Noite de Reis, de Shakespeare, tem apresentação única no Centro Cultural Fiesp

Agência Indusnet Fiesp

“Noite de Reis é uma peça sobre encontros e desencontros, emoldurada numa trama repleta de reviravoltas e surpresas. A ingenuidade presente nos discursos amorosos dialoga diretamente com o frescor das letras da Jovem Guarda. É um dos meus textos prediletos de Shakespeare”, comenta o diretor Leonardo Cortez. O público poderá ver o resultado dessa mistura no palco do Teatro do Sesi-SP, no Centro Cultural Fiesp, em única apresentação no dia 22 de agosto, às 20h. Os ingressos são gratuitos.

Na trama, os gêmeos idênticos Sebastião (interpretado por Diogo Junqueira) e Viola (Ana Paula Dias) são separados em um naufrágio. Para sobreviver sozinha na ilha de Ilíria, a moça decide se passar por homem para conseguir um emprego como mensageiro. Enquanto ela leva as cartas de amor do Duque Orsino (Daniel Gejer) para a Condessa Olivia (Carolina Dias), um triângulo amoroso para lá de confuso é formado, e os divertidos personagens buscam, cada um à sua maneira, encontrar o amor verdadeiro.

À frente do grupo ADID de Teatro há 19 anos, Cortez conta que a escolha pela trilha sonora incomum para essa montagem foi, em grande parte, fruto da influência do próprio elenco, formado por 20 atores portadores de Síndrome de Down. “A proposta de um espetáculo essencialmente musical vem na carona de uma necessidade pedagógica: a música se revela, desde sempre, instrumento de integração e autoconhecimento”, explica o premiado diretor e ator.

Na peça, Roberto, Erasmo e Wanderléa dão nomes a personagens e suas músicas são cantadas ao vivo pelo próprio elenco. Canções mais atuais como Estúpido Cupido, Esse cara sou eu, Emoções e Além do horizonte também não ficam de fora do repertório da peça, que tem direção musical do musicoterapeuta Higor Cataneo.

“O trabalho com o Grupo ADID é o resultado de um exercício de crença na potencialidade de cada um dos atores, e os desafios superados se revelam a cada fala. Costumo dizer que o público se torna torcedor de uma partida que vencemos juntos”, comenta Cortez. Clique aqui para ler entrevista com o diretor.

Não será a primeira vez que o grupo se apresenta em um dos mais importantes palcos paulistanos. O histórico de quase uma década de parceria com Sesi-SP começou com Sonho de uma Noite de Verão em 2010. “Estamos muito entusiasmados e felizes por estar de volta aos palcos do Sesi-SP. Foi um longo período de ensaios [quase dois anos] em que os atores superaram desafios enormes como intérpretes, e compartilhar essa conquista no palco certamente será algo inesquecível”, afirma o diretor.

Após o espetáculo, os atores e profissionais da ADID farão um bate-papo com o público para discutir a influência das atividades artísticas e culturais no desenvolvimento e inclusão social das pessoas com Síndrome de Down.

Ensaio de Noite de Reis. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

 

Serviço:

Espetáculo Noite de Reis – Grupo ADID de Teatro

Única apresentação: 22 de agosto (terça), 20h

Local: Teatro do Sesi-SP, no Centro Cultural Fiesp (av. Paulista, 1313 – em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)

Capacidade: 456 lugares

Duração: 85 minutos

Gênero: comédia romântica / infanto-juvenil

Classificação indicativa: livre

Grátis. Reservas antecipadas pelo site www.centroculturalfiesp.com.br. Ingressos remanescentes serão distribuídos no dia do espetáculo, a partir do horário de abertura da bilheteria, das 13h às 20h.

Sinopse: Noite de Reis é uma adaptação da obra de William Shakespeare e conta as desventuras de um casal de gêmeos depois de separados em um naufrágio. A trilha sonora é composta por músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, executadas ao vivo pelo próprio elenco.

Ficha Técnica: Direção, adaptação do texto e luz: Leonardo Cortez | Assistente de direção: Glaucia Libertini | Elenco: Ana Paula Dias, Antônio Aranha, Carolina Dias, Daniel Gejer, Diogo Junqueira, Felipe Assunção, Felipe Linden, Giovanna Marteleto, Guilherme Alonso, Ian Pereira, Jéssica Pereira, João Simões, Kátia Maçães, Luciana Sergi, Luís Octávio Almeida, Marcos Minoru Onita, Maria José Rodrigues, Paola Miranda, Renan Sant’ana e Rodrigo Botoni | Cenário: Rosane Chiarantano | Figurinos: Glaucia Libertini e Célia Rosali | Acabamento em crochê: Maria José Rodrigues e Cecília Dias | Direção musical: Higor Cataneo.

