‘A indústria tem um papel importante no combate à desigualdade social’, diz professor em debate na Fiesp

 Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

Já passou da hora de agir. De se importar de verdade com a desigualdade do mundo, arregaçar as mangas e trabalhar para melhorar as coisas. No que depender do Comitê de Responsabilidade Social (Cores) da Fiesp, a indústria vai fazer a sua parte. Tanto que o assunto foi tema do “Encontros Fiesp Sustentabilidade” realizado na noite desta quinta-feira (16/03), na sede da entidade, na capital paulista.

“Todos nós podemos trazer alguma mudança para o mundo”, explicou o professor do Centro Universitário FEI Edson Sadao. “Todos podemos mudar o mundo”. Sadao é pesquisador em áreas como gestão social e empreendedorismo, entre outras.

Para ele, que trabalha orientando as empresas a desenvolverem projetos sociais, é preciso “evitar a descrença e a apatia”. “A indústria tem um papel importante no combate à desigualdade”.

De que forma isso pode ser feito? “A indústria pode investir em educação, apoiar ações de voluntariado, captar recursos para projetos, estimular negócios sociais”, explicou.

Sadao lembrou da experiência pessoal que teve em uma indústria na qual trabalhou, tendo participado de um projeto de educação dos funcionários. “Um porteiro que não tinha nem a quinta série foi um dos alunos mais importantes que eu já tive”, contou. “Queria muito aprender”.

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Sadao: “Todos nós podemos trazer alguma mudança para o mundo”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Segundo o professor, o importante é começar a agir “na sua própria casa”, com iniciativas que ajudem a melhorar primeiro a vida dos trabalhadores da empresa.

Meditação no chão de fábrica

Para ilustrar suas ideias, Sadao destacou a trajetória do empresário Thai Nghiã, da fabricante de sandálias e bolsas feitas a partir da borracha de pneus reciclados Goóc.

Fugido do Vietnã, seu país de origem, Nghiã foi resgatado, à deriva, por um navio brasileiro, razão pela qual veio parar aqui. Sem falar uma palavra em português, conseguiu trabalho, estudou e se matriculou na USP quatro anos depois.

Nessa trajetória, começou a empreender, mas desde sempre com o foco na oferta de algum produto inovador. Segue inovando até hoje e, em sua empresa, oferece ações como a meditação no chão de fábrica. “Nghiã me disse uma vez que a meditação mudou a sua vida e que ele queria dar o exemplo para os seus funcionários”, contou Sadao.

Outra iniciativa da Goóc, segundo o professor, é contratar ex-presidiários e trabalhadores acima dos 60 anos.

Para ajudar a salvar vidas

Outro participante do debate foi o empresário Wataru Ueda, um dos sócios da Magnamed, empresa brasileira de equipamentos médicos.

De acordo com Ueda, a missão da fabricante é “ajudar a preservar vidas inovando continuamente na área de cuidados críticos”.

Fundada há dez anos, por ele e outros dois engenheiros, a companhia sempre teve como foco “devolver alguma coisa para a sociedade”. “Estimamos que 1 milhão de pessoas sejam impactadas, todos os anos, pelo nosso trabalho”, disse.

Ao lado dos funcionários

Diretor de Recursos Humanos e Relações Industriais do Grupo Solvay na América do Sul, Paulo Rocco também apresentou ações variadas na área social. O Solvay é proprietário da marca Rhodia e trabalha mundialmente com produtos e soluções em áreas como química e construção.

“Temos um acordo com a IndustriALL Global Union, organização mundial de sindicatos, para facilitar diálogo com representantes dos nossos trabalhadores em todo o mundo”, explicou Rocco. “Um entendimento que ajuda a preservas os direitos sociais básicos dos funcionários”.

Assim, nas análises de desempenho da empresa, “quem avalia se estamos progredindo ou não de forma sustentável são os nossos empregados”.

E tem mais: “Criamos o Solvay Global Forum, com quatro reuniões anuais com trabalhadores de diferentes partes do mundo, para debater as nossas ações sociais”.

O fruto dessas discussões, foram definidos benefícios para os funcionários da empresa como a licença maternidade e a paternidade e assistência médica com cobertura mínima de 75% das despesas médicas hospitalares em caso de internação ou de doença grave, entre outros. “No Brasil, essas são práticas comuns, mas não é assim nos outros mais de 50 países nos quais operamos”, afirmou Rocco.

