Fiesp recebe comitiva empresarial da Finlândia

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Na manhã desta segunda-feira (9/11), uma delegação de empresários finlandeses do setor marítimo e de offshore (equipamentos para exploração e produção de petróleo em alto mar) esteve na Fiesp para conhecer as oportunidades de negócios com as indústrias brasileiras.

O encontro contou com a presença de Paavo Väyrynen, Ministro de Desenvolvimento e Comércio Exterior da Finlândia, Ilpo Manninen, Embaixador da Finlândia no Brasil e Jan Jarne, Cônsul-Geral Honorário.

O diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Giannetti, apresentou um panorama da economia brasileira dos últimos quarenta anos e ressaltou que o Brasil vive hoje um ótimo momento em sua economia. A despeito da crise financeira internacional, vários setores vêm obtendo bons resultados, o que leva a prever um crescimento de 5% acima da média para o próximo ano.

Segundo Giannetti, apesar dos grandes desafios que precisam ser enfrentados – como déficit em infraestrutura, alta carga tributária, difícil regulamentação trabalhista e necessidade de investir em educação – o Brasil é um bom país para se investir e com um amplo leque de oportunidades, inclusive nas áreas de combustível e energia. “Somos o maior exportador de etanol do mundo e líderes na produção de automóveis bicombustíveis, tendo sido desenvolvido aqui a tecnologia flex fuel”.

O Ministro Paavo Väyrynen comentou que a Finlândia acompanha com entusiasmo o avanço do Brasil no desenvolvimento do etanol e na eficiência tecnológica da indústria aeronáutica Embraer.

Sobre a delegação empresarial finlandesa, Väyrynen esclareceu que é composta pelas principais indústrias de equipamentos e projetos navais e de offshore, que representam a grande expertise do país na produção de navios, plafatormas e tanques petrolíferos, submarinos e equipamentos meteorológicos.

César Prata, presidente da Câmara Setorial de Equipamentos Navais de Offshore (Csen) e da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) apresentou um panorama da indústria naval brasileira, composta por 200 fábricas, e pontuou o que é e o que não é produzido no Brasil nessa área.

Entre outros dados, Prata acrescentou que há várias oportunidades de negócios e parcerias entre os dois países, relembrando a ausência de barreira tarifária para itens como peças de navios.

Entrevista com Ministro do Comércio Exterior da Finlândia

Dulce Moraes, Agência Indusnet (para Revista da Indústria, direto de Helsinki)

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Paavo Väyrynen: “Não há desenvolvimento sem pensar nas questões econômicas, sociais e ambientais”

Na sede do Ministério do Comércio Exterior e Desenvolvimento da Finlândia, um prédio construído há quase 200 anos para abrigar as tropas de ocupação russa, próximo ao cais da, então, nova capital finlandesa, Helsinki, o ministro Paavo Väyrynen falou da boa relação entre Finlândia e Brasil e de seu desejo de vê-la ampliada. Relembrando que naquele prédio tiveram a oportunidade de receber a visita do presidente Lula, em 2007, Väyrynen comentou que veio ao Brasil em 1992, para participar da Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco 92), no Rio de Janeiro.

Desde então, a questão ambiental sempre foi o foco de sua atuação, não só como ministro de Assuntos Exteriores, cargo que exerceu por mais de dez anos, mas como membro do Parlamento Europeu. Afinal, “não há desenvolvimento sem pensar nas questões econômicas, sociais e ambientais”. Entusiasta, Väyrynen propõe uma nova conferência Eco, em 2012, para comemorar os 20 anos da Eco92.

Em entrevista exclusiva, concedida à Revista da Indústria, ele destacou as oportunidades de intercâmbio comercial e tecnológico entre os dois países.

Revista da IndústriaSr. ministro, a Finlândia foi um dos países que sentiram o impacto da crise econômica mundial. O Brasil fará parte da estratégia comercial visando à recuperação esperada para 2010?
Paavo Väyrynen – De fato, a crise afetou fortemente o mercado finlandês, que é dependente das exportações, apesar de termos uma competitividade relativamente boa. Mas a Finlândia e outros países da União Europeia criaram um fundo para revitalizar a economia e coordenar o combate à crise. A recuperação econômica ainda é necessária, mas estão sendo empreendidas estratégias para desenvolver soluções para depois que esses estímulos acabarem. Por exemplo, já foi iniciada a regulamentação da reforma do setor bancário. Nossa resposta à crise é garantir o fundo de exportação para as empresas.

