Conselhos superiores de economia e do agronegócio discutem perspectivas para 2º turno

Agência Indusnet Fiesp

O tema da reunião conjunta dos conselhos superiores do agronegócio (Cosag) e de economia (Cosec) da Fiesp nesta segunda-feira (8 de outubro) foi “Perspectivas do 2º turno das Eleições”, com apresentações a cargo de Lourdes Sola, cientista social e co-chair do Comitê de Pesquisa em Economia Política Internacional (IPSA), e de Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria Integrada. Jacyr Costa, presidente do Cosag, conduziu a reunião, que teve a participação de José Ricardo Roriz, 2º vice-presidente da Fiesp e do Ciesp.

“Nosso papel, independentemente de quem ganhar, é apresentar propostas”, disse Roriz. “Quem elege é a sociedade.” Ele explicou as propostas setoriais da Fiesp e do Ciesp enviadas aos presidenciáveis relativas a temas como agronegócio, infraestrutura, meio ambiente, segurança e defesa, comércio exterior, ambiente urbano. O resumo está no documento O Desafio de Posicionar o Brasil na Roda do Crescimento, material enviado para 80.000 endereços – e em 2 de outubro remetido para os formuladores da área econômica dos principais candidatos.

Roriz pediu a leitura crítica das propostas, que, lembrou, são uma contribuição para o debate. Destacou o alto envolvimento da sociedade nesta eleição. Carga tributária –especialmente para as empresas- entrou na discussão, o que considera benéfico; também a burocracia e a necessidade de infraestrutura. E também há a questão da insegurança jurídica, que desvaloriza os ativos brasileiros e atrapalha muito o investimento, frisou.

Em relação à legitimidade da eleição, disse que não há dúvidas. “Temos um sistema eleitoral que funciona.”

Reunião conjunta do Cosag e do Cosec, da Fiesp, com análise do segundo turno da eleição. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Reunião conjunta do Cosag e do Cosec, da Fiesp, com análise do segundo turno da eleição. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Segundo turno

A cientista social Lourdes Sola explicou em sua palestra que o segundo turno depende dos movimentos que serão feitos agora a partir das evidências do primeiro turno; é preciso avaliar a amplitude das coalizões. Ganha quem conquista o centro, mas é o centro social, não partidário, destacou. “Quem falou grosso nessa eleição foi o eleitorado.” Como os candidatos farão para mobilizar os eleitores?

Exceto o Nordeste, nos Estados dominou Bolsonaro. E no Congresso o eleitor mudou o que os partidos não quiseram mudar. Houve perda de senadores expressivos, crescimento bastante grande do PSL (e isso erode um dos argumentos de cientistas políticos quanto à base de Bolsonaro). Isso obriga a uma reinvenção do sistema partidário como um todo. O eleitor quer renovação, e foi alta a a abstenção, de quase 21%.

Lourdes Sola apresentou uma série de questões. A agenda econômica anunciada por Haddad vai atrair os eleitores? Quem votou em Ciro, Alckmin e Marina irá? Como vai enfrentar a agenda de segurança, já que a econômica é menos clara para o eleitor? Autoritarismo e fascismo X democracia emerge como centro da disputa.

O que virá da maior exposição de Bolsonaro? Até agora ele jogou com boas condições, usou as redes sociais, em situação de monólogo, não exposto ao contraditório. “Para mim é uma incógnita”, disse. “Só dará para conversar sobre isso na véspera da votação.”

Como ele vai abordar questões que são caras ao centro social? Tem passivo em direitos humanos e ativos na encarnação da segurança, em sua análise.

Mais que a polarização, que vai ocorrer, o desafio do ponto de vista econômico é o risco de haver paralisia de reformas econômicas necessárias, o que provocaria risco político. A estabilidade de preços é considerada um bem público, e se houver picos de inflação haverá forte movimento de baixo para cima.

Bolsonaro terá que interagir, aceitar a necessidade de coalizão – e não se sabe como vai reagir. Haverá conflito entre ele e seu principal economista, um dos mais liberais. No teto de gastos parece haver convergência, mas em infraestrutura é mais problemático.

