‘Projeto social tem que dar resultados, cumprir objetivos’, diz gerente da SAI Global em seminário na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

“Um projeto social tem que dar resultados, cumprir objetivos. Na responsabilidade social isso também é estratégico, é importante que os resultados apareçam”. A avaliação é do gerente da SAI Global, José Salvador da Silva Filho, palestrante do painel “Ferramentas para gestão responsável com ênfase na ISO 26000” no seminário Jornada da Indústria pela Sustentabilidade, realizado na manhã desta terça-feira (24/09), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O evento é uma iniciativa da Fiesp, do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP).

De acordo com José Salvador da Silva Filho, as empresas precisam estar atentas a mudanças como as alterações do clima, a falta de água potável para todos e ao fato de que em 2050 seremos “9 bilhões de habitantes na terra demandando recursos”. “É como se tivéssemos um orçamento limitado, vivendo quase no vermelho”, disse. “Não temos como pedir um empréstimo para Marte ou para Vênus, precisamos encontrar uma fórmula para continuar vivendo com os recursos disponíveis”.

Salvador Filho: ação social é estratégica para as empresas e precisa cumprir objetivos. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Salvador Filho: ação social é estratégica para as empresas e deve cumprir objetivos. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Para o gerente da SAI Global, dentro do conceito de responsabilidade social, as empresas precisam ter ética em suas decisões. “Muitas decisões no mundo corporativo não consideram questões éticas”, explicou.

Ações que considerem os investimentos em infraestrutura e a formação de mão de obra qualificada também são bem-vindas. “É preciso pensar na produtividade dos recursos, avançar em mão de obra também por esse motivo”, disse. “Muitas mudanças dependem da nossa atitude”.

Perfil do investimento social

De acordo com Silva Filho, em 2010, as empresas brasileiras investiram R$ 8,4 bilhões em ações sociais. Ele ainda citou uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que aponta as características das ações sociais feitas pelas empresas no país. “São essencialmente doações”, disse. “O principal foco é a alimentação e o público mais focado são as crianças”.

Na maioria dos casos, esses projetos são desenvolvidos no entorno dessas corporações. E mobilizam sobretudo os donos. “Ainda não há uma participação forte dos empregados, nem muita parcerias”.

Nem mesmo os incentivos fiscais são aproveitados. “Apenas 2% das empresas utilizam esses benefícios”, explicou.

Segundo Silva Filho, é preciso considerar aspectos que vão além do econômico. “A sociedade está ganhando força”. “A responsabilidade social é o caminho para atingir o desenvolvimento sustentável”, disse. “É fundamental que cada organização contribua para essa sustentabilidade global”.

O gerente da SAI Global explicou que essa noção “está na ISSO 26000”. “A Responsabilidade social é a responsabilidade da empresa pelos impactos das suas decisões e atividades”, afirmou. “Toda organização causa impacto. Essa responsabilidade tem que ser exercida de maneira ética e transparente, tem que levar em conta as expectativas de todas as partes interessadas, como o governo e a sociedade”.

Entrevista: Jorge Cajazeira detalha a aplicação da norma internacional para às indústrias

Agência Indusnet Fiesp (com colaboração de Karen Pegorari Silveira)

Cajazeira: ISO 26000 ligada aos anseios da sociedade. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Jorge Cajazeira, presidente do Comitê Mundial da ISO 26000. Foto: Everton Amaro/Fiesp

A norma internacional ISO 26000 foi lançada em 2011 estabelecendo um conjunto de diretrizes para ajudar as organizações a abordar o tema da Responsabilidade Social de forma efetiva nas diferentes culturas, ambientes e sociedades.

O documento apresenta guias metodológicos e operacionais para identificação e engajamento das partes interessadas, e é aplicável a qualquer tipo de organização e porte, tanto público quanto privado.

Em entrevista,  o presidente do Comitê Mundial da ISO 26000, Jorge Cajazeira, diz que o Brasil é o segundo país com maior adesão á norma internacional e afirma que seguir à norma é “estar alinhado com os verdadeiros anseios da sociedade”.

Leia a seguir a entrevista na íntegra:

A  ISO 26000 está completando dois anos de existência. Qual o principal objetivo dessa norma?

Jorge Cajazeira – A norma ISO 26000 tem como propósito básico ser um documento integrador de diversos instrumentos de gestão reconhecidos internacionalmente, de modo a levar as organizações a optarem por escolhas alinhadas com suas estratégias e necessidades. Ou seja, não é um documento pretensioso que faz tabula rasa em relação ao que já foi feito para gerar uma norma.

Ela foi concebida para ser um guia capaz de orientar a organização nas suas decisões a respeito da sua responsabilidade social, bem como para tornar mais eficaz o uso de múltiplos instrumentos de gestão aplicáveis a uma organização.

A ISO 26000 substitui as normas anteriores com enfoque em Responsabilidade Social?

