“Brasil precisa de medidas concretas de integração regional”, diz Rubens Barbosa

Mayara Baggio, Agência Indusnet Fiesp

Os esforços de integração regional na América Latina foram deixados de lado nos últimos 12 anos, de acordo com o embaixador e presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp (Coscex), Rubens Barbosa.

Em reunião do conselho nesta terça-feira (23), Barbosa falou sobre como o país poderia compartilhar seus avanços tecnológicos e conhecimentos técnicos, além de negociar um marco regulatório entre as economias do Cone Sul.

No fim do mês passado, o presidente do Coscex participou de um encontro da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). “O Brasil está tímido na recuperação de uma política para a região. Se houvesse um aumento dos 16% do comércio negociado atualmente, nosso país seria obrigado a ter uma posição de liderança, que não tem hoje”, criticou.

Na União Europeia (UE) o nível de integração intrarregional passa dos 60%. Mesma situação vista na América do Norte, por meio do Nafta, e da Ásia Oriental, ambos com cerca de 50%.

Reunião do Coscex sobre integração regional. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Na Fiesp, especialistas em comércio exterior defendem integração entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp (Cosag), Jacyr da Costa Filho, disse nesta segunda-feira (3 de abril) que é uma necessidade a união de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai para fazer frente ao desafio representado pela crescente complexidade das transações internacionais. A declaração foi feita depois que ele ouviu representantes do Grupo de Países Produtores do Sul (GPS) e o presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp (Coscex), Rubens Barbosa.

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e ex-presidente do Cosag, fez análise semelhante. “O Brasil, para realizar seu potencial de ser o grande fornecedor de alimentos do mundo, precisa se integrar a seus vizinhos”, afirmou. A presença de presidentes na região com visão favorável aos negócios se soma às oportunidades criadas por ações do governo Trump (EUA), disse.

O tempo das reformas econômicas no Brasil e na Argentina é convergente, destacou Barbosa, presidente do Coscex. Das propostas defendidas pelo GPS, destacou como de grande importância a criação de uma frente comum para lidar com os grandes importadores líquidos de alimentos. Ela deve ser implantada, afirmou, em preparação para o que acontecerá alguns anos à frente, quando somente Mercosul e EUA serão capazes de ampliar a oferta agrícola.

“Como vamos fazer para maximizar a receita na área agrícola? Temos que começar a pensar em como fazer a comercialização conjunta da produção do agronegócio e como agregar valor”, disse. É uma das três áreas que podem dar contribuição regional importante, ao lado da integração energética e da logística, especialmente por ferrovia.

Mas Barbosa vê problemas. Há uma desintegração, afirmou, sem revitalização do Mercosul, apesar do discurso dos governos. Efetivamente, discute-se hoje o mesmo que 15 anos atrás. Em sua análise, o Mercosul ficou paralisado e se isolou completamente.

Em relação ao Nafta, considera que não haverá mudanças substanciais – apenas coisas cosméticas. Com isso não serão criadas muitas oportunidades de negócios para os países do Mercosul.

O GPS é uma rede de instituições privadas da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, que propõe articular as instituições que a compõem de modo a conseguir o posicionamento em temas relacionados ao agronegócio com uma visão estratégica do mundo e da região. Gera informações e análises sobre temas de interesse dos membros, para fomentar o diálogo público-privado em cada país e entre eles. E também difunde informações e ideias em diversos níveis. Representantes do GPS participaram da reunião do Cosag, que teve como tema “Mercosul: Política, Agronegócio e os Desafios da Integração”.

Reunião do Cosag de 3 de abril, em que foi discutida a integração de Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai. Foto: Everton Amaro/Fiesp

 

Horacio Sánchez Caballero, coordenador do GPS, fez a apresentação “Panorama Político e do Agronegócio na Argentina”. Segundo Caballero, o atual governo argentino se dispôs a se abrir ao mundo, retomando relações com organismos internacionais e se relançando regionalmente. Além disso, defende a abertura ao capital estrangeiro.

O agronegócio é visto como motor do desenvolvimento e foi alvo de uma série de medidas para melhorar o ambiente de negócios, com agenda mais agressiva de abertura de mercados.

Há incerteza no panorama político e econômico mundial, exigindo flexibilidade e atenção, disse. O governo toma medidas de curto prazo para amortecer choques, e no longo prazo quer mudança estrutural econômico-social, e especificamente no agronegócio se espera consolidar o crescimento, agregar valor.

