Inadimplência não justifica spread alto, mostra levantamento da Fiesp

Agência Indusnet Fiesp

Estudo do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp (Decomtec) sobre a evolução do spread bancário (diferença entre taxa de captação e empréstimo) e as ações em relação a ele anunciadas pelo Banco Central são tema de reportagem publicada nesta terça-feira (21 de março) pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O levantamento mostra que a taxa de spread bancário no Brasil é a mais alta do mundo. Em 2015, o spread médio brasileiro foi de 31,3 pontos percentuais (p.p.), contra 1,9 p.p, em média, de países comparáveis. O spread brasileiro é 16,4 vezes maior.

Além de destacar o nível de spread, a pesquisa desmonta os argumentos de que ele se deve principalmente à inadimplência e ao crédito direcionado.

Clique aqui para ter acesso ao estudo completo sobre o spread bancário no Brasil.

Ainda controlada, inadimplência na indústria ameaça subir

Patrícia Ribeiro e Lúcia Rodrigues, Agência Indusnet Fiesp

Pesquisa produzida pelo Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp) mostra que 85,6% das empresas que têm financiamento de longo prazo estão adimplentes. Mas há um sinal amarelo: 18,5% delas acreditam que podem não conseguir realizar os pagamentos do financiamento este ano.

Cláudio Miquelin, diretor do Departamento da Micro, Pequena e Média Indústria (Dempi) da Fiesp, vê como problema a mudança frequente do quadro do país. “Pode ser que em 15 dias o panorama mude”, alerta Miquelin. “Atravessamos um momento sem expectativa de futuro.”

Segundo 39,5% das empresas entrevistadas, a redução das taxas de juros é a principal ação para ajudá-las a se tornar ou permanecer adimplentes este ano nos financiamentos de longo prazo. Para as empresas já inadimplentes se tornarem adimplentes a solução é a negociação do valor devido, dizem 30,8% dos entrevistados.

Das empresas com financiamento de longo prazo, 13,7% indicaram que estão inadimplentes. Este percentual é muito maior entre as empresas de menor porte: 25,6% das microempresas e 19,8% das pequenas empresas afirmaram que estão inadimplentes.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1539611427

Seminário no Dempi sobre financiamentos de longo prazo. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Acreditam que podem não conseguir realizar os pagamentos do financiamento de longo prazo este ano 23,2% das empresas. Esse percentual é maior entre as microempresas (35,9%) e pequenas empresas (33,0%).

A pesquisa “Rumos da Indústria Paulista” tem como objetivo identificar a utilização de financiamento de longo prazo pela indústria paulista e as dificuldades para realizar os pagamentos em 2015. Os dados foram coletados entre os dias 17 de junho e 3 de julho de 2015 de 506 indústrias do Estado de São Paulo.

Mais da metade das empresas (56,1%) que responderam à pesquisa têm algum financiamento de longo prazo no momento, sendo o percentual alto mesmo entre as microempresas (40,6%). O principal motivo do financiamento é a aquisição de máquinas e equipamentos (82,4% das empresas que têm algum financiamento de longo prazo), e as principais modalidades de financiamento utilizadas são o Finame (60,6%) e o Cartão BNDES (38,4%).

Segundo Miquelin, é fundamental que as empresas estudem muito bem as propostas de mercado. “Com a atual situação econômica, é importante um olhar mais global da situação da sua empresa. Para as que estão adimplentes, a menor taxa de juros ajudaria; para as que estão inadimplentes é a renegociação do valor devido; para as que acreditam que podem não conseguir realizar os pagamentos este ano é a concessão de meses de carência”, conclui.
>>Ouça boletim sobre a pesquisa

‘É importante o governo fazer tudo o que puder, pois o Brasil não pode esperar’, diz Skaf à Rede TV

Agência Indusnet Fiesp

Imagem relacionada a matéria - Id: 1539611427

O jornalista Kennedy Alencar entrevista o presidente da Fiesp/Ciesp, Paulo Skaf (no centro), e o ex-presidente do BC, Gustavo Loyola (à direita), no programa Tema Quente, da Rede TV

O presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), Paulo Skaf, participou na noite desta quinta-feira (26/07) do Programa Tema Quente, da Rede TV, apresentado pelo jornalista Kennedy Alencar, no qual debateu as perspectivas da economia brasileira com o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola.