Entrevista com Leonardo Cortez, diretor de Noite de Reis

Raisa Scandovieri, Agência Indusnet Fiesp

Nesta entrevista o ator, dramaturgo e professor de teatro Leonardo Cortez  explica seu trabalho e fala sobre Noite de Reis, montagem do Grupo ADID que terá apresentação única nesta terça-feira (22 de agosto) no Centro Cultural Fiesp.

Criado há quase 20 anos em meio às atividades da Associação para o Desenvolvimento Integral do Down (ADID), o grupo vem ao encontro da acentuada identificação dos alunos com Síndrome de Down com a linguagem teatral. Os espetáculos auxiliam os alunos no desenvolvimento da expressividade e da criatividade, ampliando o seu universo cultural.

Ao longo de sua história, o grupo já encenou importantes obras, como Romeu e Julieta (William Shakespeare) em 1998; Cinco Pequenas Histórias em Família (Luiz Fernando Verissimo) em 1999; O Jornal Falado (Coletivo), em 2000; Muito Barulho por Nada (William Shakespeare) em 2002; O Mambembe (Artur de Azevedo) em 2004; Um Violinista no Telhado (Joseph Stein, Sheldon Harnick e Jerry Bock) em 2006; A vida é Sonho (Pedro Calderón) em 2008; Sonho de uma Noite de Verão (William Shakespeare) em 2010; A Viagem do Capitão Tornado (Théophile Gautier) em 2012 e 2013; e Os Miseráveis (Victor Hugo) em 2015 e 2016 – as últimas três encenadas no Teatro do Sesi-SP.

De quando vem a parceria com o Sesi-SP? Como é essa relação?

Leonardo Cortez (LC) – A parceria tem quase dez anos. Iniciamos com o espetáculo Muito Barulho Por Nada e desde então temos percorrido as unidades do Sesi-SP no interior sempre que temos uma nova montagem. O Sesi-SP disponibiliza toda a estrutura de hospedagem, transporte e alimentação, e isso representa a valiosa possibilidade de entrar em turnê com os espetáculos, levando o trabalho e a sua proposta inclusiva para diferentes tipos de público.

A peça conta com 20 atores. Como é trabalhar com um grupo tão grande?

LC  – Trabalhar com um grupo tão grande é um exercício permanente do olhar, na tentativa de extrair o máximo do potencial individual dentro do trabalho coletivo. A relação entre o grupo é de grande respeito e amizade, o que, aliado ao profundo amor que eles têm pelo teatro, faz com que o trabalho aconteça num ambiente muito harmonioso.

Quanto tempo durou a preparação para est montagem?

LC  – Estamos pesquisando e ensaiando esse espetáculo há quase dois anos. É o tempo médio que cada peça leva para ficar pronta.

O que te levou a escolher referências da jovem guarda, como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa (que até dão nomes a alguns dos personagens), para uma adaptação de Shakespeare?

LC  – Noite de Reis é uma peça sobre encontros e desencontros, emoldurada numa trama repleta de reviravoltas e surpresas. A ingenuidade presente nos discursos amorosos da peça dialoga diretamente com o frescor das letras da Jovem Guarda. Além disso, é um universo musical muito apreciado pelos alunos, que contribuíram diretamente na escolha da trilha.

Por que a escolha por canções de Roberto Carlos, Tim Maia e outros cantores, na trilha sonora?

LC  – Quis, com essa montagem, que os alunos se aprofundassem no trabalho musical, incorporando na nossa equipe o musicoterapeuta Higor Cataneo, que há dois anos vem trabalhando ritmo, afinação e musicalidade com eles. A proposta de um espetáculo essencialmente musical vem na carona de uma necessidade pedagógica: a música se revela, desde sempre, instrumento de integração e autoconhecimento.

Por que predominam os clássicos em suas apresentações?

LC  – Grandes textos ampliam o universo cultural dos alunos, revelando épocas diferentes e características humanas inerentes à época em que foram escritos. A escolha dos clássicos vem do meu amor por essa dramaturgia e pela sua potencialidade poética. Além disso, são textos que possuem um leque amplo de personagens, o que atende à necessidade de um grupo tão grande.

