‘A Amazônia tem soluções para os problemas do mundo’, explica cientista em reunião na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Hora de agir rapidamente para reduzir os riscos futuros. E de pensar no desenvolvimento baseado na sustentabilidade. Com esse foco, foi realizada, na manhã desta sexta-feira (21/10), na sede da Fiesp, na capital paulista, a reunião do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da federação. O debate ficou por conta da “Revolução Bioindustrial para a Amazônia”, com a participação do cientista Carlos Nobre, professor de pós-graduação do Inpe, e de Juan Carlos Castilla-Rubio, empreendedor e engenheiro bioquímico. Participaram do encontro personalidades como o presidente do Conic, Rodrigo Costa da Rocha Loures.

Segundo Nobre, as mudanças climáticas estão se desenvolvendo em ritmo mais acelerado do que esperava a ciência. “Na minha infância, os meses mais quentes do ano eram janeiro e fevereiro. Agora, outubro e novembro já são muito quentes”, disse. “Isso afeta tudo: do cotidiano das pessoas à produção agrícola. Temos que reduzir o risco futuro, as emissões de carbono na atmosfera”.

Nesse sentido, o Brasil teria sido “audacioso” no Acordo de Paris, que é um tratado das Nações Unidas sobre as mudanças do clima, com medidas de redução da emissão de dióxido de carbono a partir de 2020. O acordo foi negociado em Paris, na França, e aprovado em 2015. “Estabelecemos ter, em 2030, emissões equivalentes a 2012, o que significa praticamente não ter emissões novas”, afirmou. “No Brasil, 70% das emissões vêm ainda, de forma direta ou indireta, da agricultura, como as queimadas na Amazônia e no cerrado”.

Tudo isso quer dizer que “o Brasil tem que acordar”. “Estamos perdendo essa corrida para a Índia, por exemplo”, explicou. “Lá, a meta é ter 100 giga watts de energia solar gerados em 2022.  Aqui, o objetivo é chegar a 1 giga watt em 2024”, disse. “E olhe que somos o país com o maior potencial de uso de energia renovável do planeta”.

Diante disso, é preciso ter “foco no desenvolvimento sob a vertente da sustentabilidade”. “Viajando bastante pela Amazônia nos últimos 40 anos, percebi que há muita pobreza na região: o desenvolvimento não trouxe ganhos sócio-econômicos”.

Entre as mudanças nesse cenário estão o trabalho feito com a castanha do Pará, que antes “mantinha os extrativistas em regime praticamente de escravidão” e hoje já tem iniciativas empreendedoras que fazem a diferença. “Outro exemplo bom é o do açaí, fruta tradicional da Amazônia que era consumida em pequena escala e que nos últimos 15 anos virou um produto de consumo mundial”, afirmou. “Recentemente, vi quatro produtos derivados do açaí numa mesma prateleira numa farmácia em Washington, nos Estados Unidos”, disse. “Não foi a indústria brasileira que fez essa transformação, mas originalmente uma empresa da Califórnia. De qualquer modo, isso beneficia o Brasil. O açaí é uma indústria que deixa US$ 1,8 bilhão por ano na Amazônia”.

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Nobre, ao microfone: "Temos que reduzir o risco futuro, as emissões de carbono". Foto: Ayrton Vignola/Fiesp


Por essas e outras, conforme Nobre, é preciso pensar num plano de “inovação de ruptura, que envolva novos modelos”. “Temos que pensar num modelo de desenvolvimento de ruptura na Amazônia, centrado em inovação tecnológica”.

Saída pelo empreendedorismo

Assim, a revolução que fará a diferença, para Castilla-Rubio, envolve uma grande mudança “empreendedora”. “A Amazônia tem recursos biológicos de grande valor para o mundo”, disse. “Precisamos descobrir como usa-los da melhor forma, com ganhos para todos e de modo que a floresta continue em pé. É uma revolução que não pode esperar mais para começar”.

Que não pode mais esperar e que tem como desafio barrar o “processo de ‘savanização’ da Amazônia”. “Temos uma previsão de aquecimento na área de quatro graus, com um grau já registrado, além de danos à Bacia Amazônica”.

De acordo com Castilla-Rubio, o Brasil fez seu dever de casa nos últimos anos, reduzindo em 80% a deflorestação da Amazônia em seu lado. “Temos que pensar numa terceira via de desenvolvimento econômico que seja inclusiva e que mantenha a Amazônia viva”, explicou. “Um modelo que possa criar uma nova economia”.

Por nova economia, entenda-se aproveitar oportunidades como o desenvolvimento de algoritmos para a criação de veículos autônomos inspirados no sistema de comunicação entre as formigas a partir dos feromônios. “É como se fosse uma rede sem fio”, disse Castilla-Rubio. “A Amazônia tem soluções para os problemas do mundo”.