Há regras novas na Câmara e no Senado, o que complica ainda mais a formação de coalizões no próximo governo. Será preciso negociar o tempo todo.

Há aumento das bancadas corporativas; reformas constitucionais tem ; a bancada dos funcionários públicos, antes dispersa, terá 130 parlamentares e se tornou uma frente integrada por 11 sindicatos, o que dificulta negociações. E são contra algumas reformas, como a da Previdência.

É difícil escapar da dominância fiscal caso Haddad não faça uma renovação da agenda econômica. Considera muito limitado apostar no investimento como indutor do crescimento.

É possível que se faça, como no primeiro governo Lula, um aceno à posição liberal. “Acho que a urgência econômica em que estamos não comporta isso”, avaliou. Deverá haver uma reformulação da agenda. “Estamos diante de um dilema em que o movimento para o centro é o grande desafio, combinado à agenda econômica.”

A questão que vai se colocar não é de crise de democracia, num caso ou no outro é de continuidade do mandato de qualquer um que vença caso desafie as instituições. Aspecto que considera interessante é a presidente do TSE ter apresentado os resultados da eleição cercada por autoridades de diversas instituições, uma mostra de normalidade. “Símbolo em política é fundamental.”

Rafael Cortez, sócio da consultoria Tendências, disse que de certa maneira o eleitorado surpreendeu, de forma positiva. No fundo o resultado do primeiro turno deriva do aprendizado dos últimos quatro anos, de um choque de informação, que puniu quem não governou bem. E isso inclui dois nomes, Dilma e Temer.

Bolsonaro representa alternativa, na percepção do eleitorado, à política tradicional. Na democracia um governante permanece se governar bem; isso dá voto. Essa questão leva quem chegar ao governo a dar atenção à economia.

O quadro fiscal, destacou, é bastante complicado e leva a um dilema que não será trivialmente resolvido. A crise de confiança em relação às contas públicas não parece resolvida tanto nas propostas de Bolsonaro quanto de Haddad. O tema das contas públicas precisará voltar às discussões para criar condições para o crescimento da economia.

Haddad pode ser o mundo Lula de 2003 ou Dilma de 2012; parece que será ficará no meio dos dois. Parece que as condições que levaram à paralisia do governo Dilma não se repetirão em 2019, disse.

Em sua análise, o impeachment foi possível porque havia um substituto aceito pelo Congresso, a partir de dois fatos – a carta com o rompimento político, em que Michel Temer assumia topar a empreitada, e a criação pelo MDB do programa Ponte para o Futuro. Na disputa de agora, os vices dos dois não passam a imagem de um porto seguro no caso de impeachment. Isso significa que em algum momento Executivo e Legislativo terão que se acertar. “Minha aposta é que vão minimamente organizar a casa”, em vez de permitir uma debacle econômica. “No limite poderemos passar um ano num quadro econômico mais sofrido.”

De janeiro de 2015 para cá o único momento de coalizão estável se deu no início do governo Temer, e essa estabilidade precisa ser retomada por qualquer um dos dois, afirmou Cortez.

Houve aumento da fragmentação e renovação (de nomes, não necessariamente de prática política). Para o PT, um Congresso mais conservador tira qualquer chance de governar conforme as propostas de campanha. Estamos num cenário de aumento da dispersão das forças políticas, o que afasta o risco de venezuelização.

Câmara

A reunião conjunta de Cosag e Cosec teve apresentação, a pedido de José Ricardo Roriz, presidente em exercício da Fiesp e do Ciesp, da Câmara de Conciliação, Mediação e Arbitragem Ciesp/Fiesp.

A exposição sobre a Câmara foi feita por seu secretário-geral, Luís Alberto Peretti, que explicou que ela trabalha pela indústria, em busca de segurança jurídica, auxiliando no aumento da competitividade. Apresentou a estrutura do órgão.

São quatro serviços oferecidos e foram iniciados 564 procedimentos iniciados até setembro de 2018. Conciliação, mediação, prevenção e solução de controvérsias e arbitragem (esse é o serviço prestado com mais frequência).

Para o agronegócio a medição pode ajudar a encontrar soluções criativas e mutuamente benéficas para as artes. E na arbitragem as partes podem escolher o julgador em quem confiam. O procedimento é mais rápido, e não há direito a recurso.

