Qualidade da internet brasileira é falha, dizem especialistas no 5º Encontro de Telecomunicações da Fiesp

Guilherme Abati, Agência Indusnet Fiesp

A aferição da qualidade pelo usuário e a defesa dos direitos do consumidor de internet foi tema do painel que reuniu especialistas, acadêmicos e representantes de associações civis durante o 5º Encontro de Telecomunicações da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nesta quinta-feira (07/08), no hotel Unique, na capital Paulista. O painel foi presidido por Flávia Lefrève, diretora do Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da Fiesp.

Mariana Alves, representante do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), falou sobre a péssima qualidade do serviço de internet oferecido pelas operadoras brasileiras.  “Atualmente, todos nós somos dependentes da internet, que por sinal alterou o comportamento de consumo, redimensionando o papel do consumidor”, disse.

Mariana: "internet alterou o comportamento de consumo, redimensionando o papel do consumidor". Foto: Everton Amaro/Fiesp

Mariana, do Idec, explicou que a internet redimensionou o papel do consumidor. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Mariana destacou a atuação do Idec. “É uma associação civil, mantida pelo pagamento de anuidade de associados. O que nos dá independência na hora de defender o consumidor”, resumiu. “Além disso, fazemos campanha estimulando a percepção da necessidade de uma coletividade unida em prol da defesa da comunidade”.

A gerente citou uma pesquisa publicada em 25 de julho deste ano, a qual estudou os serviços de internet no mundo todo. “O Brasil conseguiu apenas o 73º lugar em termos de velocidade média na internet, com dois megabytes por segundo, mesmo sendo o oitavo país que mais gera trafego na rede mundial”, afirmou.

Velocidade contratada X velocidade recebida

“Existe uma incoerência entre o que é ofertado é o que de fato o usuário recebe. O Idec entrou com ação pública em janeiro 2010, após saber que apenas 40% do ofertado era de fato recebido pelo usuário”, afirmou. “As propagandas de internet são falsas e enganam os usuários”, afirma.

Em março de 2010, a associação conseguiu uma liminar, a qual obrigava as empresas a divulgarem que a velocidade entregada era variável. “Lutamos ao lado da Agência Nacional de Telecomunicação (Anatel) para a definição de parâmetros mínimos de qualidade”.

Lá fora, diz ela, a realidade é outra. “Nos Estados Unidos, a mais baixa velocidade detectada em relação à ofertada foi de 78%. Nossos parâmetros de qualidade são muitos baixos”.

O que é qualidade?

Fabrício Tamusiunas, da NIC.br, um entidade privada responsável pela execução de projetos de internet, que realiza pesquisas com indicadores e segurança de redes, falou sobre as múltiplas variáveis que precisam ser consideras quanto à qualidade de internet.

Tamusiunas: muitas variáveis a serem consideradas na medição de qualidade. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Tamusiunas: muitas variáveis a serem consideradas na medição de qualidade. Foto: Everton Amaro/Fiesp


“Se você contratou dez megas e não recebe dez, o serviço não tem a qualidade esperada. Mas a qualidade envolve mais coisas além de banda disponível”, explicou.

Tamusiunas convidou os presentes à palestra a visitar o site simet.ni.br/mapas, que mostra a qualidade da internet, levando essas questões em consideração, a partir de muitas localidades do Brasil. “Nota-se, pelo mapa, que os melhores resultados estão, obviamente, nos grandes centros urbanos. Mas ela é muito inferior à ofertada pelos operadores”, encerrou.

Modelo errado gera prejuízos

O pesquisador Sérgio Amadeu da Silveira, da Universidade Federal do ABC, fechou o painel. “O modelo de negócios da telecomunicação que temos aceitado dentro da engenharia de telecomunicações é responsável pelos serviços péssimos de internet”, disse.

Para o pesquisador, discutir a qualidade de banda larga na atual sociedade é vital. “O Brasil precisa se atualizar quanto à estrutura de telecomunicação. Não vivemos mais em uma sociedade industrial”, afirmou.

Para Silveira, as operadoras e seu atual modelo de negócio são incompatíveis frente às necessidades sociais, políticas e econômicas das demandas do nosso país.

“Nós não temos internet em pontos vitais da maior cidade da América Latina. A nossa infraestrutura de telecomunicações precisa se preparar para o consumo estratosférico de bytes que teremos em muito pouco tempo”, alertou.