Anvisa tem de rever padrões e ampliar corpo técnico, diz diretor do Instituto Butantan

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

As agências reguladoras para pesquisa e desenvolvimento em saúde no país provocam um ambiente confuso e burocrático, avaliou nesta segunda-feira (21/10) o diretor-presidente do Instituto Butantan, Jorge Kalil. Ele afirmou que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por exemplo, precisa “rever seus padrões e botar mais gente técnica”.

“A Anvisa tem um papel fundamental na área de saúde do país, mas de quatro diretores da agência, dois são advogados e nenhum é médico. Eles querem saber se a vírgula está certa e não se vamos ter um produto”, afirmou Kalil.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544760260

Jorge Kalil: falta renovação do quadro de cientistas do país e percentual de cargos vagos em institutos chega a 45%. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


O diretor do Butantan participou da abertura do seminário “São Paulo: A cidade da Inovação”, organizado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Segundo ele, o Brasil tem um número “pífio” em patentes e não consegue fazer inovação. E os principais motivos para o atraso do país neste aspecto, apontou Kalil, são a falta de investimento público e privado, de profissionais especializados e a atuação ineficiente de reguladoras. O diretor do Butantan afirmou ainda que os institutos de pesquisa brasileiros estão padecendo em uma estrutura “arcaica”.

“A regulação é desfavorável, falta renovação do quadro de cientistas, os cargos vagos em institutos do país chegam a 45%”, informou.

De acordo com Kalil, o motivo para um percentual tão alto de cargos vagos no país pode ser um quadro de desvalorização do papel do cientista e pesquisador no Brasil.

“Não conseguimos atrair talentos que estejam no exterior. Os pesquisadores não são vistos como pessoas importantes para a sociedade. São vistos como diletantes que só ficam pensando e não têm compromisso”, desabafou.

Burocracia mata

Na avaliação do diretor do Butantan, o sistema de apoio à pesquisa e inovação “está ruim” enquanto a burocracia “está nos matando”.
De acordo como diretor, o instituto tem projetos de pesquisa parados dada a dificuldade em conseguir liberação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para manipular animais.

“Temos, hoje, muita dificuldade no Butantan para trazer animais peçonhentos. Antigamente tínhamos duas mil cobras coral por ano; hoje, nós temos uma coral. Não temos mais veneno para fazer pesquisa. Tem projeto parado por falta de veneno”, afirmou.

Também presente na abertura do seminário, o subsecreatário de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, Marcos Cintra reconheceu a dificuldade em dar sequência a projetos de pesquisa e desenvolvimento no país. Cintra afirmou que “infelizmente vivemos num país com tradição jurídica romana”.

São Paulo da Inovação

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544760260

Roberto Aluisio Paranhos do Rio Branco, do Conic/Fiesp: engajamento do setor produtivo. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

O seminário São Paulo: Cidade da Inovação faz parte das atividades da 10º Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, iniciativa do governo que durante este mês reúne especialistas em diversas cidades do país para debater tecnologias e políticas para estimular a ciência, saúde e o esporte.

O objetivo do encontro organizado pela Fiesp na capital paulista nesta segunda-feira (21/10) é mobilizar o poder público, empresários, executivos e acadêmicos em torno de temas como empreendedorismo e ciência.

O vice-presidente do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da Fiesp, Roberto Aluisio Paranhos do Rio Branco, abriu o encontro e afirmou que “o setor produtivo de São Paulo enfatiza a importância da inovação e ratifica que está disposto a participar ativamente do processo para melhorar a competitividade no Estado e no país como um todo”.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1544760260

Eliseu Gabriel: falta política de apoio claro à inovação. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Para o secretário municipal do Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo, Eliseu Gabriel, a área de pesquisa e desenvolvimento do país precisa de mecanismos para “transferência de conhecimentos de base científica para as atividades industriais”.

“Não temos ainda uma política de apoio claro à inovação”, reconheceu Gabriel. “O Brasil possui um sistema de produção científica dinâmico e desenvolvido, mas essencialmente acadêmico. Então, temos que avançar na mediação do conhecimento científico com o sistema produtivo”, completou.