Além disso, os estudos comprovam que a evolução no nível do conhecimento humano, nas pesquisas e no desenvolvimento de toda espécie de inovação resultam no aumento da produtividade. É o caso da Finlândia. Melhorar a competitividade finlandesa é o que temos feito até agora e no que acreditamos.

Para a Finlândia, o Brasil é o mais importante parceiro comercial na América Latina. O crescente interesse das indústrias finlandesas pelo mercado brasileiro – há mais de 40 empresas com filiais no Brasil – deu um importante impulso nas relações entre os dois países. Acredito que a Finlândia e o Brasil caminham para a complementaridade econômica, pois oferecemos tecnologia em áreas onde o Brasil tem muita matéria-prima e outros recursos. O comércio bilateral apresenta um crescimento significativo.

RIQuais setores da indústria brasileira estão no alvo da Finlândia?
PV – O mercado brasileiro é enorme e atrativo para nós, mas não buscamos só o Brasil. As empresas finlandesas no Brasil atuam nos setores de papel e celulose, de mecânica, mineração e tecnologia da informação e comunicação. Com certeza, o futuro é das energias renováveis. Portanto, nosso foco também é o mercado de tecnologias limpas, e para isso criamos a marca Cleantech Finlândia.

Mas o setor naval é uma das prioridades desta visita ao Brasil. A delegação de empresas é muito representativa desse segmento. A Finlândia tem uma longa tradição e experiência na construção de navios desde a Segunda Guerra Mundial. Nossa expertise inclui projetos como o quebra-gelo, plataformas petrolíferas, navios de investigação e navios de cruzeiro de luxo. Especialmente agora, que foi encontrada uma extensa reserva de petróleo na costa do Brasil, a tecnologia finlandesa oferece uma solução para a sua exploração.

Somos capacitados em tecnologia para aproveitar as fontes de energia no Brasil. A natureza finlandesa é vulnerável. Por isso, fomos obrigados a desenvolver esse setor e acho que esse será o futuro da tecnologia. Sabemos que o setor de biocombustíveis no Brasil também está bem avançado.

RI O que dificulta o aumento do comércio Brasil–Finlândia? Qual seu conselho para as empresas brasileiras que queiram exportar para a Finlândia?
PV – A Finlândia é um país aberto e com economia voltada ao comércio exterior. Por isso, não vejo nenhuma razão para que o comércio entre nossos dois países não possa aumentar significativamente, porque há um potencial inexplorado.

Lamento que as negociações entre os blocos União Européia e Mercosul foram paralisadas. Poderia ajudar a potencializar o comércio entre os países diminuindo, por exemplo, as tarifas elevadas e a complexidade dos procedimentos aduaneiros. Esses obstáculos poderiam ser resolvidos com o acordo de livre-comércio.

A Finlândia é um país de destino muito simples de exportação. As empresas brasileiras podem recorrer à Embaixada da Finlândia para obter mais informações sobre as empresas finlandesas. A agência Finpro mantém o banco de dados Exporters Data Base para as empresas estrangeiras que procuram contatos de comércio exterior da Finlândia. Para ajudar as empresas brasileiras interessadas em se instalar na Finlândia, há o Invest in Finland, que ajuda as empresas estrangeiras a encontrar oportunidades de negócios no país.

RIO que mais atrai as empresas finlandesas a instalar filiais no Brasil?
PV – O Brasil já recebia o interesse de empresas finlandesas quando a economia do país ainda estava muito fechada. A atração se baseava na demanda de matérias-primas baratas, na base de clientes locais competitiva internacionalmente e o potencial de exportação para outros países sul-americanos, além de terem um grande mercado consumidor. Hoje a democracia do Brasil se fortaleceu e o país está estável politicamente.

Há 40 filiais de empresas finlandesas instaladas no Brasil e elas empregam cerca de 15 mil brasileiros. O volume de negócios – 2,7 bilhões de euros, em 2008 – é quatro vezes maior que a exportação da Finlândia. Os principais setores de cooperação são os dos setores de papel, mineração, energia e telecomunicações. Entre as empresas finlandesas que atuam no Brasil estão a Andriz-/Ahlström, Huhtamaki, Jaakko Pöyry, a Kemira, Metro, Outukumpu, Partek, Pelos, PKC Group, Savcor.

