‘Fracassar é importante para descobrir o seu talento’, diz autor de Evita e O Rei Leão

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp 

A uma plateia com mais de 400 cantores, atores, autores e alunos de teatro musical do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP), o autor britânico Tim Rice, autor de musicais renomados como Evita, O Rei Leão, Jesus Cristo Superstar e A Bela e Fera, contou, nesta quarta-feira (18/06) que já quis ser o vocalista Mick Jagger, da banda também britânica Rolling Stones. O encontro foi realizado na manhã desta quarta-feira (18/06), no Teatro do Sesi-SP, na capital paulista.

Rice é reconhecido por seu trabalho. O musical Jesus Cristo Superstar, por exemplo, já foi um LP (long player) que ocupou o primeiro lugar das paradas norte-americanas nos anos 1970.  Já o espetáculo O Rei Leão chegou a vender 200 mil entradas em sua temporada no Brasil em apenas três meses.

O autor britânico desfruta de um reconhecimento que sequer suspeitava ser possível há algumas décadas. Ele contou ainda que queria estar no negócio da música. Queria, na verdade, cantar, mas, “não era bom o suficiente”.

“Em meus sonhos, eu não tinha ideia do que faria. Se você me perguntasse, em 1965 onde eu estaria hoje, eu não diria no teatro”, disse ao conversar com os alunos do projeto Teatro Musical Sesi-SP de formação para atores de espetáculos musicais.

Rice no Teatro do Sesi-SP: “Em meus sonhos eu não tinha ideia do que faria”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Rice no Teatro do Sesi-SP: “Em meus sonhos, eu não tinha ideia do que faria”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Flerte com o teatro musical

Foi quando desistiu da escola de Direito em Londres, por não ir bem os testes, que ele passou a tentar escrever música para gravadoras e, ainda sem saber, iniciou seu flerte com o teatro musical. “Eu desisti de Direito. Na verdade, eu era muito ruim, bombei em meus exames três vezes”, relembrou Rice.

Sobre o fracasso, Rice deixou uma mensagem de incentivo: “fracassar é muito importante”. Ele criticou alguns padrões de ensino e aprendizado cujos testes e exames não permitem que o aprendiz fracasse.

“Você não está autorizado fracassar. Isso é estúpido. Se não falhar, você pode nunca saber no que você é realmente bom. As pessoas acabam se formando e vão para o mundo real, mas esse mundo real não é exatamente perfeito”, afirmou. “Se eu passasse na escola de Direito, seria o pior advogado do mundo”.

Processo criativo

Em uma bem humorada conversa com os alunos de teatro musical do Sesi-SP, Rice contou como surgiu a inspiração para alguns de seus trabalhos.

Ele lembrou, por exemplo, como surgiu a ideia de escrever Evita, que foi apresentado pela primeira vez em Londres e, pela Broadway, no final dos anos 1970.

“Eu estava atrasado para um jantar e me perdi nas ruas de Londres. Enquanto percorria com o carro as ruas para encontrar a casa, estava ouvindo no rádio um programa sobre Eva Perón. Naquela meia hora em que ouvi aquilo, pensei que poderia ser uma ideia interessante”, disse Rice.  Evita é fruto da parceria do letrista britânico com o compositor conterrâneo Andrew Lloyd Weber, que assina obras como O Fantasma da Ópera.

Com disciplina

Embora ideias possam surgir de situações inusitadas, Rice acredita que o processo criativo que se segue, sobretudo para criação das letras das músicas, é um trabalho com disciplina no qual o autor pode fazer inúmeras tentativas, mas precisa entregar dentro de determinado prazo.

“Prazos são muito importantes, sem eles você não faz nada. Não se trata de inspiração divina, mas de terminar algo em algum prazo. Você senta, pega um papel, coloca a música e tem de terminar. Às vezes não fica bom, então você retorna e tenta de novo”, disse.

