Seminário debate oportunidades para os imigrantes na Fiesp

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Acolher, tendo em mente que o país tem muito a ganhar com a chegada dos imigrantes. Esse foi o principal mote do Seminário Nova Lei de Migração: uma janela de oportunidades, realizado na manhã desta sexta-feira (20/07), na sede da Fiesp, em São Paulo. O evento reuniu especialistas no tema, tendo a participação da diretora titular de Responsabilidade Social e vice-presidente do Conselho Superior de Responsabilidade Social da federação, Grácia Fragalá.

O Pacto Global foi um parceiro da Fiesp na realização do seminário. O Pacto tem por objetivo de mobilizar a comunidade empresarial internacional para a adoção, em seus negócios, de valores internacionalmente aceitos nas áreas de direitos humanos, relações de trabalho, meio ambiente e combate à corrupção. 

“Vários levantamentos mostram a importância de receber os refugiados, destacando como isso é benéfico para os países que abrem as suas portas”, afirmou. “A vinda dos imigrantes traz diversidade e oxigena a economia, estamos falando de acolher seres humanos”, disse.

Para Grácia, ter um imigrante no quadro de funcionários é “proporcionar intercâmbio internacional pela convivência e pela aprendizagem”. “Vamos ajudar em campanhas educativas sobre a lei para diminuir a resistência em torno do tema”, disse. “Somar esforços para um cenário que é realidade hoje no país”.

Também presente na abertura, a chefe do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Maria Beatriz Nogueira, afirmou que existem mais de 68 milhões de pessoas em situação de deslocamento involuntário no mundo, dos quais 25 milhões de refugiados. “Estamos falando de uma situação de urgência”, disse. “É uma necessidade e uma característica do Brasil receber quem vem de fora”.

Segundo ela, mais de 1,5 milhão de venezuelanos já saíram de seu país, a maioria para a América do Sul e América Central. Desses, 50 mil vieram para o Brasil. “Muitas razões fazem as pessoas saírem”, explicou. “O governo brasileiro tem foco na abertura de fronteiras e na acolhida humanitária”, disse. “Com o direito de trabalhar e usar serviços públicos”.

Questão de estratégia

“É estratégico que os imigrantes sejam integrados à sociedade”, disse.  “Trabalhamos para dar mais visibilidade a essas boas experiências, estamos estudando criar uma plataforma para divulgar as ações das empresas que vivem esse trabalho de inclusão”.

Analista de Paz e Governança do Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento da PNUD, Ana Cristina Silva Barroso destacou o trabalho feito com os venezuelanos no norte do país, visando a inserção social e o emprego. “É fundamental que fechemos parcerias para ajudar essas pessoas”, disse.

Subchefe de Articulação e Monitoramento da Casa Civil/Presidência da República, Natália Marcassa de Souza lembrou que os venezuelanos começaram a chegar ao Brasil no final de 2016.

“Eles vão principalmente para Boa Vista, capital de Roraima, já são 10 mil venezuelanos lá”, disse.

De acordo com Natália, com a chamada Operação Acolhida, o governo decidiu federalizar e centralizar as iniciativas ligadas aos imigrantes. “Os imigrantes querem dignidade e oportunidade de trabalhar, não caridade”, explicou. “A interiorização é o caminho, levar para outras cidades, sempre buscando sensibilizar as empresas, buscando parceiros”.

O seminário: acolher os imigrantes é opção estratégica para os países. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Com taxa de imigração abaixo do normal, Brasil se mostra fechado para estrangeiros, reconhece ministro da SAE

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Marcelo Neri: é preciso haver uma mudança de cultura em relação às mudanças na política imigratória. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Dos cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil, 600 mil são estrangeiros com residência fixa no país, o equivalente uma taxa de 0,3% de imigração, enquanto a média mundial é de 3%. Para o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), Marcelo Cortes Neri, a cifra indica que somos “um país mentalmente fechado”. Ele participou nesta quarta-feira (12/06) do seminário “Política Migratória, Produção e Desenvolvimento”, organizado em conjunto pela Eurocâmaras e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Segundo Neri, para atingir um padrão mais perto do “normal” nesse campo o país teria que atrair ao menos seis milhões de estrangeiros para o seu mercado de trabalho a longo prazo. “O país não aguentaria isso num curto intervalo, mas pode ser um número interessante para se pensar”, ponderou.

O ministro acredita que o principal desafio para atrair mão de obra estrangeira envolva uma mudança de cultura a esse respeito na sociedade brasileira. “É difícil mudar a mentalidade… Nós queremos ser uma sociedade aberta? Por que não ser uma sociedade aberta?”, indagou.

De acordo com informações da SAE, mais de um terço da população imigrante do Brasil está cima da faixa dos 65 anos.  Para Neri, atrair trabalhadores estrangeiros é positivo para a economia do país porque ajudaria a eliminar gargalos de mão de obra e fortaleceria a produtividade das empresas.

Ricardo Paes: estratégia brasileira é trazer o máximo possível de estrangeiros. Foto: Everton Amaro/Fiesp

O secretário da SAE, Ricardo Paes de Barros, afirmou que o Brasil levaria 25 anos para chegar à média mundial de 3% de imigração se adotasse o ritmo do Canadá, no qual cerca de 250 mil estrangeiros ingressam por ano. No Brasil, não seria a mesma coisa. “A estratégia brasileira é trazer o máximo possível de estrangeiros. Essa é a meta.”

Segundo Barros, já existem propostas de política imigratória se transformando em regulamentações e em mudanças na legislação. “O Conselho Nacional de Migração já modificou várias regras, como, por exemplo, a de poder ter, no prazo de 30 a 60 dias, alguém trabalhando no Brasil sem pré-aprovação. Já é um avanço fantástico”, afirmou o secretário. “Tem um projeto de lei de politica imigratória em tramitação no congresso”, acrescentou.

Thomaz Zanotto: escassez de mão de obra não é fácil de resolver. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

O diretor-titular adjunto do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, Thomaz Zanotto, manifestou o apoio da entidade às propostas da SAE. Ele acredita que a escassez de mão de obra não seja um “gargalo fácil de resolver”. “Se existem pessoas bem preparadas e sem emprego em outros lugares, podemos aproveitar essa oportunidade”, observou Zanotto.