‘InteligênciaPontoCom’: Giorgetti e Bacic debatem dificuldades e alternativas para cinema brasileiro

Juan Saavedra, Agência Indusnet Fiesp

“Cinema brasileiro, hoje, não é nada”, disparou o diretor, produtor e roteirista Ugo Giorgetti, um dos convidados da noite de terça-feira (16/07) do InteligênciaPontoCom, evento do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) que promove bate-papos entre o público e grandes nomes da área cultural.

Gregorio Bacic e Ugo Giorgetti (a direita) no InteligênciaPontoCom. Foto: Julia Moraes/Fiesp

 

Giorgetti, autor de filmes como “Sábado”, “Boleiros” e “O Príncipe”, classifica parte dos filmes nacionais que mais fazem sucesso na atualidade como uma “versão piorada” do que é produzido na TV. “É a televisão vulgarizada ainda mais. Ou temos o cinema que ninguém vê, ninguém ouve e ninguém vai”, disse o cineasta no Espaço Mezanino, no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso.

O diretor criticou o modelo atual de incentivos fiscais. “O Estado se omite no julgamento do que é cultura”, afirmou, explicando que a renúncia fiscal abre espaço para a produção de filmes não independentes. “Eu não tenho nada contra ‘De Pernas para o Ar’, nada. A não ser que alguém me obrigue assisti-lo [risos]. A única coisa que tenho contra esse filme é o fato de estar fazendo com dinheiro público”, disse Giorgetti, defendendo a destinação dos incentivos a filmes de caráter mais independente e que, segundo ele, não visem exclusivamente gerar faturamento.

Gregorio Bacic: é preciso procurar alternativas aos esquemas de distribuição. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Outro convidado, o também paulistano Gregório Bacic, jornalista, radialista, documentarista e escritor, um dos criadores e diretor do programa “Provocações”, apresentado por Antonio Abujamra na TV Cultura, falou sobre sua iniciativa, a de levar a exibição de cinema em DVD para a periferia.

“Temos feito uma mostra de cinema nordestino, em que a gente privilegia centros culturais da periferia, escolas do interior”, explicou. “Nós tivemos, há dois anos, no município de Taboão da Serra, numa quarta-feira chuvosa, um público de 800 pessoas para o filme ‘Corisco e Dadá’.”

“O que nos resta nesse momento é criar espaços e levar cinema para pessoas que não têm nem dinheiro para pegar um ônibus, propiciando uma reflexão. É o que consigo enxergar como alternativa possível para sair desse esquema de distribuição e exibição.”

Ugo Giorgetti disse que um dos problemas de se fazer cinema no Brasil é o custo de produção. “Não é o preço de um poema”, ponderou o diretor, explicando mais tarde que produzir TV e publicidade têm sido alternativas de sobrevivência para vários profissionais.

Ugo Giorgetti: 'distribuidor brasileiro é preguiçoso e negligente'. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Giorgetti, que reconheceu ser preguiçoso para filmar fora de São Paulo, disse ainda que a maioria do público brasileiro é despreparada para assistir a filmes mais complexos. “É cultura, educação, um conjunto de coisas que impede que as pessoas gostem daquilo que não é simples. Parece que tem público em São Paulo, mas não tem. É ilusório”, disse o diretor, afirmando que a exibição em espaços como os cinemas Itaú Frei Caneca e Augustaé insuficiente para a sustentabilidade do cinema brasileiro à margem dos grandes esquemas de distribuição.

“O distribuidor brasileiro é preguiçoso e negligente”, disse Giorgetti, explicando que filmes simplórios, com atores conhecidos e que façam rir ganham preferência em relação a outros que não tenham essas características. Bacic emendou, afirmando que essa tendência acaba influenciando os roteiristas.

De acordo com Bacic, as emissoras públicas, como a TV Cultura, cumprem papel importante para a exibição de filmes brasileiros. “A TV Cultura colocou no ar 84 filmes brasileiros, mais do que outras emissoras”, afirmou ele, que disse ser favorável ao estabelecimento de cotas que assegura um percentual mínimo de exibição de produção brasileira nas emissoras de TV paga.

Cinema brasileiro é o tema do InteligênciaPontoCom em julho

Na próxima terça-feira (16/07), às 20h30, o InteligênciaPontoCom, evento que promove bate-papos entre o público e grandes nomes da área cultural, traz Ugo Giorgetti e Gregório Bacic para falar sobre cinema brasileiro tendo a cidade de São Paulo como cenário. O evento acontece no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso e a entrada é gratuita.

Cineasta, produtor e roteirista, o paulistano Ugo Giorgetti nasceu no bairro de Santana, mas sempre teve o centro da cidade como um lugar de sonhos. São Paulo é pano de fundo para muitos de seus filmes: Bairro dos Campos Elíseos (1973); Rua São Bento, 405, Prédio Martinelli (1975); Quebrando a Cara (1977-1986), documentário sobre Eder Jofre, que vem de uma família de boxeadores do bairro de Peruche; e Jogo Duro (1985). Suas produções retratam as transformações da metrópole e de seus habitantes, sempre com o olhar crítico de Ugo sobre o lugar onde vive.

O também paulistano Gregório Bacic é jornalista, radialista, documentarista e escritor, foi diretor-geral de programas educacionais da TV Cultura, atuou como redator, editor e diretor na TV Globo e é um dos criadores e diretor do programa Provocações, apresentado por Antonio Abujamra. Em 1977 criou e dirigiu o documentário Retrato de Classe, uma divertida crônica de costumes que aborda a classe média paulistana dos anos de 1970. Em 2009, Bacic lançou um livro de contos, Olhares Plausíveis, no qual retrata a modernidade acelerada de uma cidade qualquer, mas tendo São Paulo como matriz.

Serviço
InteligênciaPontoCom: Debate sobre cinema tendo a cidade de São Paulo como cenário
Data e Horário: 16 de julho, às 20h30
Local: Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso (Av. Paulista, 1313)