Segundo Juan Ángel de La Fuente, do Comitê Gestor do GPS, o Uruguai, com seu pequeno mercado consumidor interno, precisa se integrar. O país quer mais Mercosul, mas um melhor Mercosul, com a eliminação de entraves ao comércio regional. Em relação às negociações do tratado de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, o Uruguai considera fundamental o tema da agricultura. Com a China, a negociação, sempre dentro do Mercosul, tende a ser mais complexa.

“Desafios da Integração Regional e Terceiros Mercados” foi a apresentação a cargo de Martin Piñeiro, membro do GPS. Há, disse, convergência nas políticas agroindustriais entre os quatro países do GPS, mas todos passam por problemas políticos, e o setor privado deve levar-lhes propostas com uma visão regional. A região deve crescer mais que o resto do mundo na produção de alimentos, ressaltou.

Exportar é imprescindível para a região, que precisa abrir mercados num contexto internacional de crescente complexidade, afirmou Piñeiro. É importante tentar evitar que a OMC se enfraqueça. E é preciso reforçar a capacidade de negociação e a colaboração regional. Novos mercados podem se abrir, destacou.

É preciso, disse, criar uma frente comum em relação aos grandes importadores líquidos (UE, Japão, Oriente Médio e outros).

O segredo é a integração produtiva, como mostra o exemplo da Europa, disse, o que exige a facilitação do comércio de bens intermediários. Também é preciso trabalhar pela integração tecnológica, mais uma vez seguindo o exemplo europeu, para permitir os grandes investimentos necessários no setor.

Alexandre Pontes, secretário substituto de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), fez apresentação intitulada “Desafios da integração: Regional e Terceiros Mercados”.

Defendeu a troca de informações para integração da produção regional, a integração tecnológica, o avanço na propriedade intelectual. Também a promoção em investimentos. Há, lembrou, projetos de infraestrutura de integração regional.

O embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral, participou da reunião do Cosag. O mundo passa por grandes transformações, quase revoluções, disse, e muitas vezes não nos damos conta da profundidade dessas mudanças e de seu efeito sobre nós. A globalização, disse, é contestada, assim como a democracia liberal e a ordem internacional criada após a Segunda Guerra Mundial. Cria-se um grau elevado de incerteza. O governo Trump passa por algo parecido. Aspecto positivo para nós é o forte apoio ao setor privado, disse Amaral. O Brasil não é alvo nem é questionado em suas políticas. Não tem superávit comercial com os EUA. Também não rouba empregos norte-americanos; pelo contrário, brasileiros investem e criam vagas nos EUA.

Nosso grande desafio é pôr em movimento as oportunidades que surgem, afirmou, e o setor privado tem papel fundamental nisso. É preciso ter mais ambição e ajudar a construir as relações entre os dois países e a criar soluções. Empresários brasileiros deveriam conversar com os norte-americanos para tentar o entendimento. Os governos de ambos os países tenderiam a apoiar essas iniciativas. Defesa, energia, saúde estão entre os setores com potencial. E a região também pode se beneficiar.

Apresentada na Fiesp, matriz de insumo-produto da América do Sul mapeia potencial de integração da região

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Fruto de quase três anos de trabalho intenso, a matriz de insumo-produto (MIP) regional criada por Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) e Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) foi apresentada nesta quarta-feira (18/11) na Fiesp durante o seminário Integração Produtiva da América do Sul. O objetivo é que a nova ferramenta permita a formulação de melhores políticas públicas e também o aprimoramento das análises pelo setor privado.

Sebastian Castresana, pesquisador do Cepal, explicou que processo de construção da matriz incluiu 3 seminários em Brasília e um em Santiago. Trabalharam nela 25 pessoas, incluindo funcionários da Cepal e do Ipea.

Cruzando dados em 320 linhas e 320 colunas, usa como ano base 2005 e estuda 8 países (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e Venezuela) em 40 setores, dos quais 35 de bens e 5 de serviços. A matriz permite ver tanto as transações de bens intermediários quanto de finais.

Como base para a MIP regional foram usadas as matrizes de cada país, com a abertura dos dados sobre as importações de bens intermediários pelos parceiros comerciais. Segundo Castresana, “foi um quebra-cabeças”, para cuja montagem foi preciso fazer ajustes nas peças, com o principal sendo transformar os dados para o mesmo ano base. Também houve homogeneização de setores e conversão para dólar em preços básicos.