Rice afirmou ainda que a pressão para cumprir os prazos “é de grande ajuda”. Ele explicou ainda que o processo de criação das letras é normalmente “ouvir a história do musical, a música inspirada pela história e depois escrever as letras”.

Um detalhe importante para o letrista de musical é escolher vogais e palavras que se adequam às notas das músicas.

“É muito importante ter grandes sons para as grandes notas. Eu tento fazer isso, a nota normalmente vem primeiro”, contou Rice. “Você precisa garantir para o cantor que aquele som pode ser cantado, bem como fazer sentido”, completou.

Aula para futuros atores 

A conversa, ou master class gratuita com Tim Rice nesta quarta-feira (18/06) fez parte do Curso de Formação em Teatro Musical do Sesi-SP, lançado em março. A iniciativa conta com o apoio da Embaixada Britânica.

Cavalcanti: formação profissional ao mercado do teatro musical brasileiro. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Cavalcanti: formação profissional ao mercado do teatro musical brasileiro. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Segundo o diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Carlos Cavalcanti, o projeto tem como objetivo entregar formação profissional ao mercado do teatro musical brasileiro.

“Buscamos nesta casa e procuramos desenvolver um intenso programa que seja suportado com carinho e investimento para dar ao público de teatro musical profissionais bem qualificados”, disse Cavalcanti na abertura da master class.

 

Atores e atrizes elogiam projeto de Teatro Musical do Sesi-SP

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp 

Uma noite em que passado e presente celebraram o futuro. E os atores e atrizes que protagonizaram essa história estiveram no palco do Teatro do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) na segunda-feira (24/03), que comemorou a realização do projeto de Teatro Musical produzido pela entidade.

Nomes importantes do gênero no Brasil elogiaram e apoiaram a iniciativa do Sesi-SP de investir na formação de atores e de público.

Confira os depoimentos:

Cleto Baccic em trecho do musical Cats, durante lançamento do curso de formação de atores em teatro musical do Sesi-SP. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Cleto Baccic, de “Cats” e coordenador geral do curso de Teatro Musical do Sesi-SP – “É muito emocionante lembrar o esforço e o trabalho para chegar até aqui. Graças à Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo] e ao Sesi-SP, consegui colocar um sonho em prática: criar essa escola, com os melhores profissionais disponíveis no mercado. E é um prazer imenso celebrar esse momento importante do teatro musical brasileiro e reencontrar os amigos de outras produções, reviver alguns números e oferecer para o nosso público, que contribui para que o teatro musical cresça cada vez mais. É um presente que recebemos deles e uma grande festa que o Sesi-SP oferece para as pessoas.”

***

Claudia Raia, de “Crazy for you” – “É um momento de celebração, o começo de um novo ciclo. Um ciclo que vem só tendo grandes aplausos do público, que também está aprendendo a assistir musical. É uma celebração em todos os aspectos, porque é o início de uma ampliação desse projeto. O teatro musical já existe há alguns anos no Brasil e agora tem essa expectativa de ampliação. Todos nós estamos aprendendo a cada dia, cantando, dançando, representando. O musical exige, pelo menos, 80% da saúde, tanto vocal, quanto mental e física. É um trabalho árduo, mas vale a pena.”

***

Claudia Raia e Jarbas Homem de Melo em trecho de 'Crazy for You'. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp.

Jarbas Homem de Mello, de “Crazy for you” – “Hoje é um dia de comemoração e de reencontro do teatro musical. Só para dar uma ideia, tem 11 integrantes do elenco da versão brasileira Les Misérables, musical que estreou em 2001. E a gente aprendeu na raça, foi buscar a informação. Ter uma escola sólida como essa é uma alegria, é uma festa, é o futuro do teatro musical começando a ser traçado a partir de hoje. Vivemos o melhor momento do teatro musical no Brasil nos últimos 20 anos, com cerca de 10 espetáculos em cartaz ao mesmo tempo, profissionais especializados, atores que cantam, dançam, sapateiam. O teatro musical está muito maduro hoje no Brasil.”