‘Os brasileiros me ajudam todos os dias, nem que seja com uma palavra’, diz refugiado sírio em palestra no Congresso do CJE

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Hora de aprender com quem veio de longe e precisou empreender na marra, fora de seu país. Na primeira palestra da tarde no Congresso do Comitê de Jovens Empreendedores (CJE) da Fiesp, foi aberto espaço para que quatro imigrantes falassem sobre “A reinvenção na adversidade”. O evento segue até o final desta terça-feira (01/11) na sede da Fiesp, em São Paulo. O debate foi moderado pelo membro do CJE Henrique Olivan.

Thái Quang Nghiã, fundador da fabricante de bolsas e calçados Goóc, falou sobre o seu passado de dificuldades no então Vietnã do Norte, o que levou sua família a enviá-lo para fora, por medo que suas posições críticas ao regime lhe causassem problemas.

Isso foi em 1978. Na viagem, seu navio teve que ser resgatado. A ajuda veio de um barco brasileiro. Depois de um período em Cingapura esperando a liberação de documentos, chegou ao Brasil em 1979, em pleno Carnaval. E isso sem estrutura para receber imigrantes. Aos 21 anos, sem família e sem falar português, sendo o vietnamita diferente de todos os outros idiomas.

“Sempre gostei de estudar e de ler”, disse Nghiã. Sem saber o que fazer, e como falava um pouco de francês, começou a fazer a chamada tradução triangular:  do vietnamita para o francês e então para o português. Depois, foi atrás dos cursos do Sesi-SP e do Senai-SP, pelo que agradeceu aos paulistas. E então entrou na USP, quatro anos depois de chegar ao Brasil. Até que veio o Plano Cruzado, em 1986. “Um amigo para quem tinha emprestado dinheiro quebrou, não conseguiu saldar a dívida e me deu máquinas em troca”, afirmou. “Foi então que me senti empurrado a começar um negócio, mesmo sem ter planejado”. Assim, vendeu a sua produção inicial de bolsas rapidamente e concluiu que seria melhor empreender, ganhando mais do que deixando o dinheiro no banco e, de quebra, não tendo chefe.

Tantos anos depois, ele reflete que muito aprendeu sobre tolerância e diversidade no Brasil. “Mesmo com a crise, tudo segue bem na minha família”, contou. “Até a minha ex convive bem com a minha mulher”, brincou. “Com os meus parentes que vivem fora do Brasil não é assim, não há tanta tolerância e diálogo”.

‘O Brasil me escolheu’

Refugiado sírio vindo de Damasco, Talal Altinawi tem um restaurante de comida árabe na capital paulista. Prestes a completar três anos no Brasil, ele fugiu da guerra e veio com a mulher e os filhos. Tinha somente noções do que é o país e veio para cá porque as portas estavam abertas para a entrada de sírios sem documentos. “Por isso escolhi o Brasil. Ou o Brasil me escolheu”. Antes, fez uma escala de dez meses em Beirute, no Líbano.

Decidiu ficar em São Paulo e foi recebido por três meses por um brasileiro descendente de sírios. Começou em fevereiro de 2014 um negócio de roupas para vender na Feira da Madrugada, no Brás, o que durou até agosto. Em maio já trabalhava como engenheiro, sua área de formação, mas meses depois a empresa fechou. Agora trabalha como cozinheiro. “Fiz uma festa de aniversário e recebi a sugestão de fazer comida árabe como negócio”, afirmou. “Comecei com eventos como a Festa da Imigração e aniversários”.

O dinheiro para abrir seu restaurante, seu próximo passo, num total de R$ 72.000, foi arrecadado num site de crowdfunding, mais que os R$ 60.000 de sua meta inicial. Em janeiro de 2016, com os recursos em mão, escolheu o Brooklin para instalar o restaurante, porque em outubro tinha feito palestra num colégio do bairro, que ofereceu bolsa de estudos para os seus filhos.

“Minha vida é boa, mas eu quero que fique melhor”, afirmou Altinawi.

Também sírio, Anas Obeid é outro empreendedor que diz ter sido escolhido pelo Brasil. Depois de ter ido para o Líbano sem passaporte, foi ao consulado brasileiro e conseguiu passaporte do país. Um ano e quatro meses depois, sente-se bem aqui. Jornalista, começou a enviar reportagens para uma publicação em Londres. Paralelamente, cozinhava. “Indo a um evento, aluguei um box para vender produtos árabes, ainda sem saber o que seria”, contou. “Na Síria é comum fazer na hora os perfumes, misturando as essências e o fixador. Quis fazer o mesmo aqui e trabalho com isso até hoje”.

