‘A Madrinha Embriagada’: pela primeira vez, adolescentes de Ribeirão Preto assistem a musical ao vivo

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

“Eu odeio teatro”! A afirmação é feita em tom convicto. E não fica nisso: o autor da frase continua proferindo alguns deboches na sequência. Do outro lado, o público ri timidamente dos comentários dissimulados feitos por alguém naquele teatro escuro. Alguns são sobre a demora dos espetáculos, outros sobre o alto custo das peças, de modo que as risadas soam como forma de identificação.

Na medida em que as luzes se acendem, a plateia conhece o autor das reclamações e o seu apartamento, cenário de  “A Madrinha Embriagada”, musical que conta a história de Jane Valadão, uma atriz de estrondoso sucesso nos 1920 que decide abandonar a carreira para se casar. O espetáculo é uma realização da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP).

Aos poucos, o “Homem da Poltrona”, personagem interpretado por Ivan Parente, vai mesclando sua rabugice com seu outro lado: o de amante de musicais. A essa altura, ele já cativou o público jovem com as suas manias e o seu jeito inquieto. A história e as músicas dominam a cena na medida em que um disco de vinil, um LP, começa a girar em um antigo aparelho de som.

O primeiro encontro 

Para quatro adolescentes de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, o primeiro encontro com “A Madrinha Embriagada”, adaptação de Miguel Falabella para “The Drowsy Chaperone”, foi especial. Todos são alunos do Sesi-SP na cidade.

João Victor Souza Gabriel tem 16 anos e foi um desses espectadores. Ele conta que sentiu mais emoção no teatro musical do que em outras peças que já assistiu. E  elegeu seu preferido da história.

João Victor: identificação com o Homem da Poltrona em "A Madrinha Embriagada". Foto: Julia Moraes/Fiesp

João Victor: identificação com o Homem da Poltrona em "A Madrinha Embriagada". Foto: Julia Moraes/Fiesp


“Foi bem diferente porque expressa muito mais o sentimento do artista”, disse. “Gostei de vários personagens, mas, com o ‘Homem da Poltrona’ eu acabei me identificando mais”, disse. Uma reclamação: “musicais infelizmente não fazem parte do nosso dia a dia porque são muito caros”.

Vinícius: amizade mostrada na peça foi destaque para o estudante. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Vinícius: amizade mostrada na peça foi destaque para o estudante. Foto: Julia Moraes/Fiesp

O colega de escola de João Victor, Vinicius Zolla, de 16 anos, também assistiu pela primeira vez a um teatro musical e gostou principalmente de uma cena de sapateado no espetáculo. Ele também se identificou com o personagem Jorge, amigo do noivo e organizador da festa de casamento.

“Ele faz de tudo para o casamento dar certo. Essa amizade é bem legal”, afirmou.


Priscila: emoção vista e sentida de perto. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Priscila: emoção vista e sentida de perto. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Alternando conversa com “chororô”, a estudante Priscila Domenichelli, de 16 anos, contou sobre sua primeira vez assistindo um musical ao vivo. “Não é como um filme, é algo que você vê de perto. Você consegue se emocionar muito fácil em todas as cenas”, contou, usando as mangas do agasalho para enxugar as lagrimas.

Já Gabriela Domenichelli Zanello, 16 anos, prima de Priscila, contou que ficou intrigada durante o espetáculo. “As pausas para os comentários do ‘Homem da Poltrona’ era uma coisa que a gente não esperava”, confessou.

Gabriela gostou das pausas e comentários do Homem da Poltrona. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Gabriela gostou das pausas e comentários do Homem da Poltrona. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Como se trata de um narrador contando sobre seu fascínio pelo musical, “A Madrinha Embriagada”, o “Homem da Poltrona” interrompe algumas cenas para explicar detalhes de bastidores daquele espetáculo. Inclusive os detalhes técnicos.

Teatro musical 

A montagem é uma produção do Projeto Educacional Sesi-SP em Teatro Musical, programa pioneiro em São Paulo de formação de atores por um período de  três anos. A peça fica em cartaz na capital paulista por 11 meses, com oito sessões por semana, sendo duas para agendamentos de instituições de ensino públicas e privadas.

O espetáculo é simples, divertido e corresponde ao que se propõe: cativar um novo público para o gênero.  E cativou: os quatro jovens voltaram para casa surpreendidos e sem mais achar graça em quem diz “Eu odeio teatro”.