Inserção internacional é receita para “tirar do córner” a indústria brasileira

Amanda Viana, Patricia Ribeiro e Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O professor David Kupfer, coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse nesta quarta-feira (2/12) na Fiesp que a indústria brasileira está no córner [acuado no canto, no jargão do boxe] e que para sair dele terá que montar uma estratégia que permita sua reestruturação de forma a poder enfrentar a nova situação mundial. Kufpfer citou três “avenidas” para a indústria do futuro no Brasil.

A primeira “avenida” é representada pelo novo paradigma digital, a digitalização da economia. A segunda, energia e sustentabilidade, e a terceira, infraestrutura física e social. Kupfer participou do seminário Os Desafios para o Brasil na Nova Economia Global, organizado pelo Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex) e aberto pelo embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da entidade.

Segundo Kupfer, o Brasil enfrenta problemas de competitividade desde pelo menos 2007, antes da crise internacional. Explicou simulação que mostra que se não tivesse havido esse hiato de competitividade o Brasil exportaria US$ 29 bilhões a mais por ano.

Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, considera a questão da inserção internacional “fundamental para sair do córner”. Citou falta de competitividade do Brasil, provocada por problemas como carga tributária excessiva e complexidade da regulação, rigidez trabalhista, burocracia, corrupção.

Ressaltou que o Brasil tem poucos acordos internacionais e que a política nos últimos anos foi de mais isolamento. “Para sair deste córner teremos que mexer nisso, de forma pensada e estruturada.” Frisou que o país não tem acordos com mercados relevantes e que grandes empresas não pensam em vir para cá para usar o Brasil como polo exportador. Clique aqui para conhecer a apresentação feita por Goldfajn.

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Rubens Barbosa (centro) fala no seminário Os Desafios para o Brasil na Nova Economia Global. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Na abertura do seminário, Thomaz Zanotto, diretor titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex), disse que o Brasil precisa se inserir no mundo. Comparando o país a um software, disse que ainda roda no Brasil uma versão 1.0, enquanto a economia global subiu de patamar e está na 4.0.

Lembrou que há um novo conceito global e que a questão é “se vamos fazer parte disso ou vamos ser arrastados para isso”.

Medo dos grandes

Uma saída para livrar o Brasil da crise é relançar a economia para o exterior, com uma agressiva política de comércio exterior e movimento de aproximação com países desenvolvidos. A avaliação foi feita no seminário por Vera Thorstensen, professora e pesquisadora da Escola de Economia de São Paulo (EESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Vera analisou o momento atual do Brasil que, segundo ela, é de crise política, crise econômica e isolamento do país no contexto internacional. Ela explicou que o que movimenta o comércio internacional é convergência, competência e coerência. “A guerra agora é por qualidade”.

“Nós temos medo dos grandes, o Brasil já está isolado, porque não faz bons acordos com ninguém”, disse. Vera comentou ainda que o Brasil precisa mudar sua mentalidade e começar a investir em acordos com países de economia desenvolvida, com produção de tecnologia.

De acordo com ela, o Brasil está fora das cadeias globais de valor, só estando inserido nas cadeias de alimentos, e o país importa poucos insumos para exportar. “Se o Brasil fizer acordos com a Europa, não faz sentido não fazer acordos com os Estados Unidos. Se o Brasil fizer acordos com os dois, haverá um boom de exportações”, avaliou. Clique aqui para ler a apresentação de Vera Thorstensen.

Em relação ao cenário externo, Renato Baumann, técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), afirmou que o Brasil participa pouco do processo da competitividade industrial crescentemente associada à produção de tipo fragmentado e tem presença secundária em cadeias de valor.

Além disso, há risco potencial de perda adicional de competitividade pelos megaacordos recentes, dos quais o Brasil não participa. “O Brasil representa quase 2% das exportações mundiais, ou seja, há 98% a serem explorados, muito mercado a ser explorado”, disse Baumann.

Baumann explicou que um instrumento importante para identificar regionalmente como é possível um país ajudar o outro em seu desenvolvimento industrial é a matriz de insumo-produto (MIP) da América do Sul. “Um primeiro resultado desse projeto foi identificar as importações por setores em cada país e ver o que poderia ser satisfeito por produtos da região”, comentou.

Clique aqui para ter acesso à apresentação de Renato Baumann.

Inovação

No seminário, Roberto Vidigal, presidente do Conselho de Administração da Confab Industrial, disse que é fundamental inovar em produtos, processos e tecnologia agregada na produção. Defendeu investir em pesquisa e desenvolvimento e insistir na união de esforços empresariais com os institutos de pesquisa e universidades, “o que ainda estamos longe de conseguir”.

Segundo Vidigal, a única maneira de o Brasil se desenvolver é ter inserção verdadeira na produção industrial e de serviços por meio da competitividade. Defende importar mais, para poder exportar mais. “Ao se inserir no mercado externo, o país passa a ter acesso ampliado a bens intermediários mais baratos e mais atualizados produzidos no exterior, assim como a bens de capital e a inovações que se desenvolvem no mundo.” Para ler a apresentação de Vidigal, clique aqui.

Industrialização é o caminho

O diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), Pedro da Motta Veiga, destacou a importância da industrialização para o Brasil sair do modelo se sobrevivência atual.

“É inadmissível nosso PIB ter chegado ao patamar de 1950. Isso é uma devastação industrial. Perdemos participação em todos os setores. Isso significa que a estrutura da nossa indústria é a mesma, ou seja, está totalmente congelada”, enfatizou.

“A verdade é que não sabemos fazer política industrial. Temos ideias fora do lugar, principalmente quando as mesmas são inspiradas na política industrial coreana. Vamos ter que repensar tudo isso, porque do contrário, nossa indústria está fadada ao término.”