Logo no início do programa, Skaf afirmou não enxergar possibilidades de recuperação da economia brasileira, ainda este ano, para fechar 2012 com o crescimento de 4%, conforme estimativa do governo federal. “Não há sinais dessa recuperação e não se trata de otimismo ou pessimismo, mas estou extremamente preocupado com a competitividade brasileira, já que os custos aqui são muito altos”, afirmou.

Sobre o pacote de medidas adotado pelo governo para aquecer a atividade industrial, o presidente da Fiesp/Ciesp disse que houve melhorias, mas aquém da necessidade. “Creio que algumas coisas fortes precisam acontecer para que a gente consiga acreditar na retomada do crescimento com mais vigor”, argumentou, explicando que o empenho do governo é fundamental nesse sentido.

“Tudo aquilo que o Estado, o governo tiver recursos e condições de fazer, é importante que se faça. O Brasil não pode esperar. Nós temos um atraso muito grande na infraestrutura, aeroportos, portos, estradas, ferrovias, energia […] Então é muito certo pensar em o governo fazer tudo o que puder fazer, e aquilo que não puder fazer, ele dá concessão ao setor privado”, acrescentou.

O presidente da Fiesp/Ciesp também falou sobre juros, competitividade, inadimplência, alongamento de prazo para recolher impostos e energia.

Assista à íntegra do debate nos seguintes links: Bloco 1  , Bloco 2 e Bloco 3 .

Leia os principais trechos da participação de Skaf no debate:

Redução de taxas
O governo poderia adotar medidas mais enfáticas para a redução das taxas de juros no Brasil. A taxa Selic está em 8%, mas nada impede que ela abaixe ainda mais. Ainda há um caminho a percorrer em relação à taxa básica. Quanto aos créditos bancários, é preciso aumentar a concorrência, aprovar o cadastro positivo e facilitar a portabilidade de contas de um banco para outro que ofereça melhores vantagens.

Concessões
Sou contra as concessões [como o modelo adotado para os aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília] quando o governo passa a cobrar um preço alto da população. O que nós precisamos é de serviço de qualidade e com o menor preço. Isso é o que interessa para as pessoas.

Demanda
Quem estimula o investimento é a demanda. Ninguém investe em coisa nenhuma se não tiver demanda, se não tiver cliente. Por isso, nós não temos que ter medo da demanda. Primeiro vem a demanda, que o puxa investimento e traz riquezas, geração de empregos, de impostos. Este é o ciclo virtuoso de desenvolvimento do país, dando oportunidades a toda a população.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1539611427

Paulo Skaf e o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, debatem perspectivas da economia brasileira

Custo de energia
Questões conjunturais como o custo de energia prejudicam a competitividade nacional. Nós temos o privilégio no Brasil de ter 80% da nossa matriz energética de hidroelétrica – a forma mais barata do mundo de se produzir energia. No entanto, o nosso preço é o terceiro mais caro do mundo para indústria, para os hospitais, para residências e para todos os brasileiros. A proposta [a redução de 10% nas tarifas de energia] apresentada pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, é positiva, mas o que nós temos que discutir não é prorrogar contrato [de concessões, que vencem em 2015], porque a prorrogação fere a constituição. Precisamos de novos leilões. Os novos leilões vão fazer baixar o preço da geração, da transmissão e da distribuição de energia, e isso refletirá em desconto na conta de luz de todos os brasileiros de até 20%.

Reforma tributária
As reformas estruturais do país têm que acontecer. E uma reforma tributária não tem de atender nem a empresários nem a governos federais ou estaduais, ou atender setores A ou B. Tem de atender ao interesse maior do país, ao interesse maior das pessoas dentro de um equilíbrio. Que ela venha simplificar, agilizar e baratear. Sempre que se discute [esse tema], acabam aparecendo situações que possam até [mesmo] aumentar o volume de impostos, a carga tributária, e não resolver a questão da burocracia. Aí as coisas não caminham. O que é necessário, realmente, é que haja discussão no governo. Nós vivemos num país presidencialista. Uma reforma tributária tem que ter a disposição, a decisão política do Planalto. E normalmente não se faz isso fora do primeiro ano de mandato. Quando sai das eleições, no início de um governo tem de se promover as reformas estruturais porque depois vai para o segundo ano, terceiro ano, aí já vem um clima de pensamento na eleição e aí as coisas vão se desgastando. Então, lamentavelmente, essas reformas estruturais não aconteceram até agora, mas o Brasil precisa da reforma tributária e outras reformas estruturais, e até lá vai se lutando.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1539611427

