Hidroelétrica não pode ser ‘eternamente’ carro-chefe da matriz de energia elétrica

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

O Brasil enfrenta uma transição hidrotérmica. E, cada vez mais, o sistema vai ser menos hídrico e mais térmico, afirmou nesta terça-feira (20/05) o assessor da presidência da Eletrobras Eletronuclear, Leonam Guimarães, ao participar da Semana de Infraestrutura (L.E.T.S.) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

“O potencial remanescente instalado de hidrelétrica é de 150/180 GW. Não dá para ser eternamente o carro-chefe. Tem um momento que se esgota”, afirmou Guimarães durante o painel “Geração Nuclear e a Segurança Energética”.

Leonam Guimarães citou exemplo do Canadá como país que saiu da dependência total da energia hidroelétrica. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Defensor do uso da base de geração térmica na matriz energética, o especialista citou o exemplo do Canadá, país que, segundo ele, reverteu a dependência em mais de 90% de energia hidroelétrica nos anos 60 para 60% nos 1990, fazendo uso intenso da energia nuclear e térmicas a carvão para fazer a transição.

“Esse é o caminho de uma transição hidrotérmica. Não sei se é o caminho para o Brasil, mas no mínimo deveria se estudar esse exemplo e encontrar o modelo adequado para o Brasil. Ainda assim eu acredito que as similaridades entre os dois sistemas são muitas”, afirmou Guimarães.

O especialista endossou cálculos já conhecidos de que o sistema hidroelétrico deve atingir o esgotamento em 2025. Ele acredita ainda que, após esse período, deve acontecer uma expansão da matriz baseada no mix de gás natural, dependendo dos custos de exploração e produção, e, por que não, do carvão. “Nós não podemos demonizar o carvão.”

Guimarães também afirmou que a atual condição do sistema elétrico que levou ao acionamento de térmicas demonstra um “problema nitidamente de falta de base térmica, o que nos obriga a acionar térmicas complementares de custo altíssimo”.

Problema de curto prazo

Otávio Mielnik. Foto: Everton Amaro/Fiesp

O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Otávio Mielnik, autor do estudo “O Futuro Energético e a Geração Nuclear”, também participou do debate. Segundo ele, a fonte hidroelétrica deve continuar sendo o carro-chefe da matriz até 2022, o que para ele é um “problema de curto prazo”.

“Estamos vendo um plano de que nos próximos 10 anos a geração hidroelétrica apresenta taxas de crescimento semelhantes às que apresentou na década de 1980. Não é um problema de longo prazo, porque para isso já se discute soluções uma vez que os investimentos no setor são de longo prazo. É um problema de curto prazo”, explicou Mielnik, referindo-se ao Plano Decenal de Energia (PDE) de 2022.

Ainda de acordo com o PDE 2022, a geração térmica deve apresentar uma evolução “´tímida” de 3,6%, ao passo que a geração térmica deve estacionar durante o período e a energia eólica aumentar.

Para o professor da FGV, a diversificação de fontes é “imperativa para segurança energética”. Ele defendeu uma política de incentivo ao desenvolvimento tecnológico que permita que fontes como a geração nuclear incorporem os avanços tecnológicos existentes e ganhem escala industrial.

Segundo o estudo da FGV “O Futuro Energético e a Geração Nuclear”, somente com as reservas de 309 mil toneladas de urânio existente, as quais foram prospectadas nos anos 1970, seria possível manter 10 usinas nucleares de 1.000 megawatts por 100 anos.

Para Guimarães, da Eletronuclear, o Brasil já possui tecnologia para construir e operar usinas nucleares. “A tecnologia existe. Além disso, a reserva de urânio do Brasil era para ser a segunda do mundo e não é a sexta, mas nunca mais ninguém prospectou. Ela é a sexta com uma prospecção da década de 1970.”

Também participou do debate o presidente da Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), Antonio Ernesto Muller.

L.E.T.S.

A Semana da Infraestrutura da Fiesp (L.E.T.S.) representa a união de quatro encontros tradicionais da entidade: 9º Encontro de Logística e Transporte, 15º Encontro de Energia, 6º Encontro de Telecomunicações e 4º Encontro de Saneamento Básico.

O evento acontece de 19 a 22 de maio (segunda a quinta-feira), das 8h30 às 18h30, no Centro de Convenções do Hotel Unique, em São Paulo.

Mais informações: www.fiesp.com.br/lets