Entraves burocráticos dificultam crescimento do número de patentes no Brasil, diz diretor do Butantan

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Das cinco maiores empresas farmacêuticas com atuação no Brasil, três são brasileiras e têm “inovação zero”, de acordo com avaliação de Jorge Kalil, diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, durante visita técnica de representantes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) no mês de setembro. As demais, ainda segundo Kalil, lideram um tímido processo de inovação incremental, que é a adaptação do produto ao mercado brasileiro.

Kalil: missão de ampliar a variedade de vacinas e soros produzidos no Butantan. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Kalil: missão de ampliar a variedade de vacinas e soros produzidos no Butantan. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


O Instituto Butantan é membro do Comitê da Cadeia Produtiva da Bioindústria (BioBrasil), iniciativa da Fiesp que, entre outros objetivos, visa estimular o desenvolvimento de acordos científicos e comerciais em âmbito nacional e internacional e chamar atenção do setor para a pesquisa e inovação, aspectos ainda pouco desenvolvidos.

“Não existe inovação. Existem algumas empresas que tentam fazer alguma coisa experimental”, afirma Kalil. Ele assumiu a diretoria do instituto em 2011 e tem como principal mote de trabalho ampliar a variedade de vacinas e soros.

O Butantan é o maior produtor de vacinas e soros da América Latina. Atualmente, o órgão conta com oito fábricas de vacinas. “Temos aqui desde a pesquisa bem fundamental até a produção industrial”, aponta Kalil.

O diretor do Butantan explica que o Brasil passou de uma posição periférica na ciência e na tecnologia para um “marketing share relativo”. Há 15 anos, a fatia de produção científica no mercado brasileiro era de 0,5% e agora chegou a 2,5%, mas o principal obstáculo para a criação de produtos inovadores e registros de patentes continua sendo a burocracia.

“A burocracia mata. O Brasil cresceu, mas esse crescimento em produção científica ainda não se traduziu em números de patentes porque, no meu entender, existem entraves burocráticos muito grandes”, alerta Kalil.

Já o coordenador adjunto do Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde (Comsaude) da Fiesp, um braço do BioBrasil, Gabriel Tannus, pondera que embora haja avanços, as produções científicas caminham em linhas muitos semelhantes.

“Aparentemente temos muita repetição e pouca novidade. Até agora ninguém se debruçou para fazer esta separação de maneira metódica, mas esta percepção começa a ganhar corpo entre os pesquisadores”, avaliou Tannus.

Mão de obra

Kalil acredita que o principal desafio para a indústria de produtos biológicos virar uma realidade no Brasil é a formação de pessoal capacitado.  Segundo o diretor do Butantan, somente o estado de São Paulo deve receber em até quatro anos mais de cem fábricas de produtos biotecnológicos.

“É fundamental que no trabalho com a indústria se formem quadros de gestão de inovação e pessoal de nível médio e superior para o desenvolvimento na fabricação desses produtos”, afirmou. “Precisamos de um braço produtor de investimento e desenvolvimento, que é a indústria, ou seja, a Fiesp”, disse Kalil.

Eduardo Giacomazzi, coordenador-adjunto do Comitê da Cadeia Produtiva de Biotecnologia (Combio), uma divisão do BioBrasil, reforçou a declaração de Kalil ao afirmar que o Instituto Butantan pode colaborar com as intenções da Fiesp em estimular inovação no setor por meio de formação profissional.

Giacomazzi, à direita, e Coelho, do Senai-SP, à esquerda: ações em nome da inovação. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Giacomazzi, à direita, e Coelho, do Senai-SP, à esquerda: ações pela inovação. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


“A gente é um país que inova muito pouco e a indústria ainda carece de muitos elementos: não só recursos financeiros; é a cultura da inovação. O Butantan é membro do comitê e tem muito a contribuir no sentido de buscarmos, juntos,  soluções. A contribuição dele é na formação de gente”, afirmou Giacomazzi.

Outro participante da visita técnica ao Butantan foi o gestor do Departamento de Inovação e Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), Carlos Alberto Pereira Coelho.