O resultado é uma MIP sul-americana com formato semelhante ao de uma nacional, que permite a análise de cadeias de valor.

Entre os próximos passos estão a inclusão de Paraguai e Equador e a atualização para data mais recente. Depois se pretende estender o trabalho para América Latina e Caribe, e, finalmente, integrá-la a outras MIP, como o Tiva.

Renato Baumann, técnico do Ipea, explicou que a estrutura da MIP é “estritamente comparável à matriz da OCDE”. A seleção dos setores foi feita em conjunto com ela, e seus técnicos participaram dos workshops.

O projeto, disse Baumann, teve apoio financeiro de ABDI, CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina) e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), o que permitiu a contratação de consultores para o trabalho. Vai resultar em publicação conjunta Cepal/Ipea, depois que os dados forem submetidos aos países analisados. Matrizes semelhantes, ressaltou, só existem na Ásia e na Europa. O MIP “mapeia o que existe na região e é uma ferramenta poderosa”.

Baumann disse que é hora de recuperar a competitividade das exportações de manufaturados do Brasil. Lembrou que na América Latina há muito pouco da fragmentação que caracteriza a economia global, como as cadeias globais.

Nanno Mulder, chefe da Unidade de Comércio da Cepal, falou sobre a importância da dinamização do comércio no Mercosul, lembrando que outros parceiros perderam força.

Nádia Scharen, do BID, destacou a baixa produtividade local em razão da baixa integração. Falta acordo regional amplo, disse.

Mesa de abertura do seminário Integração Produtiva na América do Sul. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Integração

Ao abrir o seminário, Thomaz Zanotto, diretor titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, destacou a importância do estudo feito pelo Ipea, usando metodologia da OCDE, sobre cadeias regionais de valor, especialmente na América Latina. Nele, explicou, a Fiesp viu a chance de uma discussão mais técnica, menos politizada, sobre a questão da integração da América Latina vis-a-vis uma integração global.

Zanotto relatou passos recentes da entidade das indústrias na discussão da integração brasileiras. Disse que a Fiesp lançou em 2013 o documento Agenda de Integração Externa, já devido a essa preocupação com uma “parálise do Brasil em termos de integração externa”, deixando um pouco de lado a discussão do Mercosul para avançar em integração forte especialmente com áreas do globo com mais inovação e tecnologia. “Já se falava”, afirmou, “sobre a ausência do Brasil das cadeias globais de valor”.

Em 2014 a Fiesp participou de evento da OCDE em Paris, em que se apresentou a metodologia TIVA (Trade in Value-Added), de mensuração das cadeias globais de valor, identificando o quanto do valor de um produto fica em cada país participante do processo de produção. “O Ipea estava avançado no estudo de cadeia regional de valor, o que se via um pouco na Fiesp na prática, porque o Mercosul na época ainda era (ainda é) polo importante de consumo de produtos manufaturados brasileiros.” “A questão”, segundo Zanotto, “estava muito politizada, sem a discussão técnica necessária”. O tema da integração externa ganhou para a Fiesp prioridade absoluta, segundo o diretor do Derex. “O mundo muda em velocidade vertiginosa. É surpreendente a abrangência do acordo Trans-Pacífico [Transatlantic Trade and Investment Partnership, Tratado de Associação Trans-Pacífico, ou TTP], que vai muito além de comércio e trata já de uma nova governança global”, afirmou. “Não podemos mais deixar passar dois anos até que se decida se o TTP é bom ou não para o Brasil – tem que imediatamente estudar isso.” Ele defende que haja “preparação, estudo, mas não inércia”. Zanotto lembrou iniciativas isoladas, como o Portal Único e o Plano Nacional de Exportações, que estão se juntando e indicam o comércio exterior como um dos pilares da recuperação do país. “Quando a Fiesp participou da elaboração do Plano Nacional de Exportações”, disse Zanotto, “percebeu que para exportar mais as empresas precisam também importar mais. Há necessidade de maior abertura, sim, de maior integração, principalmente com aquelas áreas do mundo que estão se desenvolvendo”. Explicou que as novas tecnologias criam mudanças econômicas que são mais que isso, são geoeconômicas.

