Ruy Castro no InteligênciaPontoCom: ‘Temos uma dívida muito grande com Carmen Miranda’

Isabela Barros

Muito além dos balangandãs e das frutas na cabeça, uma artista que muito fez pela música brasileira. E que sabia ser sóbria e chique, de terninho e tailleur, se quisesse. Foi uma Carmen Miranda além dos estereótipos que o jornalista e escritor Ruy Castro apresentou, na noite desta quarta-feira (26/09), no Teatro do Sesi-SP, em São Paulo, na edição de agosto do InteligênciaPontoCom, bate papo mensal promovido pelo Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP). O evento contou com a participação ainda da cantora brasiliense Ive, que interpretou alguns dos maiores sucessos da artista.

“Não acho nada demais que os americanos e os japoneses só conheçam a Carmen Miranda em ‘technicolor’, a personagem do cinema e das frutas na cabeça”, disse Castro, autor da biografia Carmen. “Mas nós, brasileiros, termos apenas essa visão é um crime contra a nossa cultura”.

Ruy Castro e Ive: uma Carmen Miranda que vai além dos estereótipos. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Segundo o escritor, Carmen pode ser considerada a inventora da música popular brasileira. Antes dela, as cantoras tinham um estilo lírico, na linha das operetas. “Ela, que nunca fez uma aula de canto sequer, introduziu uma maneira de cantar brasileira, influenciada por toda a malícia e pelas gírias que ela ouvia na infância e na juventude na Lapa, no Rio de Janeiro, onde morou”, conta.

E isso não foi tudo. A artista foi a responsável ainda pela introdução de “uma série de personagens na literatura do samba”. “Foi ela que cantou pela primeira vez a mulher de malandro e a mulher do morro, por exemplo”, afirma Castro.

O Carnaval tal como conhecemos hoje e as marchinhas também são herança da musa. “Foi a grande impulsionadora das marchinhas no Carnaval”.

Nessa linha, compositores do porte de Dorival Caymmi e de Ataulfo Alves tiverem suas letras popularizas por ela. “Eles todos compunham para a Carmem gravar. Podemos dizer que 99% das músicas que ela gravou foram feitas para ela”.

No cassino

Com 313 registros fonográficos, a artista também foi pioneira ao se apresentar num cassino no Brasil. “Ninguém queria pagar para ver um artista brasileiro num cassino se podia ouvir as músicas de graça, no rádio”, diz Castro. De tão popular, Carmen foi convidada para se apresentar numa casa do tipo, “abrindo caminho para outros cantores depois”.

Foi durante a apresentação num cassino que a cantora chamou a atenção de um empresário norte-americano, que a convidou para cantar em seu país. “Carmen só precisou de seis minutos para conquistar os Estados Unidos”, explica Castro. “Em sua primeira apresentação por lá, cantou quatro músicas, sendo três em português. E quase não conseguiu sair do palco de tão aplaudida”, conta. “Um sucesso que a fez ser adotada pelo cinema depois”.

Foi quando surgiu a personagem dos turbantes na cabeça que ficou conhecida em todo o mundo. E que não excluiu a elegância e a sobriedade da artista fora do palco. “Carmen se vestia muito bem, usava terninho e tailleur”, conta. “Temos uma dívida muito grande com ela”.

Carmen Miranda nasceu em Portugal, em 1909, e faleceu em 1955, aos 46 anos. No Brasil, viveu dos dez meses até o final de sua vida.