Como foi o processo de adaptação desse clássico? Por que o escolheu montar agora?

LC –  Noite de Reis é um dos meus textos prediletos de Shakespeare. O processo de adaptação partiu de improvisos dos próprios atores a partir do estudo da estrutura da obra. Incorporei elementos e falas que surgiram das improvisações e recriei o texto integralmente, com novas situações e personagens de modo a contemplar todos os atores do grupo com bons papéis.

O que essas apresentações aqui em São Paulo e em Itapetininga representam para você e para o grupo?

LC  – Estamos muito entusiasmados e felizes por estar de volta aos palcos do Sesi-SP, na fé convicta de que vamos estabelecer uma linda comunhão com o público. Foi um longo período de ensaios onde os atores superaram desafios enormes como intérpretes. Compartilhar essa conquista certamente será algo inesquecível.

O que o público pode esperar de Noite de Reis?

LC  – O público pode esperar um espetáculo de qualidade, encenado por um grupo absolutamente comprometido e apaixonado pela arte do teatro. O trabalho com o Grupo ADID é o resultado de um exercício de crença na potencialidade de cada um dos atores e os desafios superados se revelam a cada fala, tornando única a experiência como espectador. Costumo dizer que o público se torna torcedor de uma partida que vencemos juntos. Uma apresentação do Grupo ADID estabelece sempre uma comunhão única, com resultados muito emocionantes. E é preciso dizer que o humor do grupo é irresistível.

Encenado por atores portadores de síndrome de down, espetáculo emociona no Teatro do Sesi-SP

Flávia Dias, Agência Indusnet Fiesp

Mais de 400 pessoas acompanharam na noite deste sábado (23/08), no Teatro do Sesi-SP, a apresentação única do espetáculo teatral “A Viagem do Capitão Tornado”. Uma história repleta de paixões, duelos e muita comédia, os 22 atores portadores de síndrome de down do Grupo Adid [Associação para o Desenvolvimento Integral do Down] contagiaram a plateia, com o seu profissionalismo e exemplo de superação.

O ator e protagonista do filme “Os Colegas”, Ariel Goldberg, prestigiou o espetáculo. Sua presença foi muito comemorada pelo elenco, que na semana anterior protagonizara uma campanha na internet, intitulada #vemariel, para levar o ator à estreia da peça. O apresentador Rafael Cortez (ex-CQC) também compareceu.

Com direção de Leonardo Cortez, a peça é uma livre interpretação do romance “Le Capitaine Fracasse” (o Capitão Fracasso), do escritor francês Théophile Gautier, e conta a história de um miserável grupo de teatro que percorre a Europa do século XVIII em busca de novos palcos para suas apresentações. Amores, dores, disputas e aventuras acompanham as viagens desta trupe.

No final do espetáculo, Cortez agradeceu o apoio do Sesi-SP na divulgação do grupo, que já tem duas apresentações programadas para o mês de março, em unidades do Sesi-SP no interior do Estado: “A parceria com o Sesi-SP tem sido ótima para o nosso grupo. Ela nos permite apresentar o espetáculo para públicos diferentes e também divulgar o nosso trabalho”, salientou o diretor do grupo Adid.

Por trás das cortinas

De acordo com Glaucia Libertini, assistente de direção e responsável pelo cenário do espetáculo, os atores participam de ensaios semanais onde são realizadas atividades que estimulam a comunicação. “Eles são atores que já têm uma familiaridade com a linguagem teatral e, até por isso, têm a prática de decorar textos. E, quando cometem erros, têm sensibilidade de improvisar”, analisou Libertini.

Segundo ela, a formação de um ator com síndrome de down dura, em média, um ano e meio: “Os processos são longos para que possamos obter esses resultados”.

Apaixonada pela nova profissão, Ana Beatriz – que interpreta a Sr.ª Giacomelli – garante que continuará investindo na carreira de atriz. “Essa peça foi mais do que um prêmio. Foi um presente que caiu do céu. Eu sempre quis ser atriz e pretendo seguir nesta profissão, pois acho que não tem nada melhor do que aprender a ser atriz do que fazendo teatro”, afirmou.

Opinião compartilhada por sua mãe, Ana Maria Pierre Paiva, que acredita que o trabalho desenvolvido pelo Grupo Adid facilita a comunicação dos atores com a sociedade. “O teatro proporciona uma oportunidade para eles [atores com síndrome de down] se comunicarem. Além de ensinar aos meninos a importância do trabalho em equipe”, avaliou.