Durante o seminário, Zanotto destacou fatores que devem afetar a economia regional, como as possíveis mudanças na Argentina, a maior ligação entre os países da região graças à melhora da infraestrutura e a eliminação de algumas tarifas. “É preciso acabar com o clima de fla-flu em relação ao Mercosul e analisar as vantagens possíveis”, afirmou.

Segundo Zanotto, agora que passou “o bilhete de loteria das commodities”, os países terão que partir para o trabalho prático e aproveitar a existência de um mercado de 400 milhões de pessoas, com grande classe média.

O painel de discussões do seminário, com o tema Potencial de Integração produtiva na América do Sul: Análise da matriz de insumo-produto regional, foi moderado por Mario Marconini, diretor titular adjunto do Derex, que afirmou que os acordos de livre comércio influenciam as cadeias, e o Brasil não avançou nisso. “Nosso bloco perdeu tempo em questões políticas. Contraste enorme com a Ásia é que aqui é preciso algum tipo de acordo formal para a integração, quando deveria acontecer pela necessidade de aproveitar vantagens, de empresa com empresa”, disse. Lembrou que a “pouca propensão à exportação das multinacionais instaladas no Brasil é prejudicial”. Outro problema do Brasil na pauta de exportações é que serviços e logística ficam de lado, e são cada vez mais importantes.

O embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp (Coscex) voltou ao tema no encerramento do seminário, quando perguntou por que as multinacionais instaladas no Brasil não estão no comércio interempresas. Disse que elas se contentam com o mercado interno e não investem em inovação. “Se tivessem condições mínimas aqui”, afirmou, “competitiriam” com outras unidades”. “Mas estão desinvestindo no Brasil.”

Também Baumann, do Ipea, abordou o tema. Explicou que metade das exportações de manufaturados é feita por multinacionais interessadas no mercado da região. “Como fazer”, perguntou, para “que subsidiárias se lancem a outros mercados?” Disse que a agenda do comércio internacional aparece com ênfase muito menor que a do mercado interno.

Análises iniciais

Renato Flores, professor da FGV, explicou que a matriz de 320 linhas por 320 colunas exigiu trabalho monstruoso de análise. “É um instrumento descritivo com algo mais”, disse. Permite por exemplo fazer simulações e formular cenários.

Flores falou sobre algumas conclusões tiradas da MIP. Uma delas, a partir do indicador “Dependência para trás”, que mostra o quanto um indicador “puxa” os outros setores da cadeia, é que “somos 8 economias agrícolas ainda”.

A partir da análise da “Dependência para a frente”, que mede de forma ponderada o quanto um setor supre outros, a conclusão é que o Brasil é muito fechado. Uruguai e Bolívia têm as economias mais conectadas e dependentes de seus vizinhos.

Segundo Flores, na integração em serviços, Brasil tem liderança de certa forma desintegrada. Puxa outros, mas não é puxado por eles. Chamou de “pequena tristeza” a baixa frequência de serviços.

Depois de Marconini destacar que a participação dos serviços no PIB doméstico é alta, Flores disse que os serviços não têm encadeamento regional para frente nem para trás. “Não são relevantes regionalmente. Nossa integração se dá por vias clássicas, como automotivo, siderurgia, química, em que os serviços não têm relevância.”

Complementaridade

Renato Baumann, do Ipea, disse que a matriz Ipea-Cepal demonstra que existe um potencial de complementaridade na região. “Nem tudo pode ter a produção fragmentada, mas há conjunto enorme de possibilidades que devem ser consideradas”, disse, lembrando que é preciso ir a campo para conhecer os detalhes, “ir dos 6 para 10 dígitos, identificar os setores em que a complementaridade é viável”. Nem sempre o produto ou componente feito num país é o que outro país precisa comprar, explicou.

O Brasil pode ter na América do Sul o papel de concentrar a montagem de produtos finais, com maior valor adicionado que o simples fornecimento de matéria-prima. A complementaridade produtiva daria direção ao processo de integração sul-americana e poderia ser fonte de produtividade.

É fundamental, afirmou, eliminar obstáculos internos à competitividade. Na agenda das políticas macroeconômicas precisa ser incluída a inserção internacional de forma mais eficiente e sustentável. “A matriz serve como ferramenta para isso”, para “criar uma política de Estado”.

Para Marconini, o “grande lance seria atrair empresas que percebessem o Brasil como grande mercado e como hub regional”.

