Preparação para a mudança é mensagem de apresentação no Comtextil sobre conferência anual da ITMF

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Francisco Ferraroli fez apresentação nesta terça-feira (17/11) em reunião do Comitê da Cadeia Produtiva da Indústria Têxtil, Confecção e Vestuário da Fiesp (Comtextil), do qual é coordenador adjunto, sobre a conferência anual da ITMF (sigla em inglês de Federação Internacional de Produtores Têxteis). Realizada em San Francisco (EUA) de 10 a 12 de setembro, teve como tema Produção inteligente e responsável da matéria-prima até o consumidor final.

Ferraroli destacou apresentação sobre o novo consumidor, feita durante a ITMF pela Cotton USA, entidade que promove mundialmente o algodão norte-americano e produtos manufaturados com ele. A Cotton mostrou números para 2030, como US$ 2,6 trilhões gastos em vestuário, 4,5 bilhões de pessoas online e 1 em cada 5 pessoas no mundo com mais de 60 anos de idade.

Na Europa e no Japão a Internet é muito menos usada que nos EUA e na China para comparar preços, escolher estilos e ler críticas, o que é um desafio para a indústria. Ferraroli falou sobre a tendência à adequação por parte dos fabricantes e cadeias produtivas. Novas estratégias de vendas, por exemplo com entrega grátis e devolução também grátis, estão entre as armas.

Como curiosidade, citou a Patagonia, para a qual a sustentabilidade é valor chave. A empresa criou serviço móvel para reparos de roupas da marca, evitando o desperdício. Só que graças a iniciativas como essa, com o apelo da sustentabilidade, a Patagonia vem crescendo fortemente, o que cria um dilema para a empresa.

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Reunião do Comtextil com apresentação sobre o Congresso ITMF 2015. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Outro ponto destacado é a diferença no comportamento da chamada Geração Y (nascidos entre a década de 1980 e meados da década de 1990) em relação à média da população. Por exemplo, 48% dos homens da Geração Y gostam de comprar roupas, contra 38% dos homens em geral. 47%, contra 34%, gostam de estar na moda, e 61%, contra 47%, preferem comprar novos estilos.

A Geração Y é menos avessa a gastar em roupas o dinheiro que estiver sobrando e tem maior proporção de compradores leais a marcas que fornecem informação útil. Também os latinos são mais propensos a comprar e mais leais que a média.

Outro tema foi o do conforto ativo. É cada vez maior a influência no dia a dia da roupa esportiva, que incorpora sensações agradáveis. Casual wear e active war crescem. Suas vendas devem aumentar 33% nos EUA, 30% na Europa e 40% na América Latina até 2020.

O levantamento da Cotton mostra que o algodão é preferido por conforto, versatilidade, respirabilidade, durabilidade em relação ao tecido sintético, mas não há recursos naturais para suprir a crescente demanda pelo tecido.

O tema do tecido sintético versus algodão voltou à discussão mais tarde. Elias Miguel Haddad, coordenador do Comtextil, defendeu o conforto do tecido misto algodão-poliéster. Ferraroli argumentou que a discussão sobre o que é melhor não tem cabimento – a indústria tem que achar o que atende ao público.

O novo consumidor traz oportunidade para o algodão, mas é preciso estabelecer relacionamento próximo com novos consumidores, distanciar-se dos velhos modelos de negócios e partir para a personalização, encontrar soluções para ampliar base de consumidores.

A segunda apresentação da ITMF comentada por Ferraroli foi a feita por Michael Dart, coautor de As Novas Regras do Varejo (editora Figurati). Depois de explicar as ondas do varejo (grosso modo, 1850 – poder do produtor; 1950 – poder do marketing; 1980 – poder do consumidor; 2011 – poder pela experiência), disse que o consumidor está no comando. Isso exige esforço enorme e grande dificuldade para fazer algo que chame a atenção. A grande questão é: o que querem os novos consumidores?

Algumas respostas:

1-   Mudar de precisar de coisas para exigir experiências.

2-   Sair do que serve para o personalizado.

3-   Da plutocracia (coisas para poucos) para a democracia, mas com qualidade.

4-   Do novo para o novo, já. Levantamento mostra que 30% do que se compra é influenciado pelo que se vê no celular. A informação é instantânea

5-   Do individual para o comunitário.

6-   Da tecnologia voltada ao trabalho para a tecnologia voltada à vida, ao bem-estar.

“Temos”, disse Ferraroli, “que nos preparar para 2020. O mundo não vai esperar o Brasil.”

A apresentação de Dart destacou a chamada quarta onda, da tecnologia/poder da experiência, típica da chamada Era Jobs (referência a Steve Jobs, que revolucionou o mercado com a Apple). Dart cita como novas regras do varejo a conectividade neurológica, que é atrair e conquistar a mente do consumidor, além de apelar a seus cinco sentidos. Será necessário antever o que os consumidores querem, como a Zara, “com a mão no pulso do consumidor” para reagir cada vez mais rapidamente.

Para Dart, haverá três segmentos competitivos no varejo. Um baseado na distribuição e comodidade, com players como Amazon.com, Walmart, Kohl’s, e a novíssima JET (que cobra taxa de adesão e depois vende a preço de custo).

O segundo segmento é o omni-channel, cujos participantes terão que se voltar ao celular e se preparar para novas opções de entrega e compra. Por fim, o varejo de produtos em que o preço é o grande fator.

Nos próximos anos, a previsão de Dart é que terão desaparecido 50% de todas as marcas e varejistas. Para Ferraroli, a questão é quais conseguirão fazer a virada?

Os consumidores, disse, estão cada vez mais informados, com acesso mais rápido, capazes de ir buscar na hora o que querem. Querer uma nova roupa de festa mudou para querer uma nova roupa depois de aparecer na foto do dia…

Uma equação ainda não resolvida, segundo Ferraroli, é a aspiração à sustentabilidade das novas gerações e o fast fashion.

Millenium e fast fashion – como se resolve a equação? Não há resposta ainda, de acordo com Ferraroli.

Lembrou que cada vez mais vai haver influência maior da possibilidade de alugar coisas, em vez de vender. Utensílios domésticos e ferramentas, por exemplo.

“Isso vai mexer conosco. Precisaremos encontrar quem nos ajude a encontrar resposta para isso.”

Elias Miguel Haddad elogiou a apresentação de Ferraroli. “A grande lição que tirei hoje é que temos que estar abertos a experiências”, disse Haddad. Lembrou que a Kodak inventou, mas não soube explorar, a câmera digital. “Não soube se adaptar à mudança.” Outro exemplo que usou foi da Sears, que era a maior varejista dos EUA, vendia por catálogo e não soube se adaptar.