Em reunião na Fiesp, presidente do Conselho da Anahp fala sobre impacto do envelhecimento da população brasileira

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Francisco Balestrin, presidente do Conselho da Anahp. Foto: Divulgação

Atendendo ao convite do coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva da Bioindústria (BioBrasil) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Ruy Baumer, o presidente da Associação Nacional de Hospitais Privados, Francisco Balestrin, participa das reuniões de coordenação do Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde (Comsaude) da entidade, representado o setor de Hospitais.

Na reunião desta segunda-feira (7/10) foi apresentado aos demais membros do Comsaude um panorama dos conteúdos tratados no 2º Congresso Nacional de Hospitais Privados, ocorrido entre os dias 2 e 4 de outubro, em São Paulo, sob o tema “Envelhecimento populacional e as repercussões na atividade hospitalar e na gestão da assistência”.

Em entrevista ao portal da Fiesp, Balestrin falou dos principais desafios que o Brasil precisará enfrentar diante dessa realidade e sobre as oportunidades que se abrem para a cadeia produtiva da saúde.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

Brasil não é mais um país jovem 

“O mundo vai mudar muito e as sociedades estão envelhecendo. Esse fato em si não é problema. É uma conquista. Porém, a grande questão é: como preparar a sociedade para conviver com as pessoas idosas e ao mesmo tempo prover para elas benefícios sociais, recreação, cuidados, saúde, lazer?”

“Na década de 1940, a expectativa de vida era em torno de 56 anos de idade. Hoje, é de 76. E tudo indica que logo o Brasil chegará a uma média de 80 anos.”

 

 

 

 

Questão que afeta a todos

“Quando falamos de envelhecimento, atendimento na urgência, mulheres tendo filhos mais tarde, necessidade de formação médica, enfim, tudo isso afeta a sociedade como um todo e também as instituições, tanto as públicas como as privadas.”

“As pessoas se aposentam, hoje, em torno dos 60 anos de idade e viverão mais 20 anos, continuando a receber sua aposentadoria. O Estado precisará repensar esse custo, pois deve prover toda a sociedade.”

 

 

 

 

Desafio 1: mudar a visão sobre o que é velhice

“A sociedade brasileira não está preparada com esse convívio longevo. O primeiro fator tem a ver com o financiamento e, basicamente, Previdência Social. As pessoas trabalham hoje com o mesmo pensamento que se tinha na década de 1950, quando foram feitas nossas leis trabalhistas. Elas se aposentam não por idade, mas por tempo de serviço.”

“Há pessoas se aposentando com 49 anos de idade e elas viverão por mais 30 ou 35 anos. E a sociedade irá custear essas aposentadorias. Então a primeira coisa que o Brasil precisa discutir é o que se entende como velhice.”

“No nosso país, um individuo é considerado idoso aos 60 anos de idade. Na Europa é aos 65 anos. E existem outros países mais desenvolvidos que estão pensando elevar isso para 70. A questão de previdência precisa rapidamente ser vista.”

 

 

 

 

 

Desafio 2: investir no lazer para não ter custos futuros

“Uma questão importante é a do lazer. As pessoas vão envelhecer e precisam ter uma vida de relacionamento. Então, o Estado ou entidades como a Fiesp e o Sesi [Serviço Social da Indústria] precisam de alguma forma promover situações para que essas pessoas tenham uma vida de relacionamento, de contato e que possam ter qualidade de vida.”

“Atualmente, os Estados Unidos têm como principal problema a demência. A sociedade norte-americana gasta cerca de 115 bilhões de dólares por ano com esse problema, o que inclui doenças como depressão, Mal de Alzheimer e todos os problemas que envolvem relacionamento. Veja o custo social desses cuidados que a sociedade tem que ter com essas pessoas.”

 

 

 

 

Desafios 3: custo com doenças do envelhecimento

“As pessoas vão envelhecer e chegar numa faixa etária em que terão as chamadas doenças crônicas não transmissíveis, como câncer, enfarte do miocárdio, derrames, entre outras.”

“Com o aumento do número de idosos, essas doenças trarão um novo custo de assistência, que será pago tanto pelo setor público como pelo privado. Isso envolve também a preparação de mais unidades hospitalares para atender a essas pessoas.”

 

 

 

 

 

Desafios 4: promover saúde

“A sociedade como um todo precisa promover saúde e condições para que as pessoas não venham a ter as doenças do envelhecimento”.

