Jo Clifford e o teatro da tolerância

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp 

Jo Clifford escolheu a profissão certa. Dramaturga com mais de 80 peças montadas, a escocesa é generosa ao falar e ao ouvir: sabe o que diz e presta atenção a tudo o que ouve. Talvez por isso a tolerância seja um dos temas recorrentes em sua obra, como no caso de The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven (O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, em tradução livre), na qual Jesus volta aos dias atuais na pele de uma mulher transgênero. Convidada pelo Núcleo de Dramaturgia Sesi-British Council a dar um workshop sobre “A Empatia na Escrita Dramatúrgica – Desenvolvendo a Escuta”, ela é só elogios ao trabalho do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) na área cultural. Transgênero, Jo fala, na entrevista abaixo, sobre teatro, preconceito, respeito, homens e mulheres.


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Jo Clifford: "A vida seria muito melhor se as pessoas se aceitassem como elas são".


Se você tivesse que descrever o seu trabalho, o que diria sobre a sua produção teatral? Você tem preferência por alguns temas, como a tolerância?

Sim, eu me interesso pela tolerância, mas tenho em torno de 80 peças escritas e gosto da ideia de que o mundo está mudando muito, mudando rapidamente. Há mais oportunidades para que as pessoas realizem seus sonhos.

Você tem uma peça predileta ou todas têm a mesma importância para você?

Normalmente a última peça é a minha predileta. Assim, agora esse trabalho é The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven (O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, em tradução livre), do qual tenho muito orgulho. Os transgêneros não têm representação nos palcos, o que eu realmente gostaria que mudasse, mas sei que é muito difícil. Todas as vezes que eu tentei escrever sobre a minha experiência de transgênero, fui atacada. Com essa peça, eu consegui ir além e expressar o meu orgulho por ser trans, o que é muito importante na luta pelo fim do preconceito com os LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Transexuais). O mundo precisa ser mais tolerante, isso é importante para todos nós. Pessoas preconceituosas normalmente odeiam alguma coisa dentro delas mesmas, são profundamente infelizes e expressam isso. É muito triste. A vida seria muito melhor se as pessoas se aceitassem como elas são.

E como foi a experiência de participar de um workshop no Núcleo de Dramaturgia Sesi-British Council?

Foi maravilhosa, adorei a experiência. Os participantes estavam muito abertos. Cada um tem a sua história, a sua voz, as suas experiências para contar. Tentei dar espaço para que todos pudessem compartilhar experiências, falar, encontrar o seu estilo de escrever.

Você aplicou, no workshop, um exercício em que cada participante devia se colocar no lugar de outra pessoa, imaginar ser outra pessoa. Na sua opinião, essa devia ser uma experiência que todo mundo devia levar para a vida?

Todo mundo devia fazer esse exercício (risos)! É uma questão de empatia, de tentar entender como é a vida do outro, a base do mundo civilizado, enfim. Só assim conseguimos viver juntos.

Nesse sentido, ser transgênero a ajudou a ver o mundo com outros olhos? A ser mais tolerante?

Sim. Isso me ajudou a escrever bons textos para serem encenados por homens e por mulheres. Principalmente por ter sofrido tanto preconceito e julgamento. Foi um passo importante no meu trabalho: não podemos julgar os outros, temos que nos respeitar. Por muitos anos eu tentei negar quem eu era, ser um bom marido para a minha esposa e um bom pai para as minhas filhas, mas parei de julgar a mim mesma e decidi mudar. Foi muito difícil. Quando eu comecei a viver como mulher, saía na porta de casa e ouvia as pessoas gritando comigo, rindo de mim, me ameaçando com os olhos.

Falando sobre o feminino, você acha que vivemos hoje uma nova era do feminismo? Concorda com a Beyoncé quando ela canta que as mulheres “comandam o mundo”?

Essa é uma das maiores mudanças pelas quais estamos passando. Eu sempre cito a diferença entre a vida das minhas filhas e a das outras mulheres da família. Uma das minhas filhas é engenheira, a outra é jornalista, elas puderam escolher as suas profissões e podem mudar isso se quiserem. Já a avó delas não foi estimulada a estudar e, quando saiu da escola, seu pai escolheu um trabalho para ela, a empregou numa loja. Ao casar, ela teve que deixar o emprego. Ou seja, as mulheres viviam sob condições muito repressoras e é ótimo ver quão profundamente as coisas estão mudando.

Você tem acompanhado a crise política brasileira? Acha que esse é um momento importante para debater tolerância no país?

Temos a direita de um lado e a esquerda do outro e as duas se odeiam, não se respeitam. É uma situação muito séria, as pessoas precisam conversar umas com as outras, negociar, trabalhar juntas pelo país.

Você conhece o teatro brasileiro?

Menos do que eu gostaria, infelizmente. Mas devo ver alguma peça aqui em São Paulo no final de semana, só não sei qual será ainda.

E o trabalho do Sesi-SP com teatro, você conhecia?

Conhecia sim. Temos aqui uma prática teatral muito interessante, significativa, um trabalho completo de formação na área. Não há nada parecido com o trabalho do Sesi-SP na área cultural no meu país, a Escócia. Estou muito grato ao Sesi-SP pelo convite para estar aqui, amo São Paulo.