Especialistas debatem investimentos para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 na Fiesp

Ariett Gouveia e Giovanna Maradei, Agência Indusnet Fiesp

Foi realizado nesta segunda-feira (02/12), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o seminário “Grandes eventos esportivos no Brasil: a economia do esporte”. Organizado no âmbito da Cátedra Globalização e Mundo Emergente – FIESP-Sorbonne, o evento foi conduzido por Mario Frugiuele, coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva do Desporto (Code) na Fiesp e coordenador da cátedra no Brasil.

O professor titular de Economia, Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro Istvan Karoly Kasznar apresentou a palestra “Copa, Olimpíadas, Financiamento do Esporte e Perspectivas”, em que mostrou os investimentos, públicos e privados, que estão sendo feitos no Brasil e suas consequências.

“Não se resolve a questão de um gargalo estrutural de longo prazo, de 35 anos, em cinco anos. Então todo o investimento é bem-vindo, é necessário”, disse Kasznar. “Todavia, não é porque a Fifa nos impõe ou nos propõe criar investimentos específicos de mobilidade no entorno do estádio que vamos fazer algo”, disse. “Devemos fazer pela necessidade específica e intrínseca das nossas cidades e dos nossos cidadãos.”

Outra crítica do professor foi a questão da distribuição dos ingressos. “As grandes obras dos estádios vão encantar os brasileiros que podem pagar. Porque a gente vê que no processo de distribuição existem desigualdades”, explicou. “Quem pode pagar, entra. Quem não pode, não entra, mas, por meio do seu imposto, está pagando o estádio de forma indireta.”

Kasznar: “Não se resolve um questão de um gargalo estrutural em cinco anos. Todo o investimento é bem-vindo, é necessário”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Kasznar: “Não se resolve a questão de um gargalo estrutural em cinco anos”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Kasznar não é contra a realização da Copa e da Olimpíada no Brasil, mas defende um melhor controle do dinheiro investido. “Haverá construções, ganhos e benefícios, mas também haverá prejuízos. Portanto faz sentido que a gente diga ‘temos muito o que fazer, muito a revisar e a nossa técnica de captação e distribuição de recursos precisa ser melhor pensada’”.

Segundo o professor, os gastos não são exclusividade do Brasil. “É muito importante abrir o Brasil para o mundo, é importante incentivar o esporte, mas temos que perceber que o custo disso é muito grande”, afirmou.

Cuidado com a maldição

Outro palestrante do seminário, Wladimir Andreff, professor titular de Ciências Econômicas na Universidade Paris 1 – Panthéon Sorbonne, apresentou a sua teoria sobre a “maldição dos países e cidades-sede”.

“O que um candidato deve fazer se quer ganhar o leilão para ser a sede da Copa ou das Olimpíadas? Prometer muito mais do que os outros competidores e projetar o mais fantástico evento”, disse. “E isso é feito subestimando os custos e superestimando os benefícios”, disse. ”Mas, no final do dia, os vencedores têm que realmente implementar o projeto e aí vem o verdadeiro custo e o verdadeiro beneficio, que são  diferentes do anunciado.”

Andreff: subestimar os custos e superestimar os benefícios. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Andreff: subestimar os custos e superestimar os benefícios. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Para ele, o vencedor do “leilão” vai estar “financeiramente amaldiçoado” porque “ganhando o direito de sediar os jogos o país ganha a certeza de que irá perder dinheiro”.

Andreff deu vários exemplos de países e cidades que tiveram uma grande diferença entre o custo esperado e o custo real, como a África do Sul, que viu o orçamento para a Copa do Mundo aumentar 17 vezes, e a China, que no caso de Pequim teve um aumento de 40 vezes entre o que era esperado para os Jogos Olímpicos e o que realmente o evento custou.

O professor disse que só há uma exceção na história dos grandes eventos, o que confirma a regra: Los Angeles. “Por causa das notícias dos prejuízos dos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, apenas Los Angeles se candidatou como sede para 1984”, contou. “Como não havia cidades competindo pelo mesmo evento, então não havia o leilão como processo. Los Angeles não precisou fazer propostas exageradas, a custos irreais, então ficou fora da maldição dos vencedores”.