Sua tabela progressiva de custas permite acomodar disputas de diversos valores, de poucas dezenas de milhares de reais a centenas de milhões. O tempo médio de resolução na Câmara é de 22 meses, contra (segundo o CNJ) 10 anos na Justiça.

Propostas para segurança e defesa são apresentadas na Fiesp

Agência Indusnet Fiesp

A Fiesp recebeu nesta quinta-feira (27 de setembro) representantes dos candidatos à Presidência em melhor posição nas pesquisas de intenção de voto – Alckmin, Bolsonaro, Ciro, Haddad e Marina – para falar sobre seus programas para segurança pública e defesa. Carlos Erane de Aguiar, diretor titular do Departamento de Defesa e Segurança da Fiesp, abriu o evento falando sobre o dano ao potencial de crescimento econômica provocado pela violência. Também ressaltou a importância social e econômica do setor de defesa.

A senadora Ana Amélia, candidata a vice na chapa de Geraldo Alckmin, foi a primeira a falar. “Não estamos nos dando conta do quanto esse espectro criminoso está se infiltrando na economia”, disse ao iniciar sua apresentação.

Explicou que falaria sobre a visão da relevância da indústria da defesa para a economia brasileira. Defesa não é brinquedo, é tecnologia, e há espaço gigantesco no mercado global, afirmou. Nenhum país desenvolvido deixa de dar importância à indústria da defesa, mas no Brasil não se conhece direito o setor.

Nossa fronteira é aberta, destacou. “É um queijo suíço.” Deu como exemplo o contrabando de cigarros, cuja venda no Brasil é controlada pelo crime organizado. Também defensivos agrícolas são trazidos ilegalmente. Há também roubo – de máquinas agrícolas, por exemplo, levadas de balsa do Rio Grande do Sul.

Ana Amélia listou programas estratégicos do Exército, para proteção de fronteiras e da infraestrutura, como instalações do pré-sal e hidrelétricas, da Aeronáutica, como de submarino nuclear, para proteção da soberania, e da Aeronáutica, como o Grippen e o Embraer KC-390.

A instabilidade orçamentária, explicou, marca o governo nos últimos anos, prejudicando projetos.

Ana Amélia disse que a Guarda Nacional permanente idealizada por Alckmin, não usando policiais militares das forças regulares, terá mais eficácia. É preciso também fortalecer o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron) e integrar as unidades militares, sob um comando nacional, à Polícia Federal (PF), à Polícia Rodoviária Federal (PRF) e às polícias estaduais. Para isso será criado comitê de integração. O patrulhamento pela Marinha com suas corvetas também é fundamental.

A conjugação de esforços, do Ministério Público, do Judiciário, das polícias e do próprio Estado com a inteligência traz resultados na prevenção do roubo em áreas agrícolas, segundo Ana Amélia.

Não é questão somente de contrabando e de roubo. É o impacto da concorrência desleal, predatória na economia sobre as atividades legais.

Também a economia de países vizinhos é afetada, destacou, por isso é preciso tratar o problema em conjunto com eles.

Ana Amélia disse que o apoio à indústria da defesa começa com a estabilidade orçamentária e exemplificou com os projetos aeronáuticos Grippen, que prevê transferência de tecnologia, e KC-390. É preciso fortalecer o setor e fazer a ligação dele às universidades, como acontece em outros países.

Em relação ao estatuto do desarmamento, Ana Amélia disse que não se pode tratar de forma iguais situações diferentes, caso das áreas urbanas e rurais. Não é somente a permissão para as armas. Falta estrutura, às vezes até de comunicação telefônica para pedir socorro. E é flagrante a transferência do crime urbano para as áreas rurais. É preciso criar proteção para esse setor.

Sobre desoneração para produtos de segurança. Ana Amélia lembrou que parte da decisão cabe aos Estados. Temos que estimular a competitividade e restringir a importação para que o setor cresça no Brasil, afirmou.