Ela não pretende substituir as normas atuais que estão dando contribuições valiosas. Porém, essas normas possuem escopos específicos e não abrangem todos os requisitos necessários para cobrir os tópicos da responsabilidade social. Por exemplo, a SA 8000 aplica-se ao público interno; a AA 1000, ao diálogo com stakeholders e a OHSAS 18001, à saúde e segurança do trabalho.

O fato de existirem diversas normas prejudicava, de certa forma, a aplicação das mesmas em diversos países?

Sim. A proliferação de normas sobre o tema responsabilidade social provocou uma nova iniciativa da ISO. Com base na demanda mundial sobre o tema, o Conselho da ISO aprovou, em 2001, uma resolução que ressalta a importância dos assuntos emergentes em relação à responsabilidade social e convidou seu Comitê de Política do Consumidor a considerar a viabilidade de normas internacionais nessa área.

A falta de controle na fabricação, por exemplo, foi um dos fatores que levou a ISO a incluir todas essas questões debaixo de um guarda-chuva só. Muitas empresas com sede em seus países de origem acabavam contratando mão de obra em outros, com um estágio de desenvolvimento menor e que ainda não tinham total controle das variáveis socioambientais na sua produção, da forma como esses trabalhadores eram tratados fora dos padrões mínimos prescritos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), gerando o chamado dumping social.

A norma quebrou algum paradigma na visão das empresas sobre sua responsabilidade social?

Chegamos a um consenso de que responsabilidade social é um meio. Ela é “o como fazer” para atingir a sustentabilidade. Esse conceito inclui, entre outras questões, ter uma relação ética com os diferentes públicos, todos os stakeholders, com respeito aos Direitos Humanos, sem corrupção; garantir diversidade, segurança, saúde e confiança nas relações de trabalho; lidar de modo transparente com a imprensa; transmitir informações com precisão, entre outras.

Pode-se dizer que a ISO 26000 não se refere, portanto, a somente a iniciativas sociais apoiadas pelas empresas?

Exatamente. A norma se apoia em 3 princípios: o respeito aos direitos humanos, o do respeito pela diversidade e o da precaução. Este último é um dos princípios constantes da Declaração do Rio de Janeiro sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (promulgada pela ONU, na Eco 92).

Sendo assim, quanto aos temas básicos de responsabilidade social não há surpresas. A norma listou os seguintes:
meio ambiente; direitos humanos; práticas de trabalho; práticas leais de operação; governança organizacional; desenvolvimento social; e questões relativas aos consumidores.

A aplicação da norma tem relação direta à competitividade das empresas?

Com respeito aos aspectos processuais, e seguindo as demais normas de gestão, a ISO 26000  também propõe uma atuação que remete ao conceito de melhoria contínua.

Sendo assim, as diretrizes para a implementação da responsabilidade social, conforme o entendimento da norma ISO 26000 e seus princípios, envolvem os seguintes conjuntos de atividades:

  • entender o contexto da responsabilidade social; atuar com stakeholders;
  • integrar a responsabilidade social nos objetivos e estratégias de uma organização;
  • implantar ações de responsabilidade social nas práticas diárias;
  • comunicar a responsabilidade social;
  • avaliar as atividades e práticas de responsabilidade social; e aumentar a credibilidade.

 

E essas diretrizes são aplicáveis a todos os países?

Não podemos esquecer que a norma existe para auxiliar as organizações a contribuir para o desenvolvimento sustentável. Ela também visa estimular empresas e organizações  a ir além da conformidade legal, reconhecendo que conformidade com a lei é uma obrigação fundamental de qualquer organização e parte essencial de sua responsabilidade social. E, por outro lado, a norma pretende promover uma compreensão comum da área de responsabilidade social e complementar outros instrumentos e iniciativas relacionados à responsabilidade social, e não substitui-los.

Por este motivo, ela é aplicável, sim,  a qualquer tipo de organização e país. Atualmente ela já é adotada em mais de 50 países.

Quais itens da norma as empresas têm maior dificuldade de aplicar?

Por mais incrível que pareça, a parte mais complicada da Norma, ao meu ver, é a adequação legal. Isso porque a Norma requer que, em situações onde a legislação ou sua implementação não prevê salvaguardas socioambientais adequadas, as organizações esforcem-se para respeitar, no mínimo, as normas internacionais de comportamento (normas OIT, por exemplo). A organização deve evitar ser cúmplice das atividades de outra organização que não sejam consistentes com as normas internacionais de comportamento.

Qual sua orientação para uma empresa que decide aplicar a norma?

A própria norma sugere uma lógica para a sua aplicação. Antes de analisar os temas centrais e as questões de responsabilidade social, assim como cada uma das ações e expectativas relacionadas recomenda-se que a organização considere duas práticas fundamentais da responsabilidade social: o reconhecimento da sua responsabilidade social dentro da sua esfera de influência e identificação e o engajamento de suas partes interessadas.

Uma vez que os princípios tenham sido entendidos e os temas centrais e as questões relevantes e significativas de responsabilidade social tenham sido identificados, recomenda-se que a organização busque integrar a responsabilidade social em todas as suas decisões e atividades.

