Guilherme Sant’Anna e a lucidez de ser o Governador em ‘O Homem de La Mancha’

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

São mais de sete quilos de figurino, fora a responsabilidade de interpretar um dos personagens mais importantes do musical “O Homem de La Mancha”. Mesmo assim, participar da montagem no papel de Governador está bem longe de ser um fardo para o ator Guilherme Sant’Anna.

“O espetáculo tem uma mensagem muito positiva. Ao contrário do que acontece com algumas peças, que até prestam um desserviço, essa faz refletir, pensar, instiga as pessoas e resgata valores. É um presente para quem faz e para quem assiste”, declara o melhor ator de 2005 segundo prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) por seu trabalho em “A Mandrágora” (2004-08).

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Guilherme Sant'Anna: “Procurei compor o personagem com uma certa lucidez e, de repente, ele revira os olhos e entra ‘numa’”. Foto: Beto Moussalli/Fiesp


“É um trabalho muito prazeroso, pela maneira que o Miguel [Falabella] conduziu e como o elenco foi escolhido. Tem uma química boa entre as pessoas. A gente troca muito durante os ensaios. Durante a peça, sente uma energia e uma sintonia entre as pessoas. Tanto que no final o público se emociona bastante.”

O convite para participar do musical veio de pessoas envolvidas com o projeto de Teatro Musical do Sesi-SP, que já conheciam o trabalho de Sant’Anna, que atua desde 1982, como diretor e preparador de atores em teatro e televisão.

“Cleto Baccic e Saulo Vasconcelos foram meus alunos. E quando sugeriram meu nome, Miguel Falabella ficou agradavelmente surpreso porque começamos no teatro juntos”, relembra o ator formado em Artes Cênicas e Pós-Graduado em Arte Integrativa.
“Com a oportunidade de nos encontrarmos e fazermos um trabalho desse porte, ele ficou felicíssimo. E foi um reencontro muito emocionante.”

Ao saber que Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) era a inspiração para o Governador recriado por Falabella, o ator partiu para a pesquisa. “Fui ler tudo que eu conseguia a respeito do Bispo, livros, teses, análises psicológicas”, diz Sant’Anna, que usou muitos elementos da pesquisa na construção do personagem.

“Com a genialidade e a loucura caminhando juntas, o Bispo mandava mais do que os médicos na Colônia Juliano Moreira [no Rio de Janeiro]. Ele era respeitadíssimo e muito ensandecido. Para produzir sua obra, era inspirado por um estado alterado da mente. Procurei compor o personagem com uma certa lucidez e, de repente, ele revira os olhos e entra ‘numa’”, explica.

Além dos paradoxos de gênio e louco, Bispo carregava também a agressividade e sensibilidade. “Procurei não fazê-lo agressivo, mesmo sabendo que ele foi marinheiro e boxeur. Ele tem uma firmeza, mas também uma amorosidade, uma sensibilidade, que aparecem em sua obra.”

Preparação

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Guilherme Sant'Anna: uma das funções do teatro é estimular as pessoas a procurar, ampliar seus horizontes e sensibilizar. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Antes de entrar no palco, o ator investe em preparação de voz e corporal. “Tenho procurado reforçar a parte escapular, porque o manto que eu uso pesa sete quilos. E ele vem em cima de um fardão, de uma camisa e de uma camiseta, para não suar direto no figurino. Isso estimula meu corpo a agir de uma outra forma e ter força para sustentar tudo aquilo. É uma responsabilidade física e moral, sustentar uma imagem de poder com essa traquitana toda.”

Entre as suas cenas preferidas do espetáculo estão as com a personagem de Sara Sarres, a Aldonza/Dulcineia. “Tenho um carinho especial por uma que eu faço com a Aldonza, que ela canta uma música perguntando “o que ele viu em mim?” e eu tiro ela do chão, mostrando que ela é alguém. Para mim, é algo muito forte”, conta ele, que cita ainda uma cena que seu personagem não aparece.

“Acho lindo quando a Aldonza diz para o Dom Quixote “olha pra mim, homem!” e ele responde “eu já tenho você no meu coração”. Porque é mais importante a imagem que ele tem dela do que a realidade. Ele não precisa olhar para ela para saber quem ela é, porque é mais interessante a ilusão.”

Ampliando horizontes

Para Sant’Anna, o texto é o grande diferencial de “O Homem de La Mancha”.

“É muito bom poder levar Cervantes, que o clássico dos clássicos, para um público que não tem essa condição. Muitas pessoas me dizem que nunca leram Dom Quixote e depois da peça foram buscar o livro. Essa é uma das funções do teatro: estimular as pessoas a procurar, ampliar seus horizontes e sensibilizar a partir daquilo.”

O ator destaca ainda o fato de o espetáculo ser oferecido gratuitamente. “É mentira dizer que as pessoas só gostam do que passa na televisão. Toda vez que você oferece coisas boas de forma acessível, o público assimila e quer mais”, argumenta.

“O Sesi-SP desde sempre forma público, ao oferecer espetáculos gratuitos. Quantas pessoas já não passaram por aqui nos 50 anos de teatro e tiveram a oportunidade de ver um espetáculo? É um privilégio estar aqui mais uma vez, com um espetáculo como esse.”