Brasil tem deixado de fazer reservatórios; opção por termoelétricas causará maior emissão de CO2, diz coordenador da EPE

Talita Camargo, Agência Indusnet Fiesp

O 14º Encontro de Energia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo contou, em sua agenda da tarde desta segunda-feira (05/08), com o painel “Hidrelétricas sem reservatórios: seremos cobrados pelas gerações futuras?”, coordenado pelo diretor de energia do Departamento de Infeaestrutura (Deinfra) da Fiesp, Marcelo José Leme Duarte.

Ao abrir o painel, o coordenador da Empresa de Pesquisa de Energia (EPE), José Carlos Miranda de Farias, explicou o que são os reservatórios, demonstrando suas diversas utilidades, como abastecimento humano, transposição e controle de cheias, irrigação e utilidades socioeconômicas e ambientais, como hidrovias, pesca e lazer. “As hidrelétricas são uma vantagem relativa do Brasil, um país com uma matriz predominantemente renovável”, afirmou.

 Farias, diretor da EPE:  Foto: Julia Moraes/Fiesp

Farias, diretor da EPE: hidrelétricas são uma vantagem relativa do Brasil. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Na visão de Farias, os reservatórios são reguladorizadores dos fluxos energéticos de todas as fontes renováveis. “Eles são as grandes baterias brasileiras que ajudam a tornar nosso país mais competitivo”, disse.

Farias explicou que o Brasil tem o terceiro maior potencial hidrelétrico do mundo, mas ainda tem dois terços a aproveitar. “Os países ditos de primeiro mundo já exploraram ao máximo seu potencial hidrelétrico, mas os em desenvolvimento ainda têm muito a explorar. É o caso do Brasil”, destacou.

“O Brasil tem deixado de fazer reservatórios, principalmente por condicionantes colocados pelos órgãos ambientais. E isso faz com que o sistema perca capacidade de regularização, o que significa que teremos que gerar mais térmicas”, alertou ao enfatizar que isso causará maior emissão de gás carbônico (CO2).

O governador do Conselho Mundial da Água (WWC), Newton Lima Azevedo, falou sobre a visão estratégica para o futuro da água. “Atualmente, 45 milhões de brasileiros não têm água de forma sustentável e 100 milhões de brasileiros não têm esgoto tratado”, afirmou.

 Azevedo:  Foto: Julia Moraes/Fiesp

Azevedo: debate a respeito da necessidade de uma visão estratégica para o uso da água. Foto: Julia Moraes/Fiesp

De acordo com sua apresentação, a distribuição e consumo de água doce no mundo é “desequilibrada”, pois 97,5% é de água salgada contra apenas 2,5% de água doce, sendo que desse pequeno total, 70% é usado para agricultura, 22% é usado para indústria e apenas 8% é de uso doméstico.

Segundo Azevedo, a WWC possui um pacto para a segurança da água, que consiste em garantir a disponibilidade e tratamento adequado, além de colocar a questão estratégica para o futuro do planeta passa no mesmo nível de importância que a segurança nuclear, alimentar ou sanitária. “A melhoria de qualidade de vida também depende da segurança hídrica”, afirmou.

Para ele, o pacto para segurança hídrica está relacionado ao desenvolvimento sustentável e gestão dos recursos hídricos. “A água é o elemento econômico-ecológico que serve de motor para o crescimento sustentável e erradicação da pobreza”, disse.

O diretor da PSR – Soluções e Consultoria em Energia, Rafael Kelman, disse acreditar ser necessário ter uma visão mais global de todo o processo, daquilo que é melhor para a sociedade.  “Reservatórios são armazéns de energia, que a transferem em momentos diferentes, para poder aproveitar a sazonalidade entre a cheia e os períodos de secas”, explicou. Mas alertou: “os reservatórios por si só não são suficientes, é preciso ter capacidade de transferir a energia”.

O coordenador do Greenpeace Brasil, Ricardo Baitelo, acredita que o momento é de rediscussão da matriz elétrica e do processo de planejamento. “A previsão é que Brasil deve atingir 800 milhões de emissão de C02 em 2050, só no setor energético”, alertou.

Baitelo falou sobre as restrições na expansão da demanda de hidrelétricas e sobre a desigualdade dos critérios de competitividade entre fontes. “As eólicas têm se desenvolvido muito. E agora é a hora de mais investimentos e pesquisas nessas fontes, para atender a demanda que vai continuar crescendo acentuadamente no Brasil”, afirmou.

Baitelo, do Greenpeace Brasil:  Foto: Julia Moraes/Fiesp

Baitelo, do Greenpeace Brasil, destacou o desenvolvimento da energia eólica: Foto: Julia Moraes/Fiesp

“Jamais poderíamos dizer que somos contra a construção de reservatórios porque isso levaria à construção das termos[elétricas] e isso levaria a outros problemas ambientais”, explicou. Ao finalizar, apresentou os potenciais energéticos do Brasil, nas diversas fontes, e citou a energia solar como alternativa sustentável.

“Para o Greenpeace, quando optamos por soluções energéticas, seguimos critérios não só renováveis, mas também sustentáveis”. concluiu.

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