Para ele, o segredo é “trabalhar mais e gastar menos”. “Os brasileiros me ajudam todos os dias, nem que seja com uma palavra”, disse.

Direto do Bênim

Vinda do Bênim, na África, Ozias Japhette La Blessed chegou aqui num programa de estudos para a graduação em Design Gráfico. Além disso, estudou português. Encontrou no Brasil estereótipos sobre a África com as quais não se identificava.

Assim, juntou-se a outras meninas conterrâneas e começou a apresentar em Bauru, no interior paulista, desfiles culturais. O próximo passo foi abrir a sua marca, a Modukpê, confecção especializada em roupas de inspiração africana.

“Tinha um sonho de menina de trabalhar com moda”, contou. “E faltava um trabalho com moda africana no Brasil”.

Os próximos planos? Voltar para casa e abrir a sua confecção lá depois de formada, em 2017, mas “sempre mantendo o Brasil como uma base de comercialização”.

Para o coordenador do debate, foram apresentadas quatro histórias inspiradoras aos participantes do congresso. “Vimos quatro exemplos de pessoas que vieram, venceram, estão vencendo e encontrando novas formas de vencer”, afirmou Olivan.

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Os empreendedores que se estabeleceram no Brasil: lições de tolerância e superação. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

‘Se você quer salvar o mundo, antes precisa salvar a si mesmo’, diz o vietnamita Thai Nghia, no Festemp

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

O vietnamita Thai Nghia encantou a plateia com sua história de vida no auditório do Festival de Empreendedorismo (Festemp) durante toda a tarde desta quinta-feira (26/09). O evento reuniu empreendedores que apresentaram seus cases, ocasião em que o criador da Goóc mostrou como suas experiências pessoais resultaram no sucesso da sua empresa.

O Festemp é realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem da Indústria de São Paulo (Senai-SP) no Anhembi, na capital paulista.

Filho caçula de uma família de boas condições no Vietnã, Nghia nunca se conformou com o regime imposto em seu país, o que motivou sua necessidade de fugir.

E o destino trouxe Thai para o Brasil. Ele e outros fugitivos do Vietnã foram resgatados por um navio petroleiro brasileiro e acabaram no Rio de Janeiro “em pleno Carnaval”. “Cheguei em 1979 na Cidade Maravilhosa, mas o Brasil não tinha preparação nenhuma para receber os estrangeiros, integrá-los na sociedade”, contou. “Ficamos na favela e meses depois fomos para São Paulo, para morar em um albergue.”

Segundo o empreendedor, “só depois que começou a cair a ficha”. “Eu tinha 21 anos, era filhinho de papai, nunca tinha trabalhado, não tinha uma profissão. O que fazer da minha vida? Não conhecia ninguém, não sabia para onde ir, não encontrava ninguém que falava minha língua”, lembrou. “Mas foi quando eu pensei: estou na Praça da Sé, em terra firme, não vou afundar como no alto-mar”, contou. “Procurei livros para aprender português e só encontrei um dicionário francês-português. Foi o primeiro caminho.”

Thai Nghia: chegada ao Brasil em pleno Carnaval carioca, em 1979. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Thai Nghia: chegada ao Brasil no Rio de Janeiro, em pleno Carnaval, em 1979. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Aos poucos, ele foi colocando em prática seus objetivos: se comunicar, se sustentar, estudar – consegui até realizar o sonho de estudar na Universidade de  de São Paulo (USP )– e ter seu primeiro emprego. Trabalhando em um banco, seu primeiro plano foi tornar-se um executivo. Mas, quando percebeu que era um objetivo que não se realizaria tão rápido, o espírito empreendedor começou a aparecer.

Bolsas da 25 de Março

Começou vendendo bolsas da 25 de Março em bairros próximos da USP, onde estudava. Em duas semanas, vendeu tudo. “Mas as coisas não são foram tão simples assim. Quando trabalhava no banco, tinha carro, podia ir para a praia, ir para a balada”, disse. “Quando comecei meu próprio negócio, não tem mais balada, nem praia, nem nada. Meu apartamento passou a ser estoque de tecido. Com a inflação alta, precisava comprar e estocar ”, contou o empresário.

Thai aproveitou para aconselhar o público a não “dormir com o inimigo”, ou seja, não deixar que outras pessoas o tirem do caminho. “A gente tem que ser determinado. Se não, a pessoa vai demarcar nosso território e você deixa sua vida pela decisão do outro.”

