Ha-Joon Chang: ‘Desafio do Brasil é desenvolver indústria de tecnologia para agricultura’

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

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Ha-Joon Chang ressalta a necessidade do Brasil ter uma política industrial sólida

A indústria brasileira tem o desafio – e a oportunidade – de agregar tecnologia de ponta à produção de alimentos e energia e fortalecer um nicho de mercado.

O alerta é do economista e professor da Universidade de Cambridge, Ha-Joon Chang, em encontro com empresários e diretores na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) nesta terça-feira (08/05).

“O Brasil poderia tentar desenvolver indústrias de tecnologia de ponta que aproveitem melhor a terra, aumentem a produtividade da safra e melhorem o aproveitamento da água”, sugeriu Chang logo após um comentário do diretor-titular de Relações Internacionais da Fiesp, Roberto Giannetti.

De acordo com Giannetti, o mundo espera que o Brasil se torne a principal solução para o abastecimento de alimentos e energia no futuro próximo. Se por um lado existe uma forte demanda para o país, ressalvou Giannetti, por outro a indústria brasileira tem a ambição de diversificar cada vez mais sua base de produção e torná-la competitiva no mercado local e internacional.

Na opinião de Ha-Joon Chang , tal pressão do mundo sobre o Brasil é decorrente da capacidade exibida pelos brasileiros em momentos anteriores. “[Ela] veio do que vocês demonstraram poder fazer, sendo o Brasil o primeiro país a desenvolver o etanol”, exemplificou o sul-coreano ao final da sua palestra “Por que o Brasil precisa de uma Sólida Política Industrial”.

Ha-Joon Chang: ‘Brasil precisa de mudança macroeconômica radical para recuperar indústria’

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

O professor e economista da Universidade de Cambridge, Ha-Joon Chang, afirmou na manhã desta terça-feira (8/05), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que o Brasil vive a mais séria desindustrialização. Ele alertou ainda que, para recuperar o fôlego do setor manufatureiro, são necessárias mais reduções dos juros, além do equilíbrio cambial e da implementação de uma política industrial agressiva.

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Ha-Joon Chang debate sobre política industrial no Brasil com empresários e diretores da Fiesp



“A indústria do Brasil tem potencial, mas atingiu níveis mundiais em um número limitado de áreas, como a Petrobras e a Embraer”, apontou o economista sul-coreano em reunião com empresários e diretores da Fiesp, na qual debateu sobre “Por que o Brasil Precisa de uma Sólida Política Industrial”.

Em sua avaliação, é necessária uma mudança macroeconômica radical, e teorias de que política industrial experimentada pelo Brasil até os anos 1970 não funcionou “são descabidas”, já que o cenário econômico atual e a posição do país no mercado mundial mudaram.

“Há teorias de que a política industrial não funcionou no Brasil, no passado, mas hoje o Brasil vive condições econômicas muito melhores”, comparou o economista. O ponto crítico, explicou Ha-Joon Chang, é que, anteriormente, as políticas industriais aplicadas no Brasil não tiveram ênfase suficiente nas exportações, especialmente de bens manufaturados. E reiterou: “Os juros elevados e o câmbio apreciado impedem a expansão da indústria”.

Chang salientou que a Grã-Bretanha e outros países não ficaram ricos praticando o livre comércio. “Eles enriqueceram protegendo sua indústria com políticas adequadas”, observou, acrescentando que a recuperação da indústria brasileira “não pode ser conduzida sem uma política industrial agressiva no longo prazo e mudanças macroeconômicas no curto prazo”.

Mercado diversificado

Nos anos 1960, a Coreia do Sul, escolheu poucos setores para desenvolver sua economia, como o de tecnologia, automotivo e siderúrgico. Mas o economista sul-coreano Chang acredita que um mercado diversificado como o brasileiro também traz vantagens para o desenvolvimento.

“Tamanho é uma questão importante, mas um mercado grande tem vantagens porque consegue se reposicionar economicamente com mais rapidez para atender à demanda. Isso não acontece em Cingapura, por exemplo, que tem indústria especializada em um ou dois segmentos”, explicou.

Ha-Joon Chang é autor do livro Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectivas históricasLeia aqui a entrevista do economista concedida à jornalista Raquel Landim, do jornal O Estado de S. Paulo, publicada nesta segunda-feira (07/05).