Entrevista: Social Good Brasil e a Inovação de Impacto Social

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Por Karen Pegorari Silveira

A inovação com impacto social é uma necessidade no Brasil e, segundo a jornalista do Movimento Social Good Brasil, Camila Ignacio Geraldo, existem diversas formas de organizações, sejam elas grandes ou pequenas, proporcionarem impacto social e ambiental positivos.

Confira na íntegra desta entrevista as dicas do Movimento para quem deseja ser um inovador social:

Como organizadores do movimento Social Good Brasil, vocês conheceram muitos modelos de negócios socialmente inovadores. Podem nos contar quais foram os modelos que mais chamaram sua atenção nestes últimos anos?

Camila Geraldo – Por fazer parte de um meio de impacto social que valoriza muito a inclusão e a colaboração, organizações que seguem o conceito do “Novo Poder” para gerar impacto social têm chamado muita nossa atenção. A teoria do “Novo Poder” foi desenvolvida por Jeremy Heimans e Henry Timms, autores que palestraram no Festival Social Good Brasil 2018, e trata sobre o desenvolvimento de um poder participativo e descentralizado, que já está sendo possível em nossa sociedade hiperconectada.

Vou dar alguns exemplos sobre o que é esse modelo de negócio. Até agora, a maior parte das organizações seguem um modelo onde elas possuem total controle das informações e recursos dentro das empresas. No novo poder, principalmente através de ferramentas e engajamento online, as iniciativas e organizações podem ser inteiramente participativas, onde seu controle e seus produtos são compartilhados em rede. Um exemplo é o Avaaz, organização fundada por Jeremy Heimans, que mobiliza campanhas instantâneas relacionadas a crises acontecendo em qualquer lugar do mundo. Ou seja, o modelo que mais nos chamou atenção nos últimos tempos são as organizações e iniciativas que usam toda a potencialidade mobilizadora e participativa das tecnologias para o bem da comunidade.

Conhecendo os empreendedores sociais, vocês puderam observar as principais dificuldades que eles enfrentam para inovar no Brasil. Podem citar as mais frequentes?

Camila Geraldo – A dificuldade continua sendo a sustentabilidade financeira dos negócios, que atenda aos objetivos de impacto social e que também rentabilize para o negócio girar. Muitos empreendedores sociais têm ideias incríveis e desenvolvem soluções que combatem desafios históricos em nossa sociedade, mas não conseguem monetizar de fato suas empresas ou organizações. As dificuldades para inovar esbarram nas dificuldades em estruturar equipes e manter as organizações em crescimento.

Um desafio que as organizações também possuem é o de mensurar seu impacto e resultados com assertividade para tomar decisões mais inteligentes e atrair investimentos. Estamos vivendo na era da informação, portanto os empreendedores sociais devem começar a utilizar a ciência de dados e desenvolver mindsets analíticos. O setor privado, visando lucro, faz isso há um bom tempo. Nós, do SGB, estamos acompanhando essa tendência de inovação e trazendo para o mundo dos negócios de impacto essa inteligência por meio do Laboratório SGB. Em nosso programa, iniciativas de impacto social são capacitadas para amadurecer seu trabalho com dados – e esse é o caminho para inovar no setor.

Em contrapartida, quais são os principais benefícios para quem empreende nesta área?

Camila Geraldo – As iniciativas e organizações de impacto social estão cada vez mais valorizadas, recebendo mais investimentos e chamando a atenção de grandes players. No entanto, o que sempre vai mover os empreendedores sociais é utilizar seus conhecimentos e produtos com um propósito maior do que simplesmente receber lucro e reconhecimento. Claro que os empreendedores sociais perseguem isso, mas ao mesmo tempo seus negócios e ideias são aplicadas no país para uma melhoria de um problema social e/ou ambiental, fazendo com que seus trabalhos se misturem com cidadania e responsabilidade social e coletiva.

Vocês acreditam que qualquer empresa pode ser socialmente inovadora? Como? Isso serve para o micro e pequeno negócio também?

Camila Geraldo – Claro. Existem diversas formas de organizações, sejam elas grandes ou pequenas, de proporcionarem impacto social e ambiental positivos. E isso já comprovou que, além de valorizar as marcas das empresas, também motiva seus colaboradores.

Pequenas empresas podem adotar o modelo one-for-one, por exemplo. Recentemente demos uma palestra no RD Summit ao lado da Usina do Hamburguer, pequeno negócio de Florianópolis que utiliza esse modelo e está sendo regionalmente reconhecida por isso. Em uma determinada época do mês, a cada hambúrguer vendido pela Usina, um sanduíche é enviado para organizações sociais da cidade. O resultado disso é lindo e leva alegria para muitas pessoas.

Se micro negócios podem ter impacto positivo, médios e grandes mais ainda. Desenvolver ou apoiar iniciativas, implementar áreas de responsabilidade social ou estimular seus colaboradores a serem agentes de transformação social. As possibilidades de empresas de qualquer setor proporcionarem ações positivas para a sociedade são gigantes.

Especificamente para o setor industrial, que faz uso intensivo de mão-de-obra e tem o desafio de incorporar cada vez mais tecnologia, vocês vêm espaço para o empreendedorismo social?

Camila Geraldo – Vemos muito espaço. Já trago aqui três possibilidades: (1) apoiar projetos externos à organização, (2) apoiar o ecossistema para o surgimento de novos negócios e (3) fomentar o empreendedorismo social entre os seus colaboradores e/ou cadeia de fornecimento. Vou exemplificar com cases reais:

(1) apoiar projetos externos à organização:

Instituto Intercement, que é braço social da Intercement, indústria de cimento: Eles investem no Vivenda que é um negócio de impacto voltado para o melhoramento de moradias de baixa renda.

(2) apoiar o ecossistema para o surgimento de novos negócios

Instituto Sabin, que o braço social da Sabin, indústria no setor da saúde: Eles apoiam o fortalecimento do campo de negócios de impacto do país. Eles ofereceram em nosso Laboratório SGB uma bolsa para iniciativas de saúde participarem do nosso Laboratório.

(3) fomentar o empreendedorismo social entre os seus colaboradores e/ou cadeia de fornecimento

Movimento Natura: Eles fomentam o empreendedorismo social entre as consultoras Natura, gerando rentabilidade e impacto social no país.

Quais são os setores em que há mais espaço para inovação social no Brasil?

Camila Geraldo – Podemos dizer que alguns setores estão em destaque devido a atual conjuntura nacional e internacional: iniciativas que atuam com internalização de refugiados e direitos humanos, ideias que democratizam a melhorem a educação, soluções para problemas de escassez de água e distribuição de alimentos. Mas isso não significa que outros setores sejam menos reconhecidos.

A partir da vivência na organização de um reconhecido Movimento da área de inovação, qual conselho vocês dariam para quem deseja ser um empreendedor social inovador?

Camila Geraldo – Tenha empatia. Reconheça os seres humanos que serão impactados por suas iniciativas e programas, agindo sempre com responsabilidade. Faça um esforço consciente para colocar-se no lugar de outras pessoas para reconhecer sua humanidade, individualidade e perspectivas. As tecnologias não podem substituir a consciência dos seres humanos, mas devem se tornar uma maneira de ampliar e escalar soluções para uma sociedade melhor. Tenha paixão, coragem e provoque o status quo. Motive-se a consertar algo que está errado, não desista se tiver medo e sempre questione o status quo – entenda como as coisas funcionam e como poderiam funcionar. Crie, faça e experimente. Faça testes de hipóteses, tentativas, prototipagens.