Leandro Piquet, coordenador de segurança pública da campanha de Alckmin, detalhou pontos citados por Ana Amélia. Disse em sua apresentação que a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) estima em 4,4% do PIB o impacto dos problemas de segurança, ao lado de vidas perdidas em mortes prematuras, o que afeta o mercado de trabalho e a Previdência. É desproporcional o índice de violência brasileiro em relação ao tamanho de sua economia. “Nosso foco é primeiro olhar para a gestão das instituições.” Crime violento é a prioridade, disse. “É o principal problema hoje no país.”

Destacou a importância da gestão, com um sistema de metas e de cobrança, com premiação por resultados para os Estados. Os Estados mais violentos serão assessorados por uma força-tarefa. A meta é chegar a 20 mortos por 100.000 habitantes ao fim do governo, contra a taxa de 30 por 100.000. Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo conseguiram fazer isso em 4 anos. É possível fazer isso, investindo rapidamente, afirmou. “O Brasil não precisa estar no grupo de países mais violentos do mundo.”

Apresentação das propostas de Alckmin, por Ana Amélia e Leandro Piquet. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Apresentação das propostas de Alckmin, por Ana Amélia e Leandro Piquet. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Outro grande gargalo observado é a formação de policiais, com grandes assimetrias no país em relação à capacidade das polícias. Precisam ser resolvidas, por meio de um programa de formação, nacional, que inclui a construção de uma academia de polícia. Também se deve pensar na formação de policiais e no ensino superior, para os dois principais momentos de promoção dos policiais.

A Guarda Nacional seria força auxiliar do Exército, subordinada à Defesa. Utilizaria egressos das Forças Armadas, com seu treinamento para atuar na defesa da lei e da ordem. A meta é ter 5.000 homens até o final do primeiro mandato, na primeira brigada. Lembrou que há oficiais das polícias aposentados precocemente que podem ser contratados para ajudar no treinamento.

Alterações na legislação permitiriam a atuação da guarda também no patrulhamento rural, num esforço de controle do crime no campo.

Disse que o há o objetivo muito claro de regulamentar o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e levar a sério a questão da participação dos municípios na organização da segurança pública. Eles são essenciais para o combate aos mercados ilícitos, fiscalizando por exemplo o comércio varejista irregular – e cassando rapidamente o alvará dos estabelecimentos que façam isso.

Marina Silva

Arthur Trindade, coordenador de segurança pública da campanha de Marina Silva, disse que as propostas são baseadas em conversas e debates com especialistas em segurança pública. É um dos temas em que a Nova República fracassou. Isso acontece com o Governo Federal e com a maioria dos Estados. As respostas aos problemas são fracas, pífias. Temos problemas na legislação e muitas das nossas polícias têm problemas gravíssimos de gestão e de controle de suas atividades, mas não é só essa a questão. “Somadas fazem pensar que a solução da segurança depende da polícia, mas não é bem assim. É preciso que façam parte desse esforço muitas outras instituições, governamentais e não governamentais.”

As ações incluem diagnóstico, formulação, articulação, acompanhamento de resultados. É preciso haver políticas públicas de segurança. Diferentes redes de políticas públicas funcionam sem hierarquia entre eles, mas os resultados dependem da atuação de todos.

Mencionou crescimento dos roubos a instituições financeiras, afetando especialmente municípios do interior. Roubo de cargas vem crescendo significativamente nos últimos anos, tornando-se grave problema. São Paulo e Rio respondem por 89% do total de roubos de carga no Brasil.

Os efeitos do crime, disse, são enormes sobre a competitividade das empresas e da economia, afetando os preços de bens e serviços, do frete, do gerenciamento de segurança, dos seguros.

Além de melhorar o policiamento de rodovias, o sistema de monitoramento de cargas, de articular as atividades de inteligência e as atividades de recuperação de ativos e outras medidas, é preciso articular Ministério da Segurança Pública, porque o problema é nacional, as secretarias de Segurança, a Polícia Federal, a PRF, as polícias civis e militares, os ministérios públicos, a ANTT, empresas de transporte, federações de indústrias. Nosso problema está na dificuldade de articulação de todos esses atores, afirmou.

