Baixo índice de saneamento básico nas cidades brasileiras é debatido em seminário

Amanda Viana, Agência Indusnet Fiesp

O segundo painel do seminário “Água, Saúde, Enchentes e Escassez”, realizado nesta terça-feira (18/03) pela Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp), debateu temas como saneamento básico e reuso da água.

Eduardo San Martin, diretor do Departamento de Meio Ambiente (DMA) da Fiesp e do Ciesp, foi o moderador das apresentações. “A água tem de ser priorizada por aqueles que têm responsabilidade sobre ela. Todos nós somos responsáveis”, iniciou San Martin.

Saneamento básico

Participante do debate, Edison Carlos, presidente do Trata Brasil, destacou que o saneamento básico é a infraestrutura fundamental que uma cidade precisa ter. “Nenhuma cidade deveria existir antes de ter água e esgoto tratados”, afirmou. O Trata Brasil trabalha para disseminar informações sobre os problemas e as oportunidades da água, saneamento básico e saúde.

Segundo ele, o Brasil perde muita água tratada (cerca de 40%), mais da metade da população não tem coleta de esgoto, apenas 38% do esgoto é tratado e cerca de 36 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada.

Carlos: mais da metade da população brasileira não tem coleta de esgoto. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Carlos: mais da metade da população brasileira não tem coleta de esgoto. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Pesquisas realizadas pela Agência Nacional da Agua (ANA) mostram que o Brasil necessita de um investimento de R$ 70 bilhões para proteger os recursos de água do país, evitando escassez e outros problemas graves.

O presidente da Trata Brasil também afirmou que o brasileiro está “acostumado” com esses problemas frequentes e acaba cobrando muito pouco os deveres das autoridades em relação a isso. “Ao todo, 75% das pessoas nunca cobraram nenhuma ação para a melhoria da situação de saneamento básico aqui no Brasil”, disse.

Reuso da água

O especialista em qualidade de água e presidente do Centro Internacional de Referência em Reuso da Água da Universidade de São Paulo – (Cirra/USP), Ivanildo Hespanhol abordou a sustentabilidade do sistema de água de São Paulo.

De acordo com ele, para avaliar a sustentabilidade do sistema de abastecimento de água, temos pelo menos dois parâmetros: robustez, para atender uma demanda crescente, e a resiliência, que é a capacidade de um sistema se recuperar após um impacto negativo. “A robustez do nosso sistema é insuficiente, e a nossa resiliência é zero”, criticou.

Hespanhol destacou temas que dizem respeito à água potável e ao reuso. E apresentou estudos, pesquisas e sistemas sobre a tratabilidade do recurso hídrico, tecnologias modernas para o reuso da água e tratamento de esgotos. “Estamos em uma fase de mudança de tecnologia”, afirmou.

Ainda segundo o palestrante, o “cenário poluidor moderno” é composto por poluentes emergentes: os químicos e os biológicos, e as companhias de saneamento devem mudar o sistema de tratamento vigente, aconselhou. “Nosso sistema e estações de tratamento não removem esses poluentes. A água sem tratamento adequado gera doenças diversas e problemas graves de saúde”, disse. Ivanildo ainda criticou as normas da Vigilância Sanitária Brasileira que, de acordo com ele, são normas que “não representativas da sociedade brasileira”.

Para ele, existe uma percepção negativa do consumo de água reciclada e falta de confiança na segurança de sistemas avançados de tratamento e de certificação da qualidade da água. “O reuso de água ainda é incipiente no Brasil, mas deve crescer em um futuro próximo, por necessidade”, previu.

Direito previsto na Constituição

José Eduardo Ismael Lutti, 1º Promotor de Justiça de Meio Ambiente da Capital, afirmou que a Constituição Federal Brasileira preza, como um de seus princípios, um meio ambiente ecologicamente equilibrado. “Isso dá sustentação para uma vida sadia. De forma muito clara, sem saneamento básico, nós temos uma poluição hídrica assustadora”, disse.

Lutti afirmou que São Paulo tem um dos piores sistemas de gestão de recursos hídricos, com “legislações rígidas” e “péssimos gestores”. Segundo ele, o dinheiro público é mal investido, a população está desinformada e as fontes de informação oficiais não são confiáveis. “Precisamos ter um sistema de controle e regulação que seja satisfatório”.

O promotor disse que a mudança depende da própria sociedade, que deve cobrar do governo e dos gestores responsáveis respostas e soluções para tantos problemas apresentados: “A sociedade precisa se levantar e exigir um tratamento mais adequado, informações reais e uma gestão mais profissional do recurso hídrico”, finalizou.