Isso envolve práticas tais como: tornar a responsabilidade social parte integrante de suas políticas, cultura organizacional, estratégias e operações; desenvolver competências internas de responsabilidade social; promover comunicação interna e externa sobre responsabilidade social; e avaliar periodicamente essas ações e práticas referentes à responsabilidade social.

Como tem sido a adesão à norma pelas empresas brasileiras?

Nos somos o segundo país no mundo em adoção à Norma (perdemos apenas para a França). Lembro que a ISO 26000 foi adaptada para a norma brasileira NBR 16001 que permite certificações. No Brasil, empresas de diversos setores e portes já estão certificadas.

As empresas têm dificuldades de aderir à norma? 

Qualquer que seja a Norma que venha a orientar as práticas de Responsabilidade Social Empresarial, sempre haverá dificuldades para implementá-las e as razões são muitas, começando pelo fato de envolver uma diversidade de questões que se traduzem em direitos, obrigações e expectativas de diferentes públicos, internos e externos à empresa.

Os diferentes entendimentos a respeito da empresa e de sua relação com a sociedade e com o meio ambiente é mais uma fonte de complicação. Acrescente ainda que tudo isso é feito concomitantemente às atividades e operações da empresa em busca de resultados econômicos favoráveis.

O que o senhor diria aos empresários sobre a importância de ser certificado à norma ISO 26000?

A responsabilidade social centrada na função econômica da empresa como geradora de lucros, salários e impostos já não é mais suficiente para orientar os negócios. diante de novos valores requeridos pela sociedade pós-industrial, como a busca de qualidade de vida, valorização do ser humano e respeito ao meio ambiente.

Justamente essas mudanças, que ocorrem no âmbito da sociedade e afetam o ambiente dos negócios, ampliaram os debates sobre o tema e culminaram com a criação da ISO 26000.

Sendo assim, aderir, nacionalmente, à ISO 26000 é estar alinhada com os verdadeiros anseios da sociedade em que vivemos e, especialmente, em um momento que a juventude brasileira se manifesta – muito propriamente – em favor de um Brasil mais justo e sustentável.

Especialistas debatem ISO 26000 em reunião conjunta de conselhos na Fiesp

Guilherme Abati, Agência Indusnet Fiesp

Nesta quinta-feira (27/06), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp),  especialistas na norma ISO 26000 participaram de reunião conjunta do Conselho Superior Responsabilidade Social (Consocial), Conselho Superior de Assuntos Jurídicos e Legislativo (Conjur) e Conselho Superior de Meio Ambiente (Cosema).

Presidiram a reunião Nilton Torres de Bastos,  diretor do Comitê de Responsabilidade Social (Cores), e Walter Lazzarini, presidente do Cosema.

A reunião conjunta do Consocial, Conjur e Cosema: responsabilidade social. Foto: Everton Amaro/Fiesp

A reunião conjunta do Consocial, Conjur e Cosema: responsabilidade social. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Jorge Cajazeira, presidente do Comitê Mundial da ISO 26000, apresentou o documento aos presentes. “É a primeira diretriz internacional de responsabilidade social empresarial”, disse. “A norma tem como objetivo oferecer diretrizes para ajudar empresas de diferentes portes na implementação e desenvolvimento de políticas baseadas na sustentabilidade”.

Cajazeira: ISO 26000 ligada aos anseios da sociedade. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Cajazeira: ISO 26000 ligada aos anseios da sociedade. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Segundo Cajazeira, ao todo, a norma contempla sete temas: direitos humanos, práticas de trabalho, meio ambiente, governança organizacional, práticas leais de operação, relacionamento internacional com consumidores, envolvimento e desenvolvimento comunitário.

De acordo com o especialista, a ISO 26000 pode ajudar as empresas a entender o conceito real da sustentabilidade e sua normatização, “que não é burocracia, mas sim estratégia empresarial”.

Cajazeira explicou ainda que a norma surgiu a partir de demandas da sociedade. “Foram cinco anos de trabalho até o lançamento, realizado aqui na Fiesp, em dezembro de 2010”.

O conjunto de diretrizes define o que é sustentabilidade e responsabilidade social, seus objetivos e benefícios para a sociedade.  Atualmente, segundo Cajazeira, a norma internacional já foi adotada por 64 países.

Ana Paula: de olho na sociedade do presente e do futuro. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Ana Paula: de olho na sociedade do presente e do futuro. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Ana Paula Grether Carvalho, especialista da Indústria do Comitê Mundial da ISO 26000, também apresentou o tema para os membros dos comitês.  “A 26000 significa a incorporação dos anseios da sociedade nas decisões empresariais. Significa também, por parte das empresas, a compreensão das expectativas da sociedade”, disse.

Segundo Ana, responsabilidade social é tornar as empresas responsáveis pelos seus impactos no mundo. “É fundamental compreender o que a comunidade espera das organizações e satisfazer as demandas da sociedade do presente, sem afetar a sociedade do futuro”, concluiu.