus irmãos que a vida existe, que ela é finita e que pode ser bela ou triste, conforme as diferentes opções de escolha que temos.

Penso que meus quadros são como um antídoto à depressão e à tristeza, que tanto apoio encontra na Arte Contemporânea, que reduz o ser humano a quase uma peça descartável de engrenagem que não conhecemos.

A vida é e pode ser muito difícil para muitas pessoas. Daí a razão de eu propor um mundo mais colorido, mais natural e mais humano.


Sobre a exposição: 

Favoretto, as Cores do Meu Recanto

Período expositivo:

De 09 de agosto a 28 de setembro de 2014

De terça a sexta, das 9h às 17h; e aos sábados, das 14h às 19h, exceto feriados
Entrada Gratuita
Classificação Livre

Local: SESI Campinas Amoreiras
+ Info: www.sesisp.org.br/cultura