“Estamos comendo nosso planeta, literalmente”, afirma especialista ambiental Pavan Sukhdev

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Em função do peso do setor industrial no PIB brasileiro, as iniciativas das empresas em prol do clima são essenciais. O alerta foi dado por Pavan Sukhdev, economista ambiental, fundador e CEO da GIST Advisory (consultoria colaborativa que avalia a performance de corporações), em exposição sobre a “temporada das corporações” em encontro com diretores e conselheiros da Fiesp nesta sexta-feira (26/8).

Atualmente, o setor privado representa 2/3 da economia global com a geração de empregos representativos, segundo o convidado. “O que me marcou na COP de Copenhague [2009] foi a tensão existente entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, um antagonismo. Na COP21 de Paris [2015] os participantes questionavam o que podemos fazer como país”, avaliando a mudança de posicionamento como um avanço.

A questão é manter a elevação da temperatura em 2ºC ou próximo de 1,5ºC, como está no Acordo de Paris, uma expectativa e não uma garantia, segundo Sukhdev. De acordo com ele, na África essa elevação poderá oscilar de 2,5ºC a 3ºC, alterando o cenário e levando à escassez de comida.

O especialista avaliou que as Contribuições Nacionalmente Determinadas (iNDC, na sigla em inglês) não serão suficientes diante das necessidades atuais. O Brasil se comprometeu a reduzir 37% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) até 2025 e 43%, até 2030 (ano-base 2005). Para isso, o governo federal pretende assegurar 45% de fontes renováveis. Há, ainda, a previsão de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de vegetação, além de acabar com o desmatamento ilegal. Para o economista, o país precisa ter papel definitivo nesse processo, e a economia sustentável deve refletir o engajamento quanto a temas como preservação florestal e geração de empregos. A urgência da redução de emissões está fortemente associada ao esgotamento dos recursos naturais e riscos atribuídos à escassez.

Ao tratar dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que são metas globais, Sukhdev deu outra interpretação. Eles não devem ser vistos como um conjunto de itens separados a serem alcançados, mas sim uma estrutura de metas fundacionais que guardam relação com a vida na Terra, o controle do clima e a disponibilidade de água. Trata-se de um passo a passo que leva em conta o econômico, o social e a bioesfera. Como exemplo, citou a sincronia existente entre temperatura, acidificação dos oceanos e disponibilidade de alimentos. Houve um declínio global da pesca. Os oceanos têm capacidade de absorção de gás carbônico, e a acidificação afeta os corais onde os peixes encontram alimentos e se proliferam. A mesma preocupação se deve ter com o solo, quando grande parte dele é destinado aos alimentos e ao gado. O especialista sinalizou a inevitável mudança de hábitos alimentares, no futuro, um desafio. Com maior demanda também crescerão as emissões. Por isso, nesse novo cenário, será preciso preservar o capital natural, preservando-se os recursos.

“Se entendem o que é preciso fazer para o clima por que não criar uma nova economia?”, questionou, sinalizando uma economia não mais centrada apenas no homem e no consumo. “Estamos comendo nosso planeta, literalmente”, afirmou, utilizando-se de uma metáfora para ilustrar o uso excessivo de recursos naturais. “Nós vamos conseguir sobreviver na Terra que sobrevive? O planeta será inabitável para o homem e outras espécies? Temos o direito de afetar o futuro das próximas gerações?”, indagou durante os debates.

Nesse sentido, para ele é preciso pensar na economia circular, apostar na inovação com o desenvolvimento de tecnologias apropriadas, além da criação de um mercado de carbono no Brasil. O economista enfatizou a importância da colaboração inovadora e afirmou que a economia verde deve ser liderada pelo setor empresarial. Ao mesmo tempo, sugeriu que cada setor crie suas metas e gerencie suas emissões.

Pavan Sukhdev também analisou que a questão tributária deve ser avaliada, como faz o G20 atualmente, e que os países integrantes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) são a nova economia e devem ter foco na infraestrutura e aproveitar as oportunidades que surgem diante desse novo cenário.

Como consultor especial e chefe da Green Economy Initiative da Unep, Pavan produziu o Relatório TEEB (The Economics of Ecosystems & Biodiversity), referência internacional, além do Relatório da Unep Towards a Green Economy. É autor de Corporation 2020; liderou campanha homônima na Rio+20. Pavan integrou o setor bancário alemão (diretor da Divisão de Mercados Globais no Deutsche Bank).