O embaixador Rubens Barbosa disse que o Brasil teria todo interesse em liderar política visando a integrar as economias da região. A Fiesp, lembrou,  liderou o processo, e o tema continuará em sua agenda. “Temos que discutir formas de reinserir o Brasil nos fluxos do comércio internacional”, afirmou.

Crise exige que Brasil e Argentina intensifiquem a integração regional

Agência Indusnet Fiesp,

O fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e Argentina, com a ampliação da pauta exportadora binacional, é “a melhor reação possível” que os maiores parceiros do Mercosul podem recorrer para enfrentar a crise financeira internacional.

O discurso de integração regional foi assumido na manhã desta sexta-feira (20) por empresários brasileiros e argentinos, durante na abertura do segundo dia do Encontro Empresarial Brasil-Argentina, realizado na sede da Fiesp e do Ciesp, em São Paulo.

“Gostaríamos de debater com nossos amigos argentinos formas de melhorarmos o Mercosul. Um desafio que se apresenta hoje à economia dos nossos países”, sinalizou o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Giannetti.

Para o executivo, o enfrentamento da crise tem de ser feito conjuntamente pelos dois maiores parceiros do bloco econômico sul-americano, com a ampliação do fluxo comercial e cooperação industrial que assegure maior competitividade para ambos.

“Aqui na Fiesp, temos a visão de que a melhor reação possível que podemos assumir [para enfrentar a crise] é aumentar nosso comércio”, sugeriu Giannetti.


Integração
A perspectiva integradora também foi assumida pelo vice-presidente da União Industrial Argentina (UIA), Cristiano Rattazzi, segundo o qual ambos os países têm grandes condições de potencializar suas indústrias mutuamente e “seguir um futuro industrial juntos”.

“Estamos entusiasmados com a integração entre Brasil e Argentina, que nos parece absolutamente necessária. Lá fora temos um mundo difícil e complicado que temos que participar e, obviamente, para isso é necessário potencializar a competitividade de nossas indústrias”, declarou. “Temos que ter uma indústria forte e competitiva para sermos dois países desenvolvidos e não mais em desenvolvimento”, concluiu Rattazzi.

Destacando o “resultado muito positivo” do encontro entre representantes dos governos brasileiro e argentino, acompanhados por empresários dos dois países, em Buenos Aires na semana passada, o chanceler Jorge Taiana se mostrou satisfeito com o primeiro dia do Encontro.

“Esse seminário é a constatação dos avanços da cooperação entre nossos países, assim como a rodada de negócios. São mais uma manifestação do potencial de crescimento de nosso relacionamento tanto comercial quanto no âmbito político-econômico”, afirmou Taiana.

O diplomata argentino destacou que o fortalecimento das relações binacionais são positivas ante o processo de globalização. “Estou seguro de que esse seminário será exitoso em intensificar nossas relações”, confiou.

A missão empresarial argentina conta com 487 empresários. Somente no primeiro dia, foram realizadas 540 reuniões de negócios, com representantes de 167 empresas argentinas e 150 companhias brasileiras.


Polarizações da balança

O fluxo comercial entre Brasil e Argentina se intensificou a partir de 1995, quando o Mercosul ampliou seu status de zona de livre comércio, por onde produtos dos países-membros transitariam sem a imposição de cotas ou tributação, para se transformar em uma união aduaneira em que os signatários do bloco utilizariam as mesmas taxas externas comuns (TEC) sobre itens importados de outros mercados.

O pacto diplomático-comercial resultou em um aumento de 322% no fluxo comercial entre os dois países, entre 1995 e 2008, que saltou de US$ 9,6 bilhões, para US$ 31 bilhões. O período foi marcado pela polarização da balança, ora para o lado portenho, ora para o brasileiro.

Por nove anos consecutivos (1995-2003), a Argentina registrou superávit, totalizando US$ 10,5 bilhões de ganhos num período em que as relações bilaterais tiveram crescimento estável moderado.

O cenário se inverteu a partir de 2004. Em cinco anos, a troca de produtos entre os parceiros do Mercosul teve alta de 238,5%. Passou de US$ 13 bilhões, para os atuais US$ 31 bilhões. O Brasil passou a ser superavitário, acumulando US$ 19,5 bilhões de ganhos totais. Desse montante, 22% somente em 2008, cerca de US$ 4,3 bilhões.