Apresentação das propostas de Marina, por Arthur Trindade. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Apresentação das propostas de Marina, por Arthur Trindade. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

É um problema de governança. Precisamos aumentar a capacidade de governança da área de segurança pública. Para conseguir fazer a articulação o Governo Federal precisa criar o Susp e outros mecanismos para gerar soluções e dados, para haver políticas mais eficazes. O repasse de recursos precisa ser condicionado a resultados.

Falta protagonismo do Governo Federal. Isso ocorre há 30 anos. O Ministério da Segurança Pública é pouco estruturado; as secretarias de Segurança Pública, com honrosas exceções, são mal estruturadas; faltam dados –por exemplo, não há informações nacionais sobre roubo de cargas; são desarticuladas as atividades de inteligência, assim como o sistema de Justiça criminal (uma das funções do Susp é fazer essa articulação).

Nos últimos 10 anos aumentou bastante o gasto com segurança pública, de R$ 38 bilhões para R$ 81 bilhões, 111%. Só que continua inalterada a distribuição deles, com os Estados respondendo por 83% do total. Os gastos do Governo Federal aumentaram 55%, para R$ 9 bilhões, com a maior parte –como ocorre com os governos estaduais- comprometida com folha, inativos e custeio. “Não sobra dinheiro para investimentos.”

Tentar resolver o problema com a contratação de mais policiais cria uma bomba-relógio [por exemplo quando se aposentam]. É preciso melhorar a articulação de ações, com adoção de mais inteligência.

Em vez de aumentar o gasto em si, Trindade falou em melhorar a qualidade dele. E ressaltou a importância de usar o fundo de segurança pública para estimular o desempenho dos Estados.

Erane, da Fiesp, mencionou o menor investimento em relação ao PIB do Brasil em defesa quando comparado a outros países do Cone Sul. E nisso também os gastos em folha, inativos e custeio tomam a maior parte dos recursos. Trindade defendeu a melhora do controle das fronteiras, “mas não é com o aumento de pessoal no momento. O gasto mais intensivo em tecnologia e investimentos deve ser muito mais interessante que no aumento de pessoal.”

Para inibir o contrabando de países vizinhos, especialmente o Paraguai, é preciso protagonismo muito maior do Governo Federal, com o Itamaraty atuando de forma forte, melhorando sua articulação no tema, segundo Trindade.

A respeito da desoneração de tributos nas compras das Forças Armadas e das forças de segurança, Trindade falou em necessidade de novo pacto federativo, abarcando o tema. Defendeu que não se empurre as Forças Armadas para funções de manutenção da lei e da ordem, que drenam recursos que poderiam ser destinados ao investimento.

Fernando Haddad

Carlos Zarattini, representante da candidatura de Haddad, ressaltou que não é coordenador da área de segurança e foi destacado para apresentar o tema. Disse que o tema é tratado como segurança pública cidadã. O PT considera o assunto ligação de políticas sociais às de segurança.

Nas periferias das grandes cidades deve estar a preocupação mais forte, porque lá se concentram os homicídios. O investimento passa por um sistema nacional de informações para melhorar a investigação e pelo controle mais rigoroso de armas e munições, além do combate a seu contrabando.

A tecnologia deve ser integrada, com investimento nela. A qualificação deve ser feito através de um programa de aperfeiçoamento das polícias.

E o monitoramento de fronteiras, que se confunde com a defesa, precisa de revisão do cronograma de implantação do Sisfrom, que precisa funcionar de forma eficaz. Também deve ser iniciado o Sisgaaz (Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, nome dado à região das águas territoriais brasileiras).

A política de repressão às drogas é feita de forma equivocada, segundo Zarattini, com encarceramento em massa – e de pessoas não violentas, envolvidas no varejo. O índice de reincidência é altíssimo, e não é tentativa de reinserção. “Somos totalmente contrários ao que vem se praticando no Brasil”, disse, defendendo a revisão da legislação penal.

O aumento do encarceramento não levou à diminuição da criminalidade. “O remédio que vem sendo dado não está bem dosado”, disse, defendendo ir buscar os que efetivamente comandam o crime.

Também é necessário enfrentar a rede de negócios ilegais e de contrabando. É fundamental para isso integrar os sistemas de outros países, particularmente os da América Latina.