Reunião na Fiesp com a participação de Pavan Sukhdev. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Britânico referência mundial em mudança do clima visita Fiesp e conhece documento de posicionamento da entidade

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O representante especial para mudança do clima do Ministério das Relações Exteriores britânico, sir David King, referência mundial na área, encontrou-se com diretores da Fiesp e integrantes do Comitê de Mudança do Clima da entidade, na terça-feira, 29.

Ao afirmar que trabalha em tempo integral, como uma espécie de embaixador do clima, contabilizando visitas a mais de 70 países nos últimos dois anos, King lembrou que quer melhorar a interlocução entre as nações. A Grã-Bretanha tem preocupação central com o clima, pois está cercada pelo oceano, e a elevação do nível do mar, aliada a tempestades, levará a consequências graves. “É preciso entender a natureza desse desafio”, disse, reforçando que o Reino Unido tem realizado um intenso trabalho para migrar de uma economia com base em combustíveis fósseis para uma economia de baixo carbono.

Segundo King, “hoje empregamos mais energia renovável e a indústria está se reposicionando para entrar neste novo mundo”, explicando que o setor automotivo, por exemplo, fez uso da tecnologia e incentivos proporcionados por políticas públicas, como a de isenção de taxas para carros elétricos na Grã Bretanha, para adaptação às ações planejadas para a redução de gases de efeito estufa (GEE).

King revelou que se estabeleceu forte diálogo com a Confederação Britânica da Indústria, especialmente sobre o uso da energia elétrica e da água para determinar qual modelo energético se quer no futuro, exemplificando que o custo da energia eólica está em 110 libras (cerca de R$ 650) por megawatt-hora (MWh), com valor decrescente, enquanto a nuclear sobe cada vez mais.

Reunião na Fiesp com a participação de David King, representante especial para mudança do clima do Ministério das Relações Exteriores britânico. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Destacou ainda que se deve considerar que pequenas usinas nucleares são mais rápidas de ser construídas e com melhores requisitos. “Por isso combinar nuclear com as intermitentes é uma boa saída”, lembrando que as nucleares hoje estão mais seguras.

“O setor de renováveis cresce exponencialmente, e o Brasil tem mais recursos renováveis por pessoa do que o meu país. Vocês vão conseguir exportar”, sentenciou. Quanto ao mercado de carbono, David King lembrou que por volta de 2005, 29 nações o integraram, mas houve duas tentativas frustradas. O preço da tonelada caiu de 20 euros para 10 em função do desaquecimento da economia que levou inevitavelmente à queda das emissões de GEE. “A função principal é a regulação que cada país pode criar e não o mercado de carbono em si”, disse.

Nelson Pereira dos Reis, diretor de meio ambiente da Fiesp e integrante do Comitê de Mudança do Clima da entidade, disse que uma das grandes discussões que se faz, no Brasil, é a flexibilização do mercado de carbono e a taxação. Reis também enfatizou o forte engajamento do governo brasileiro e do setor privado no combate à mudança do clima.

O brigadeiro Aprígio Azevedo, diretor executivo de projetos da Fiesp, apresentou ao representante britânico os principais pontos do documento de posicionamento da Fiesp para a COP21, entregue aos Ministérios de Relações Exteriores e de Meio Ambiente, em consonância, inclusive, com a InDC brasileira anunciada recentemente. Pontos como transferência de tecnologia e mecanismos de financiamento foram ressaltados. Na análise de King, a transferência de tecnologia é tema relevante e deve ser tratado globalmente. Ele ainda frisou que as universidades precisam apostar em pesquisa que efetivamente chegue ao chão de fábrica.

Há grande expectativa por parte de todos os países em torno de um futuro acordo na Conferência do Clima, a COP21, que será realizada no final do ano, em Paris, para limitar o aumento da temperatura abaixo dos 2ºC até o final do século.

David King também preside o Conselho do Future Cities Catapult, centro de excelência e inovação do Reino Unido que busca soluções inteligentes para as cidades. Químico, tem passagens pelas universidades de Oxford e Cambridge. Também foi assessor-chefe para Ciência do Reino Unido entre 2000 e 2007.