As empresas finlandesas também têm interesse no setor das telecomunicações, que se abriu para a privatização. Também com a reforma dos portos iniciada no Brasil, os serviços de movimentação de carga e o fornecimento de equipamentos, tem gerado grandes quantias de dinheiro a cada ano.

Há ainda interesse no setor de saúde, que começa a ter um tipo de reordenamento – falta crônica de dinheiro nessas áreas está se tornando um mercado de bilhões –, e no setor de bens de consumo duráveis. É do interesse dos finlandeses o setor florestal (papel e celulose).

RI E quais as dificuldades que ainda impedem que outras empresas invistam no país?
PV – É da pesada burocracia e cultura administrativa complicada que as empresas mais reclamam.

RIA vinda da delegação ao Brasil prevê intercâmbios na área de pesquisas e tecnologias?
PV – A delegação empresarial discutirá apenas tecnologia marítima. Mas quanto à cooperação nos financiamentos de pesquisas existentes, vale lembrar que a Academia da Finlândia e a instituição brasileira Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico um Desenvolvimento Tecnológico (CNPq) firmaram acordo de cooperação. Este acordo está aberto aos pesquisadores e grupos de pesquisa brasileiros e há a possibilidade de solicitar um financiamento do seu projeto paralelamente nos dois países. Isso permitirá agregar valor aos serviços de pesquisas conjuntos e projetos de longo prazo. O campo de investigação de biocombustíveis e papel e celulose são temas de interesse comum.

RIA Finlândia é considerada uma nação de engenheiros pelo alto nível de capacitação tecnológica. Esse é o principal desafio brasileiro. A Fiesp mantém as escolas Senai para capacitação tecnológica especializada na indústria. O senhor acredita em parcerias nesse sentido?
PV – Um dos motivos do nosso desenvolvimento foi a educação. Temos um sistema d educacional voltado a inovação tecnológica. Se o Brasil demonstrar interesse, é claro que poderá haver parcerias nessa área. Antes da recessão, cerca de 3,5% do PIB era investido em pesquisa e inovação. Agora esse porcentual está maior.

Nossa ideia de inovação está ligada à mão de obra. O sistema de ensino superior finlandês já foi modelo para muitos países. Também mencionei a cooperação entre a Academia da Finlândia e o CNPq que prevê intercâmbio de pesquisadores entre os dois países.

Acho encorajador para o Brasil o fato de o presidente Lula incluir o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em ciência, tecnologia e desenvolvimento.

RIEm abril deste ano, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) recebeu uma comitiva finlandesa. Há interesse em parcerias na área de biotecnologia ou pesquisas para o setor agrícola?
PV – Há cooperação para financiar pesquisa de energia entre Finlândia e Brasil. Bionergia faz parte do pacote. Em novembro passado, a Academia da Finlândia abriu edital para financiar cinco projetos de pesquisas, abarcando um total de 2 milhões de Euros, para projetos de pesquisadores do CNPq.

RIEmpresas brasileiras já contam com a expertise das empresas finlandesas na área energética. Como o senhor enxerga o Brasil nesse cenário de produção de energia de fontes renováveis?
PV – Energia limpa é uma das prioridades para a cooperação futura. O Brasil é pioneiro na produção e utilização de bicombustíveis no mundo. O Brasil tem enormes recursos naturais e a Finlândia possui tecnologia para complementar esses recursos. Isso propicia uma boa base para cooperação futura.

RIPara os brasileiros, a Finlândia é considerada um exemplo de sucesso econômico conquistado principalmente pela Nokia. O Brasil, nas últimas décadas, conseguiu também certa estabilidade econômica e melhorar em muitos campos. O que o Brasil pode aprender com a Finlândia e vice-versa?
PV – A Finlândia vê o Brasil como um parceiro importante para uma energia sustentável, pela indústria florestal (papel e celulose) e no campo de bioenergia. O Brasil avançou em modelos de produção nessas áreas e tem experiência no desenvolvimento de biocombustíveis.

O que mais nos atrai no Brasil é o grande mercado interno e um ambiente de produção competitivo no mercado latino-americano.

Pesquisa & Desenvolvimento na educação é uma área da qual os finlandeses exportam para a América Latina. A Finlândia tem projetos do setor de educação e desenvolvimento na América Central e Andina e as instituições de ensino finlandês têm sido bastante ativas.