O Susp, criado em projeto enviado ao Congresso por Dilma, alterado pelo atual governo e aprovado, precisa de aperfeiçoamento, garantindo que a integração dos sistemas seja efetiva, para o que é preciso criar protocolos. Os recursos alocados devem ser distribuídos mediante contrapartidas.

Apresentação das propostas de Haddad, por Carlos Zarattini. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Apresentação das propostas de Haddad, por Carlos Zarattini. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Segundo Zarattini, é preciso rediscutir a estratégia nacional de defesa. Deve ser pilar de desenvolvimento nacional, ligando as Forças Armadas ao avanço industrial e da ciência e tecnologia. Todos os programas para o setor, explicou, foram elaborados com a ideia de trazer tecnologia para o Brasil e desenvolver tecnologia no país.

Orçamentos plurianuais devem ser estabelecidos para o setor de defesa, assim como fontes de recursos. E os prazos para os projetos devem ser encurtados.

O programa de corvetas lançado pelo governo tem porcentagem muito baixa de conteúdo nacional, na avaliação apresentada por Zarattini. Lembrou que muitos países do mundo – Estados Unidos especialmente – adotam metas de conteúdo nacional.

Citou como fundamental o programa de desenvolvimento de um submarino nuclear, tanto para a defesa quanto para o setor nuclear. E disse que é necessário reorganizar a política aeroespacial, em que o Brasil avançou muito pouco. Os termos da negociação com os EUA sobre a base Alcântara e da venda da Embraer precisam ser reanalisados. E deve ser assegurada a transferência de tecnologia prevista no projeto F-X2 (de aquisição de caças da sueca Gripen).

A base de Alcântara é um patrimônio nacional, disse Zarattini, e seu uso não pode impedir o desenvolvimento da política aeroespacial brasileira.

As Forças Armadas não devem ser empregadas como órgão de repressão, revendo seu papel nas operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e mantendo suas funções constitucionais.

Quanto ao combate ao contrabando, segundo Zarattini atuar na raiz pode trazer resultados. E negociar com o Paraguai.

Ciro Gomes

Guaracy Mingardi e Nelson Marconi apresentaram respectivamente os programas de segurança pública e de defesa da candidatura Ciro.

Ninguém vai transformar em prioridade o combate à pirataria, disse Mingardi ao iniciar sua parte. “Não com o número de homicídios do Brasil.”

Entre medidas específicas para combater o crime estão o policiamento de fronteiras (e a criação de alternativa de subsistência em algumas regiões, além do investimento em educação), o controle de armas e munições, e no enfrentamento das organizações criminosas, com o reforço do efetivo da PF e da PRF, a criação de força-tarefa contra as organizações criminosas, a retomada do controle sobre o sistema prisional (“o PCC manda” nos presídios), a retomada do controle de portos, aeroportos e estradas.

Nos crimes contra o patrimônio é preciso formar policiais estaduais para investigar. Também defendeu criar forças-tarefa para crimes específicos – como o roubo de carga.

Para reduzir o número de homicídios é preciso criar medidas sociais para jovens de áreas de conflito; treinar policiais estaduais para investigar esse tipo de crime; criar um programa nacional de proteção às testemunhas, incentivar medidas para controlar a violência contra a mulher.

Mingardi defendeu que bens apreendidos sejam vendidos e tenham os recursos daí obtidos aplicados na segurança pública.

Apresentação das propostas de Ciro, por Guaracy Mingardi. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Apresentação das propostas de Ciro, por Guaracy Mingardi. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Transformação da aduana em algo parecido com o órgão norte-americano USTA se for feita precisa ser gradativa. Está em estudo se serão duas entidades separadas ou se haverá distribuição de atribuições.

Mingardi disse que a ideia é não mexer nas estruturas existentes, respondendo a pergunta sobre o Ministério da Segurança, analisando seu funcionamento. Exército deve ter função na fronteira, mas não em área urbana. No Rio houve 5 intervenções desde 1992, e não funcionaram, afirmou.

Marconi falou sobre estratégia e indústria da defesa. A estratégia de defesa vai ser retificada e reforçada. Lembrou que Ciro destaca 4 complexos importantes (agronegócio, saúde, petróleo e defesa). Defesa gera tecnologia; é setor em que podem ser usadas compras públicas para incentivar outros setores; tem função importante na questão das fronteiras, justificou.