***

Amanda Acosta, de “My fair lady” – “O momento que celebramos hoje significa um começo que esperamos que não tenha fim. Que seja longa e que venham outros cursos como esse. Que esse incentivo não pare, que tenha uma continuidade. A gente tem que valorizar muito essa empreitada. Porque para fazer musical é preciso estudar canto, dança, interpretação e isso precisa de investimento. Ter um curso acessível com profissionais talentosos e envolvidos é a receita perfeita para descobrir e desenvolver novos talentos, com base e muito trabalho. Somos operários da arte.”

***

Rachel Ripani, de “Mamma Mia!” – “O teatro musical está crescendo muito no Brasil e precisa de todo fomento, atenção e formação possível. Por isso estou muito feliz por estar aqui, com tantas pessoas talentosas, que fazem parte da minha história como atriz de teatro musical. Estamos encarando isso como uma grande reunião de formatura da gente, de quem já fez musicais, e recebendo os que estão chegando com muito carinho. Espero que seja longa a vida do curso. ”

***

Sara Sarres, de “A Madrinha Embriagada” e coordenadora do curso de teatro musical do Sesi-SP na área de canto – “Emoção demais hoje. À flor da pele! Não só pelo futuro, que a gente vê que começa aqui, mas por contar toda essa história, tudo que a gente viveu, voltar a estar em contato com antigos personagens, cantar músicas que cantamos anos atrás. Que noite mágica! Estou flutuando hoje, porque é um momento muito especial.”

***

Danilo Moura, de “Tim Maia – Vale tudo” – “Estou muito feliz porque é a segunda vez que eu faço parte de uma nova etapa do teatro musical brasileiro. Primeiro, o prêmio Bibi Ferreira, que eu recebi o prêmio de melhor ator com o Tiago Abravanel, e agora estou aqui. É um presente fazer parte e poder acompanhar uma nova etapa dessa trajetória longa do Sesi-SP. Além de poder rever espetáculos que vimos no teatro e encontrar os gênios do musical.”

***

Saulo Vasconcelos, de “A Madrinha Embriagada” e coordenador do curso de teatro musical do Sesi-SP na área de interpretação – “Foi emocionante porque temos algumas das pessoas mais importantes do musical brasileiro aqui reunidas. Teve uma hora que o choro veio na garganta, tremeu o queixo, foi surreal! Tive que me concentrar, lembrar do conselho que a Bibi Ferreira me deu uma vez, quando olhou nos meus olhos e disse que o que eu precisava na vida era ter disciplina. Então, antes de subir no palco, eu tentei ficar mais quieto para cumprir as músicas com técnica e, ao mesmo tempo, com o coração.”

***

Emílio Dantas em trecho do musical 'Cazuza -O tempo não para'. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Emílio Dantas, de “Cazuza pro dia nascer feliz, o musical” – “Estou ‘assustado’ com o que pode acontecer com esse projeto porque vamos formar monstros do musical. É um mercado que, até hoje, eu não entendia como ainda não tinha sido explorado exclusivamente, como um mercado teatral completamente a parte de tudo que acontece. Temos muita riqueza cultural para produzir, muitos bons espetáculos. Eu apoio o quanto for preciso, o quanto precisarem da minha força, estou aí. A melhor coisa que eu vi nos últimos tempos em relação ao teatro musical foi esse projeto.”

***

Negra Li, de “Jesus Cristo Superstar” – “Amei a novidade, fiquei muito feliz por ter participado, quero estar presente em outros anos, comemorando outras turmas. Se tivesse um curso como esse antes, eu teria feito e já teria começado a fazer musicais. Sorte deles que têm essa oportunidade. Vou indicar para a minha sobrinha, que canta bem e gosta de dançar.”