A inspiração para criar a Goóc surgiu em uma visita que ele fez ao Vietnã. “Vi uma sandália usada no Vietnã feita com câmara de caminhão. As pessoas montam essa sandálias e vão para luta”, disse. “Para mim, ela  é símbolo da resistência”, comentou. “O meu país passou por muitos ataques e problemas, mas continua resistindo.”

Para ele, no caso da  Goóc, a mensagem é mais importante do que o produto. “O produto acaba, é volátil, o que importa é levar o conceito”, explicou o empresário, que concluiu apresentando as mensagens principais de seus produtos.

“Ecologia, preservação das raízes e superação. Uma tem tudo a ver com a outra. Se você quer salvar o mundo, antes precisa salvar a si mesmo”, explicou. “Aguente os problemas da vida. Reclame cinco minutos e depois volte a trabalhar, a fazer as coisas”, alertou.

E isso não é tudo. “Depois, proteja as pessoas ao seu redor, a sua família, as pessoas que você ama, a sua cultura, as suas raízes. Goóc significa raízes. Isso é sustentabilidade.”


Internacionalização e inovação

Outros empreendedores trouxeram seus cases para o Festemp nesta quinta-feira. De forma descontraída, Flavio Pripas, da Fashion.me – Fashion Social Discovery Platform, contou como surgiu a rede social de moda, criada no final de 2008.

“Meu sócio e eu trabalhávamos no mercado financeiro e as nossas esposas se conheciam e queriam abrir uma loja de roupas. Pensamos em fazer algo na internet”, disse. “Entre o final de 2008 e o começo de 2009, começaram a falar de rede social e percebemos que o site que tínhamos criado para as nossas esposas em agosto de 2008, onde as pessoas podiam interagir, era uma rede social de moda.”

Pripas: “Muitas coisas deram certo, outras não, de modo que precisamos voltar para casa e fazer a lição”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Pripas e suas lições de empreendedor: “Muitas coisas deram certo, outras não”. Foto: Everton Amaro/Fiesp


No fim de março de 2009, o Fashion.me – que na época ainda chamava ByMK – alcançou 20 mil visitas por dia com zero de investimento. Foi quando as mulheres deram lugar aos maridos no comando da start up.

Hoje, a empresa está iniciando seu processo de internacionalização. “Para nós, foi um aprendizado”, contou. “Muitas coisas deram certo, outras não, de modo que precisamos voltar para casa e fazer a nossa lição.”


O melhor atendimento

Considerado um dos melhores sites de comércio on-line no Brasil, o Netshoes também teve sua história contada no Festemp pelo seu fundador, Marcio Kumruiam.

O sucesso da empresa veio de atitudes corajosas, como a decisão de se dedicar exclusivamente a artigos esportivos – a Netshoes era uma loja de calçados em geral – e o encerramento das lojas físicas para realizar vendas somente on-line. “O Brasil é um país desenvolvido, mas o interior é fraco em comércio, não tem grandes lojas. Pela internet, podíamos colocar uma loja de esporte com todos os lançamentos disponíveis para todos.”

Os três pilares defendidos pela Netshoes também foram fundamentais para garantir o reconhecimento que a empresa tem hoje. “Um dos pilares da companhia, desde o princípio, foi oferecer o melhor atendimento ao cliente. O segundo é a inovação. E, por fim, o investimento na equipe”, disse Kumruiam.

Kumruiam: foco no cliente e na qualidade do atendimento na Netshoes. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Kumruiam: foco no cliente e na qualidade do atendimento à frente da Netshoes. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Hoje a Netshoes já está no México e na Argentina, para onde a empresa despacha cerca de 2 mil pedidos/dia. No Brasil, são entre 25 e 30 mil pedidos/diariamente.


Oportunidades escondidas

Encerrando a apresentação dos cases, Flavio Rocha, presidente da Riachuelo, falou sobre história da empresa, “que começou a ser escrita há 67 anos”. “A missão da Riachuelo é dar acesso à moda, que sempre foi algo excludente.”

Rocha, da Riachuelo: fim da exclusão na moda e foco no varejo. Foto: Beto Moussalli/Fiesp

Rocha, da Riachuelo: fim da exclusão na moda e foco no crescimento do varejo. Foto: Beto Moussalli/Fiesp


Rocha também analisou a atual situação do varejo no Brasil. “Não existe economia de primeiro mundo sem varejo e estou certo que esse será o setor mais promissor da próxima década”, afirmou. “Quero incentivar os jovens que querem empreender a ter um olhar mais amplo sobre o varejo e aos investidores a ver as oportunidades escondidas no setor.”