O Brasil prende mal, porque não há investigação. No caso do tráfico é preso o pé-de-chinelo; no de roubos também. Medidas que evitariam o encarceramento não são implantadas por falta de estrutura, e em muitos Estados não há separação de presos por perfil. E os presos têm que aprender e trabalhar dentro da cadeia, para melhorar.

Para desenvolver o setor de defesa é preciso investir em ciência e tecnologia, priorizando o capital nacional, devido à questão da soberania; não sendo possível devem ser buscadas parcerias com transferência de tecnologia.

Jair Bolsonaro

Augusto Heleno Ribeiro Pereira, representante da candidatura de Jair Bolsonaro, concentrou-se em segurança pública. “Vivemos um problema que nunca vivemos, uma situação muito grave que deve ser tratada como tal”, justificou. “Estamos a caminho de ser um narcopaís. Hoje já temos no Brasil áreas liberadas (em que não se entra a não ser atirando ou com acompanhamento de narcotraficantes).”

Precisamos de medidas excepcionais, defendeu. Há permanente sensação de insegurança. Lembrou que ter na sua missão a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) empurra as Forças Armadas na direção da segurança pública. Vai ser preciso dedicar parte do tempo de treinamento para a atuação nessa área, afirmou.

Destacou que a missão de paz no Haiti deu experiência às Forças Armadas.

Reestruturação do sistema de segurança, com medidas estratégicas como a pressão sobre países vizinhos e monitoramento das fronteiras. Aumentar o efetivo e investir em tecnologia.

Destacou o atraso na implantação do Sisfron (que se pagaria em 5 anos), que deveria ser projeto de Estado, não de partido político. É preciso, afirmou, reformular a política indigenista, para atender às reais aspirações das etnias brasileiras.

Heleno defendeu também a adoção de regras de engajamento como as das forças de paz, que permitem abrir fogo, sem alerta, diante de ameaça tão inesperada que qualquer retardo possa representar morte ou ferimentos de agente da lei.

É preciso, pelas características das áreas dominadas pelo tráfico, sem endereços estabelecidos, reformular o conceito de mandado de busca e apreensão, de modo a permitir o mandado coletivo.

As ações operacionais incluem o trabalho de investigação. “Acreditamos na eficácia da investigação criminal e das perícias policiais”, afirmou o coordenador, acrescentando que é necessário preparar melhor delegados, investigadores e peritos. Para ele, preparar e empregar bem as polícias civis e militares faz parte do conjunto de medidas para resolver o problema de segurança pública. É preciso haver integração delas e melhor instrução individual dos agentes, além de equipamentos – incluindo os de alta mobilidade, como helicópteros.

Heleno falou que a legislação penal precisa ser mudada, ao lado da reforma do sistema prisional. E os presídios devem ter melhores condições de habitabilidade. Os detentos, segundo ele, não podem ficar ociosos. Precisam trabalhar e estudar.

Apresentação das propostas de Bolsonaro, por Augusto Heleno Pereira. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Apresentação das propostas de Bolsonaro, por Augusto Heleno Pereira. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Mercado de moda deve crescer 3,1% ao ano até 2021

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Marcelo Prado, diretor titular adjunto do Comitê da Cadeia Produtiva da Indústria Têxtil, Confecção e Vestuário da Fiesp (Comtextil), fez nesta terça-feira (22 de maio) balanço de 2017 do setor têxtil e de confecção e apresentou as perspectivas para 2018, além de estimativas para os próximos 4 anos. A palestra ocorreu durante reunião plenária do Comtextil, conduzida por seu diretor titular, Elias Miguel Haddad. Depois da apresentação de Prado, Haddad se mostrou otimista. “Pelo retrovisor vi um panorama ruinzinho, mas olhando pelo parabrisa há a demanda reprimida e a perspectiva de crescimento de 3,1% ao ano. Estamos às vésperas de uma coisa maravilhosa.”

Os resultados de 2017 mostram que é possível voltar a crescer um pouquinho no Brasil, disse Prado ao iniciar sua apresentação.

