InteligênciaPontoCom resgata figurino do país nos 50 anos de Teatro Popular do Sesi-SP

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Na noite desta terça-feira (25/11) o Teatro do Sesi-SP sediou uma homenagem especial aos 50 anos de sua história.

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Os figurinistas Gabriel Vilella (à esquerda) e JC Serroni (à direita) dividiram suas experiências com o público no InteligênciaPontoCom. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Depois de nove edições que contemplaram as mais diversas manifestações artísticas durante o ano, o bate-papo InteligênciaPontoCom – evento mensal do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-sp) – encerrou a programação de 2014 revivendo momentos do teatro brasileiro, sob o ponto de vista de quem embelezou o espaço cênico dando vida e expressão a personagens por meio do figurino.

O cenógrafo e figurinista JC Serroni e o diretor teatral, cenógrafo e figurinista Gabriel Villela dividiram suas experiências com o público, respondendo a uma  pergunta: “Que figurino lhe cai bem?”.

O artista plástico, diretor e autor teatral e ator de origem argentina Ilo Krugli foi relembrado e homenageado por seus colegas, que o citaram como referência e forte contribuição ao teatro brasileiro. “Ele trabalha de uma forma minimalista, nas pequenas coisas que ele transforma, como o teatro de boneco. Para mim, o Ilo foi um incentivador como sempre”, destacou JC Serroni.

Algumas dificuldades enfrentadas no início de sua carreira foram descritas por Serroni. Uma delas foi quando compôs o figurino do espetáculo “A morte acidental de um artista”, que contou com a participação de Antonio Fagundes. Na ocasião, ele contratou uma costureira com pouca experiência e o resultado foi uma bela bronca do diretor da peça, Antônio Abujamra, que descreveu a capa do personagem como um verdadeiro horror.

Um erro de início de carreira foi também acreditar que o projeto de um figurino se resume em uma apresentação ilustrativa no papel. “Não adianta o desenho. Figurino é a ação cênica e não está no papel. Eu aprendi a fazer o figurino nos ensaios. Você faz a roupa se integrar com o ator e a humaniza”, comentou.

Serroni também elogiou o trabalho de Gabriel Villela, que conheceu em um dos festivais de teatro do Sesc. “Venho acompanhando a carreira do Gabriel e nesses 20 poucos anos percebi a sua afirmação no meio teatral. Eu o considero um dos melhores figurinistas no Brasil e tem essa coisa de fazer o trabalho ao vivo.”.

JC também falou da alegria de ter sido chamado para participar do projeto de um livro sobre a história dos figurinos que passaram pelos palcos do Sesi-SP nessas cinco décadas.  A publicação, que será lançada no início do próximo ano, reunirá imagens e croquis de 120 figurinos desde 1964 até 2014.

“Eu queria muito fazer esse projeto do Sesi-SP que é importantíssimo”, comentou, ressaltando que na unidade do Sesi-SP no Catumbi existem mais de 3.000 trajes que fizeram parte dos figurinos de espetáculos que estiveram no palco do Teatro do Sesi. “Tirando o Teatro Municipal, eu não conheço nenhuma instituição com esse número de figurinos como se tem aqui”, afirmou.

Figurino não é moda

Gabriel Villela falou da completa distinção que faz entre figurino teatral e a moda usual. Para ele, figurino não é moda. Ambos são coisas distintas e distantes. “Há momentos na história do figurino que ele se mistura com a tendência de moda. Mas, o figurino remete a um momento muito particular na história”, comentou.

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Para Gabriel Vilella (à esquerda), figurino não é moda: “Quando penso no tecido, ou na policromia, ou na textura, tudo isso passa pela voz e pelo tom do ator que vai vesti-lo”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Ele confessou que diversas vezes recebeu convites para criar roupas e fazer moda, mas não aceitou. Durante os ensaios do espetáculo “Fausto zero” – baseado no clássico “Urfaust”, de Goethe –, Vilella comentou que uma moça lhe pediu que criasse seu vestido de noiva igual ao do figurino usado pela personagem interpretada pela atriz Vera Zimmerman. “Eu não fiz o figurino para a moça e continuei pobre”, gracejou.

Villela relembrou que, na época, foi provocado pela atriz Valderez Barros a aceitar tais convites. “Ela comentou que a decisão dela de aceitar certos papéis em sua carreira sempre foi uma questão de intuição e um olhar interior.”

A fala de Valderez, segundo ele, o fez refletir sobre a dificuldade de pensar em moda ou em uma peça de vestimenta. “Eu passei a ver o figurino não mais como um tecido e textura, mas como a epiderme dos personagens. E baseado nessas questões filosóficas eu fui atrás de boas referências profissionais, de boas costureiras, de aderecistas, estampadores e de malucos, para que a gente pudesse criar um ateliê renascentista, onde todos criam, aos poucos, o figurino.”

Villela explicou que em uma produção ele costuma reunir as equipes de figurino, cenografia e iluminação em pé de igualdade e distribuindo informação, de maneira que esses líderes de áreas e estéticas teatrais possam criar de modo integrado.

Uma das conquistas de sua carreira foi conhecer de perto grandes nomes que ajudaram a construir a história do teatro brasileiro, como Irineu Chamizo Junior e Flávio Império. “Eu busquei essas pessoas e acredito que o meu ‘jequismo’ me ajudou nisso. Inclusive conviver com um dos melhores, que é o Flávio Império, e que atuou durante muitos anos no Teatro do Sesi-SP.”

Sobre o seu modo de criar, Villela relembrou a afirmação de Ferreira Goulart de que figurino é poesia. “Quando penso no tecido, ou na policromia, ou na textura, tudo isso passa pela voz e pelo tom do ator que vai vesti-lo.”

O diretor teatral também relembrou da época em que, durante o dia, ensaiavam com o Grupo de Teatro Mambembe, no Sesi-SP, e à noite faziam a produção do espetáculo Mary Stuart, com toda a densidade do romantismo alemão. “Era um sinal de liberdade muito grande. E a Casa nunca interviu nas criações”, afirmou.