Paulo Skaf, presidente da Fiesp/Ciesp: 'Precisamos de serviço de qualidade e com o menor preço. Isso é o que interessa para as pessoas

Batalhas em questões tributárias
Nós tivemos a grande batalha contra a recreação da CPMF [Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira] em 2007 e que foi uma conquista da sociedade brasileira, diminuindo 1,5% do PIB [Produto Interno Bruto] de impostos. Na época, era o que pesava a CPMF. Agora temos a questão da Resolução 72, que se transformou em Resolução 13, que passou o ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] da origem para o destino no caso de produtos importados. Temos que estender isso para os produtos brasileiros também, é uma parte da reforma tributária. Enfim, vai ter de buscar alternativas, mesmo que sejam fatiadas, até que entre um governo e, logo nos primeiros seis meses, promova reformas estruturais, não vendo interesses pontuais de ninguém, e sim o interesse maior do país, com busca de um equilíbrio que atenda a todos da melhor forma possível.

Gestão pública
Eu concordo que o problema não é dinheiro. Todo mundo pensa que é dinheiro, mas não é. Porque se tem previsões orçamentarias que muitas vezes não são cumpridas durante o ano, também não há duvida nenhuma que temos um problema de gestão da coisa pública. Então, com um choque de gestão no sentido de eliminar desperdícios, aumentar eficiência, apareceria recursos. Então eu vejo que a palavra-chave é gestão, é desburocratizar, é simplificar, é fazer as coisas com competência e seriedade. E aí, muita coisa se faz e não aparece necessidade de dinheiro.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1539611427

Skaf: 'No curto prazo, o governo precisa ampliar o prazo para recolher os impostos'.

Medidas em curto, médio e longo prazo
Eu concordo que os investimentos são aquém do que o Brasil precisa. Precisa aumentar esses investimentos, sejam públicos ou privados, através de concessões, enfim, de qualquer forma. E também concordo que temos um grave problema, aqui no Brasil, hoje, de custo. Isto tem de ser combatido. Nós falamos da energia, por exemplo, mas tem o gás. O milhão de BTU, aqui no Brasil, custa US$14; nos EUA é U$ 2,5. Então o gás é seis vezes mais caro no Brasil. Quer dizer, energia cara, gás caro, juros altos, logística cara e a educação – que abraça tudo isso, já que você precisa, realmente, ter educação de qualidade, dando oportunidade às pessoas, e você não pode pensar em um crescimento sustentável sem ter qualidade de educação no país. Isso tudo precisa ser tomado providência. Agora, são medidas de médio, longo prazo. No curto prazo, o governo precisa ampliar o prazo para recolher os impostos. Essa é uma medida justa, linear, horizontal, que abrangeria a todos e seria justa porque os prazos se reduziram. E hoje a indústria, por exemplo, financia o governo em 50 dias. Ou seja, entre o prazo que recebe do seu cliente e paga o imposto, além da alta carga tributária, ainda paga e financia o governo. Então precisamos resolver esse problema.

Inadimplência
O cenário é preocupante pois, não há dúvidas, um grande percentual da renda familiar já está comprometido com as dívidas. O financiamento da fatura de cartão de crédito, bem como o cheque especial, vem com juros altíssimos: 10% ao mês para uma inflação de 4,45%. É um roubo. Isso também ajuda a inadimplência. A situação não está nada catastrófica, mas a inadimplência está concentrada em crédito ruim, de juros absurdos. Não se pode estimular a população a parar de consumir, porque isso seria ruim para a economia. Mas é necessário ensiná-la a fazê-lo com equilíbrio. A responsabilidade do equilíbrio está no nosso cotidiano e também deve estar nas contas assumidas pelas famílias e empresas.