O Brasil no comércio internacional de têxteis e vestuário é pouco expressivo, sendo o 41º exportador, com apenas 0,3% do valor total exportado, e o 30º importador, com 0,7% do valor total importado.

São 27.000 indústrias na cadeia têxtil brasileira. Houve recuo de 17,2% no número de empresas têxteis e de 18% nas de vestuário entre 2012 e 2017. O número de empregos caiu 5,3% na cadeia têxtil e 3,4% no vestuário.

As manufaturas têxteis movimentaram R$ 164,7 bilhões e, 2017, aumento de 10,1% em relação ao ano anterior, em termos nominais.

A estimativa Iemi do volume produzido de têxteis é de crescimento de 5,1%, e em 2017 o aumento foi de 5,8%.

Houve recuo de 16,1% nas exportações de têxteis entre 2012 e 2016.

A produção de vestuário teve pico em 2010, com 6,4 bilhões de peças. Caiu de 2012 até 2016, mas em valores nominais houve crescimento de 23,3%. Em 2017 houve alta de 3,2% em peças e de 1,3% em valores nominais. E para 2018 a estimativa é crescer 2% em volume.

Em 2017 houve alta de 23,3% nas importações e de 13,6% nas exportações de vestuário.

As vendas no varejo de vestuário somaram R$ 220 bilhões em 2017, 9% mais que em 2016, com 6,2 bilhões de peças (8,1% mais que no ano anterior). A alta estimada para 2018 é de 5% em volume e de 7,6% em receitas nominais.

Dos 149.100 pontos de venda de vestuário, cerca de 52.000 (35%) estão em 571 shoppings. A crise levou ao fechamento de 17.000 pontos de venda de moda. As lojas independentes ainda são o principal canal de varejo do vestuário, com 36% do volume comercializado.

De 2013 a 2017 caiu 3,3% em peças o varejo de vestuário.

Alta estimada de 5% em 2018, depois de 8,1% em 2017 nas vendas em volume no varejo de moda.

Prado também mostrou números do comércio eletrônico, que em 2017 teve 55,1 milhões de consumidores, 16% mais que em 2016, com faturamento de R$ 47,7 bilhões (alta de 7,5%) em 112 milhões de pedidos. Em primeiro lugar no número de pedidos está Moda e Acessórios (14,2%, com 15,8 milhões de pedidos).

O B2B, comércio eletrônico entre empresas, movimentou R$ 420 bilhões, nove vezes mais que o B2C.

Até 2021 a estimativa é de crescimento acumulado de 13% do mercado de moda no Brasil, com média de 3,1% ao ano, o que pode levar a recorde de produção, de 6,68 bilhões de peças. A demanda deve superar a oferta somente em 2020, destacou Prado.

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Reunião do Comtextil sobre números de 2017 e perspectivas para 2018. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Missão à China

A missão empresarial à China International Import Expo também foi tema da reunião. Harry Chiang, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex) explicou a importância do evento e convidou os empresários presentes a participar. “Os objetivos da missão são vender, vender e vender.” A Fiesp vai tentar preparar os empresários que não têm experiência em vender para a China.

Segundo Chiang, há interesse da China em comprar do Brasil produtos mais sofisticados do setor de confecção. Recomendou aos participantes da reunião conhecer o Shanghai Fashion Center.

A China, disse, está promovendo, pela primeira vez, reuniões regulares com governos, inclusive o brasileiro, para que a feira seja bem-sucedida. A China pretende importar até US$ 10 trilhões nos próximos 5 anos. “O Brasil está em ótima posição para exportar”, afirmou, lembrando que as disputas comerciais entre China e EUA abrem oportunidades.

A classe média chinesa está aumentando, disse Chang, e tem grande interesse em produtos importados. E o Brasil é bem visto por ela. Nos próximos 3 anos (até 2020), mais 100 milhões de chineses deverão sair do campo para morar em áreas urbanas.

Devem passar 150.000 compradores pela feira, que ocupará 240.000 metros quadrados e terá a participação de 120 países. Destacou dos 8 pavilhões o de bens de consumo, que inclui vestuário. Realizada de 5 a 10 de novembro em Xangai, é a primeira feira organizada pelo governo central da China.