“Precisamos ter um sistema em que possamos fazer a promoção e a prevenção. Promoção é quando se fala de andar, fazer exercícios, comer com moderação,  não consumir álcool, abandonar o hábito do cigarro. Já a prevenção é quando se toma medicamentos, se faz exames.”

“Todos terão uma dessas doenças no futuro, mas se conseguirmos que as pessoas se cuidem mais, elas passarão por essa situação de outra forma.”

 

 

 

 

Desafios 5: cuidar dos jovens

“Combater problemas como obesidade infantil, a droga, a violência é importante, pois os jovens de hoje serão os idosos com problemas no futuro.”

“A gente não pode ter uma geração de pessoas de meia idade drogadas e alcoólatras, pois são essas pessoas que estarão fora do padrão no futuro. O governo vai gastar muito com isso e o setor privado também. Eu diria que esse é um dos aspectos fundamentais que a sociedade brasileira tem que cuidar.”

 

 

 

Desafio 6: inversão demográfica

“Até pouco tempo atrás, no Brasil, tínhamos um bônus demográfico, isto é, muitos jovens e poucos idosos. Os jovens sustentavam com seu trabalho os idosos. Mas essa pirâmide vem se invertendo.”

“Na década de 50 as mulheres tinham uma média de cinco filhos. Hoje essa média é 1,7. Isso significa que os casais não estão produzindo filhos para repor a população. Então, vamos chegar ao pior dos mundos: vamos ter uma população com poucos jovens, muitos velhos e uma sociedade pobre.”

“O Brasil vai atingir, em 30 anos, o mesmo número de idosos que a Europa atingiu em 100 anos. O pior é que os europeus conseguiram isso em um período em que enriqueceram, mas nós não. A cada ano, temos 150 novos centenários no estado de São Paulo. Pelo último Censo, foram registrados mais de 2 mil centenários. Veja como a sociedade está mudando.”

 

 

 

 

Novo campo de atuação para os hospitais

“Com a preocupação sobre o envelhecimento da população, o setor da saúde já está começando a trabalhar a promoção de saúde dentro dos hospitais.”

“Trouxemos o movimento ‘Hospitais que Promovem Saúde’ da Organização Mundial da Saúde (OMS) e seremos representantes aqui no Brasil desse movimento mundial. Os hospitais serão, portanto, promotores de saúde, com tudo que isso inclui. É uma nova área de trabalho para nós.”

 

 

 

 

O que deve mudar no futuro

“A instituição hospitalar vai se transformar numa visão vertical da sociedade que envelhece, vai cuidar desde o jovem até o final com todas as suas necessidades. Além disso, veremos a internação e os cuidados fora dos hospitais, seja com o homecare ou as chamadas internações não agudas, que são feitas não em hospitais, mas em centros de recuperação.”

“A arquitetura irá mudar muito também. Teremos que repensar os modelos de arquitetura para os hospitais e instituições. Os produtos terão que ser focados principalmente nos idosos, isto é, as camas, espaços, materiais e equipamentos deverão ser adaptados e com mais acessibilidade. Ou seja, isso repercutirá nas indústrias, por isso queremos tratar dessas demandas com as entidades de saúde e dentro da Fiesp.”

 

 

 

 

Formação de profissionais

“Haverá necessidade de formação de médicos, enfermeiros e outros profissionais com uma visão mais clara do que vem a ser o idoso e com um olhar mais humanitário e paciente dessas pessoas.”

“Os hospitais brasileiros de grande porte estão criando instituições de formação de profissionais com esse enfoque e esta também será uma nova área de atuação.”

 

 

 

 

 

Escassez de profissionais

“Quando falamos da necessidade de formar profissionais da saúde não devemos confundir com o Programa ‘Mais Médicos’, do Ministério da Saúde, pois ele é destinado a cuidar das chamadas regiões com vazio sanitário no Brasil. O programa tem um aspecto positivo, pois, teoricamente, esses médicos cuidarão de um perfil de população que está submetida a um conjunto de doenças infecciosas e de regiões muito pobres. Mas é um perfil de doenças muito diferente do que as que temos nas grandes cidades. Lá eles vão fazer saúde pública, promoção de saúde. Mas, o impacto disso só poderá ser medido ao longo prazo.”